Publicado um ano depois de Os Filhos do Flagelo, este terceiro volume das Crónicas de Allaryia é a prova mais que viva de uma contínua evolução de Filipe Faria na sua incursão pela escrita, bem como do mundo criado pela sua grande imaginação.

Marés Negras

Atenção: Esta crítica contém spoilers para quem não leu os livros.

Marés Negras dá continuidade aos acontecimentos do seu predecessor. O grupo está de novo reunido, mas nem tudo são boas notícias. A morte de Babaki provocou um grande abalo nos companheiros, e o ataque dos Fadados e de Hazabel no fim do volume anterior deixou Lhiannah gravemente ferida. Enraivecido, Aewyre procura ajuda das autoridades de Val-Oryth para identificar os agressores, sem sucesso. Determinado a fazer justiça pelas próprias mãos, o guerreiro obtém informações sobre um possível paradeiro dos culpados e planeia uma forma de os apanhar.

Enquanto isso, outras personagens fazem as suas jogadas. Com vingança como seu único objetivo, Tannath viaja para norte, procurando incessantemente Quenestil e Slayra, os responsáveis pelo seu exílio de Jazurrieh. Linsha, uma feiticeira ao serviço de um poderoso mago, espia os nossos heróis, de forma a saber mais sobre eles. Kror continua nas Estepes de Karatai, mas é apenas uma questão de tempo até a Essência da Lâmina o chamar para o inevitável confronto com Aewyre. Em Ul-Thoryn, os preparativos para o casamento entre Aereth e a filha do regente de uma cidade vizinha estão correr com toda a normalidade, sem que ninguém da corte se aperceba que Dilet, o bobo, está a planear algo grande nas sombras.

Entretanto, Aewyre e os restantes companheiros recebem um convite de Malagor, mestre de Linsha e um dos três magos que governa Tanarch, para a sua torre. Contudo, mal se encontram frente-a-frente com o mago, Allumno reconhece-o e uma tremenda luta se inicia, culminando com a morte de Malagor. Como consequência desse ato, os companheiros são feitos prisioneiros e levados a julgamento. Felizmente, são salvos por um grupo de sirulianos, um povo de humanos altos e fortes que durante anos lutam contra as forças de Asmodeon. De forma a livrar os nossos heróis da condenação, Aelgar Moryth, um Mandatário siruliano, conduz os companheiros para Sirulia, onde terão de se preparar a mais violenta batalha que já enfrentaram na vida.

Neste volume toda a ação começa muito mais lenta que nos anteriores, com a primeira metade focando-se num objetivo menor e não oferecendo ao leitor muito desenvolvimento no enredo. Contudo, tudo isso é compensado com uma enorme melhoria no desenvolvimento de personagens e uma mais sólida confiança na mitologia que circunda Allaryia. As descrições estão ainda mais detalhadas, começando a notar-se um dos pontos característicos de Filipe Faria nesta série. Começamos a ter direito a descrições que duram várias páginas, focando-nos em pormenores que apenas servem como um auxílio para imaginar tal e qual o que o autor imaginou durante a conceção deste livro.

Contudo, apesar do ritmo lento da primeira metade, é na segunda que tudo começa a ficar bem mais interessante. A preparação para a inevitável batalha é imensa, e só pensamos em ser generosamente recompensados quando a mesma chegar a acontecer. E apesar da longa leitura, não ficamos desiludidos com o resultado. Os capítulos que abordam a batalha são tão envolventes que quase acreditamos que estamos a chegar à conclusão da aventura. Tannath envolve-se na batalha, Kror intervém, segredos são revelados e, finalmente, Aewyre descobre o que realmente aconteceu ao pai, acabando por sofrer com as consequências dessa descoberta.

Todo este livro é um encastelar de acontecimentos, começando com algo menor e culminando numa imensa batalha que deixou marcas a todos. Sem dúvida um dos melhores volumes das Crónicas de Allaryia, que nos deixa com uma sensação de satisfação com o resultado mas também empolgada com o que daí provirá.

Nota final: 9/10