05/00/1968

Onde pára o crítico? O empobrecimento do cinema e o afastamento do público

Estão longe os tempos em que as palavras de alguns dos mais famosos críticos da história do cinema desafiavam correntes cinematográficas e a sua poderosa indústria. Onde estão eles hoje quando o cinema mais precisa?

No passado, várias gerações destes homens do cinema trouxeram justo reconhecimento a realizadores desconhecidos, foram impiedosos com alguns dos cineastas da moda, e denunciaram, por vezes com muita veemência, a ausência de ideias e as estéticas ultrapassadas ou de mau gosto. Pela sua ação deram ao cinema todas as suas dimensões: artística, política, ativista, documental, ou industrial e de entretenimento.

Desde os primórdios da crítica, que respondeu à necessidade de disponibilizar uma análise sobre os produtos de uma arte recente, o cinema é analisado não só através de comentários mais ou menos informados sobre as suas obras, mas por uma corrente de fundo de análises profundas a todas as suas dimensões. Fizeram-no pessoas cuja intervenção ajudou o cinema a crescer, realizadores críticos como Eisenstein, assim como várias vagas de críticos interventivos que têm como exemplo paradigmático a Nouvelle Vague e os seus três maiores e mais violentos críticos, André Bazin, Jean-Luc Godard e François Truffaut.

Truffaut

Hoje em dia sobrevive pouca da crítica que floresceu pela mão de importantes e reconhecidos conhecedores do cinema, que escreveram para importantes jornais e revistas. Poucos os conhecem ainda pelo nome. Portugal segue esta tendência, com o recente, e por isso mais presente, afastamento de Eurico de Barros do DN, e os sucessivos falhanços das revistas portuguesas do género.

Mas esta transformação não se deve apenas ao desaparecimento normal de alguns destes homens do cinema, ou à adaptação da arte aos desafios dos novos meios e temas, nem mesmo à alteração da maneira como a informação, a cultura e a arte são difundidas na sociedade. Ocorreu sim uma mudança na relação entre o público e a sala, entre o público e o filme, entre o público e o agente do cinema, seja ele o realizador, actor, distribuidor ou critico, e infelizmente esta mudança não é apenas explicável por estes circunstancialismos.

É importante apontar o dedo às manobras das poderosas e monopolizadoras indústrias de produção e distribuição, que navegam melhor os mares da tecnologia e da promoção em massa do produto fresco, o cinema ralo para as massas que apelidamos de blockbuster, esta megaprodução que gera mais receita do que todo o cinema independente mundial combinado do seu ano, sendo em toda a sua banalidade esquecido no ano seguinte.

Weinstein

Esta forma de distribuição monopolizada de um produto destinado às massas acríticas não se compadece com o papel do crítico de cinema. O típico blockbuster não precisa de uma opinião informada sobre o seu mérito enquanto obra de arte, precisa apenas que lhe atirem milhões em publicidade e manipulação digital. Cumpre o seu papel, não pode é tomar conta do cinema. O neo-realismo e a Nouvelle Vague, que trouxeram um cinema de estúdio para a rua em diferentes ocasiões, assim como a discussão sobre o mundo e sobre ele próprio, estão agora condenados a serem sucedidos pelas incontáveis cenas rodadas contra um ecrã verde. A indústria do cinema não olha mais para a vida ou para o mundo, assume agora o papel de produto descartável cujo fim é o consumo de tempo do público e a receita de bilheteira. 2h30 gastas por semana a ver algo para esquecer o mais depressa possível.

O cinema de autor está pelas ruas da amargura, com os festivais de cinema a ocuparem um nicho cada vez mais distante do público e cada vez mais vistos por ele como palcos de um cinema artístico e elitista, entrincheirado nos seus redutos revestidos de uma aura histórica que já pouco representa.

cahiers du

No entanto a culpa não pode ser atribuída exclusivamente aos longínquos senhores da indústria. Parte dos apelidados críticos revestiram as suas carreiras de uma importância auto-atribuída, construindo um elitismo à volta do produto do seu trabalho, a crítica. Com a conivência dos organizadores de alguns festivais, que muito tinham e têm a ganhar com a aprovação pública da crítica de elite, criaram um espaço no cinema que ultrapassando a saudável independência pode apenas ser apelidado de decadente.

Assim, aqueles de quem se esperava uma defesa do cinema enquanto arte para todos, enquanto arte independente e viva, contribuíram tanto como as necrófagas distribuidoras para o seu estado actual.

O público foi rápido a diagnosticar a soberba daqueles que se diziam os maiores conhecedores do cinema. Para referir apenas um dos estudos sobre o assunto The Influence Effect of Critics’ Reviews on Foreign and Domestic Movies da Universidade de Duke, é referido que quando a avaliação da critica aos filmes nacionais (EUA) é positiva, o impacto sobre a bilheteira é negativo. O público passou não apenas a ignorar o crítico, mas nalguns casos a desprezar a sua opinião.

Para substituir o crítico caído em desgraça rapidamente foi encontrada uma solução. Desde as páginas de “crítica livre” na internet,  mais ou menos depuradas (de referir o famoso IMDB), ao recrutamento do crítico light, cuja postura face ao cinema termina na pontuação que dá a cada crítica que lhe encomendam, tudo contribuiu para a diluição do conteúdo numa explosão do número de pessoas cuja produção de frases sobre filmes constituiu crítica, na ausência de uma que realmente o fosse.

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Paralelamente, e no entanto, face à distribuição e à indústria o público é largamente acrítico. Por um lado a sua relação com estes agentes do cinema é mais longínqua, por outro a propaganda e o dinheiro retiram muita da honestidade, igualdade e justiça no acesso dos filmes às salas de cinema e ao público, que está a jusante deste tipo de lutas, e não é tido nem achado nas decisões que lá são tomadas.

O crítico é porventura hoje, mais do que nunca, enormemente necessário, principalmente como autor da denúncia do que está podre e decadente no cinema actual. O seu serviço à arte à qual se dedica passa hoje por esse caminho, não pode continuar a cumprir a função de degustador do cinema gourmet para a elite, ou de relatador de matraquilhos por encomenda da distribuição, contentando-se a dar o providencial seis aos sucessivos filmes que lhe são atirados para monte dos “por criticar”.

Que a crítica tenha a coragem de se renovar, de honrar um papel quase tão velho como o próprio cinema, e de gritar que o rei vai nu. É esse o seu papel, o que acontece a seguir depende do público, e o público quando ama a arte junta-se sempre a quem verdadeiramente a defende.

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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