A primeira longa-metragem de Hossein Amini prometia bastante devido ao seu grande elenco e enredo interessante, mas o grande desaproveitamento destes elementos fez de As Duas Faces de Janeiro um filme entediante. Estreia hoje em Portugal.

Passada em 1962, a narrativa acompanha Chester MacFarland (Viggo Mortensen), um ex-militar que enriqueceu à custa de terceiros e que passa agora umas férias na Grécia com a sua mulher Colette (Kirsten Dunst). Acidentalmente matou uma das pessoas que enganou. Para escapar à polícia, pede ajuda ao guia turístico Rydal (Oscar Isaac) para voltar aos EUA são e salvo.

Como o leitor pode ter reparado, os nomes dos atores que se encontram dentro dos parêntesis são excelentes e qualquer filme com um elenco destes teria certamente capacidades para alcançar grande qualidade. A história em si, cheia de pequenas intrigas, triângulos amorosos e fantasmas do passado que as personagens fazem por esquecer, é propícia a uma aventura cheia de suspense e até alguns twists na narrativa. E o homem que assinou tanto o argumento como a realização de As Duas Faces de Janeiro até já esteve nomeado para um Oscar de Melhor Argumento.

O que pode correr mal num filme com tantos bons fatores? Pelos vistos muita coisa. Tirando o maravilhoso elenco, toda esta longa-metragem é completamente desinteressante e, em certas alturas, mesmo muito aborrecida. Embora a narrativa tenha bastante potencial, a forma como foi estruturada deixa muito a desejar e muitos são os segmentos onde se esperaria um clímax ou algo que lhes desse mais força ou interesse. Mas, de uma ponta à outra da fita, não se sai do mesmo tom monótono que faz com que As Duas Faces de Janeiro pareça mais longo do que realmente é.

Hossein Amini escreveu os argumentos de As Asas do Amor e Drive – Risco Dulpo, ambos muito bons e bastante reconhecidos, mas as suas aptidões parecem ter desaparecido completamente (algo que até já se tinha evidenciado no seu último trabalho de argumentista em 47 Ronin). A superficialidade e previsibilidade dos diálogos também não ajuda em nada a atrair mais as atenções e o trio de protagonistas, que poderiam vir a ser bastante complexos, são afinal três estereotipadas e desinspiradas personagens cujo desenvolvimento psicológico é do mais simples que pode haver.

A forma convencional e mainstream como foi filmado As Duas Faces de Janeiro não consegue dar lá muita originalidade à obra nem libertá-la dos muitos lugares comuns onde vai tropeçando. Tirando uma ou outra decisão mais interessante tomada por Amini, como um plano sequência simples mas inteligente quase no desfecho do filme, mais de dois terços da longa-metragem são filmados desinspiradamente e sem muita ambição, banalizando até, por vezes, os belíssimos cenários gregos e desaproveitando a excelente fotografia.

Quem espera ver uma história cativante onde tudo pode acontecer e conhecer um grupo de boas personagens ao nível dos atores que lhes dão vida, então o melhor que tem a fazer é dar uma vista de olhos aos outros títulos em cartaz, porque As Duas Faces de Janeiro não é nem de perto um filme que reúna tais caraterísticas.

3/10

Ficha Técnica

Título: The Two Faces of January

Realizador: Hossein Amini

Argumento: Hossein Amini, a partir da obra homónima de Patricia Highsmith

Elenco:  Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac

Género: Suspense, Mistério, Drama

Duração: 96 minutos