Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

Existe uma coisa a que eu gosto de chamar “queixume” e que é muito portuguesa. O queixume é aquilo que se faz e se diz para desculpar uma suposta falta de sucesso ou reconhecimento. Aqui, no queixume, inclui-se o lamento de se ter nascido português: se a Mariza e os Moonspell não fossem portugueses…; se o José Cid não tivesse nascido na Chamusca…; se o Siza Vieira tivesse nascido lá fora…; etc. etc. Normalmente, eu diria que isso são bazófias. Se a Margarida Rebelo Pinto fosse inglesa ou americana, talvez nem fosse escritora. O mesmo com a Ana Malhoa e o Leandro na música ou com o Hélder Postiga no futebol. Mas existem casos em que é preciso dar o braço a torcer e, por isso, eu acredito, não só que o José Cid é melhor que o Elton John, mas também que se o filme Belarmino de Fernando Lopes fosse francês ou italiano, o reconhecimento seria outro.

Belarmino foi a primeira longa-metragem de Fernando Lopes e é ainda hoje um marco do cinema português. O facto de ter sido exibido pela primeira vez há 50 anos (!) e continuar a ser uma referência do nosso cinema diz muito sobre a qualidade e magia que este documentário biográfico tem em si impregnado. Aliás, este acaba por ser um daqueles filmes onde sentimos que algo especial se está a passar à frente dos nossos olhos, sem sabermos muito bem o que é à primeira vista, sabemos que queremos fazer parte dessa coisa especial. Essa coisa é a sinceridade, a honestidade e um realismo sem rodriguinhos e ornatos.

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O inesquecível filme narra a história de vida de Belarmino Fragoso, antigo campeão de boxe, pautada pelo percurso irónico da miséria à fama e da fama à miséria, uma espécie de viagem de ida e volta até ao inferno. Com a inteligência e a perspicácia no máximo, aliada a um pragmatismo igualmente admirável, Fernando Lopes mistura o documental e drama social do antigo lutador ao longo de uma longa entrevista, onde Belarmino relata os acontecimentos desgostosos do seu passado e nos deixa entrar no íntimo de um homem rude, amargurado e truculento.

O discurso do entrevistador e dos entrevistados é corrido, sem cuidados e enfeites, o que ajuda a entrar no mundo cruel e calejado de Belarmino Fragoso. É esse o ás de espadas de Fernando Lopes: o realismo cru. A forma de falar titubeante e carregada de erros de linguagem do pugilista mostra-nos um homem analfabeto, ignorante e facilmente enganado por agentes e amigos falsos. Os depoimentos dissimulados e quase trocistas dos agentes que enganaram Belarmino ajudam a compor esta obra realista, carregada de desgraça e de uma piedade mordaz. O uso do Fado – a música e o destino – demonstra, mais uma vez, a personalidade e talento que Fernando Lopes agrega à película realista, ligando a história a uma certa nostalgia de Lisboa. O realizador português corre um pouco na mesma senda de Vittorio De Sica em Ladrões de Bicicletas, onde a música tipicamente italiana é utilizada para fortalecer a construção de um cenário e toda uma realidade social e cultural.

A história de Belarmino Fragoso vai desde o tempo em que este trabalhava como engraxador até aos tempos gloriosos do boxe. Aí, Belarmino torna-se uma espécie de escravo do seu agente. Analfabeto, o pugilista era campeão, tinha até lutado no estrangeiro e era reconhecido pela sua perícia enquanto lutador, mas isso não lhe trazia a bonança financeira. Os sonhos e as ilusões alimentadas pelo mundo do boxe depressa deram lugar à exploração e ao aproveitamento por parte dos managers, até que Belarmino é já demasiado velho para lutar e é então deixado por sua conta, sem instrução, sem emprego e com uma família para sustentar. É esse o lamento patente durante os oitenta minutos de fita: Belarmino deixou de ganhar o dinheiro que… nunca teve.

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Aos 32 anos, Belarmino volta à vida de engraxador, admite pedir muitas vezes dinheiro emprestado para pôr comida na mesa e relembra os dias em que ia para combate com a barriga vazia. Casado e com duas filhas, o ex-pugilista é muitas vezes visto em cabarés e na companhia de prostitutas, aliás, Fernando Lopes dedica mesmo uma parte do documentário às técnicas de flirt de Belarmino em plenas ruas lisboetas. Por entre as entrevistas, a banda de música e as cenas de combate muito bem filmadas, Belarmino assume-se como uma das pérolas do cinema português e um grandioso filme sobre boxe, bem superior, por exemplo, à curta Day of the Fight de Stanley Kubrick. O legado deixado pelo filme de Fernando Lopes também é bem mais grandioso do que muitos podem imaginar, já que, aquando de Raging Bull, Martin Scorsese admitiu que, entre outras coisas, se inspirou num “grande filme português”. Esse filme era Belarmino.

Belarmino acaba por ser um filme que respira Portugal no melhor e no pior, onde o queixume não pode entrar. Mas, no final de contas, se ser português é uma pedra no sapato, ninguém se vai importar muito com isso. Belarmino, “foste sempre pouco, com medo de ser inteiro”, dizem os Linda Martini e dizem-no com um propósito, com um sentimento e com a noção que a força e a fraqueza, a fama e a miséria e o ringue e a graxa de Belarmino muitas vezes não são coisas assim tão distantes. No final, fica-nos uma das últimas frases ditas por Belarmino Fragoso no documentário: “Para o boxe não vão arquitectos, nem engenheiros. São homens como eu, vadios”.

Ficha Técnica:

Título: Belarmino

Realizador: Fernando Lopes

Argumento: Fernando Lopes

Elenco: Belarmino Fragoso, Jean Pierre Gebler e Maria Teresa de Noronha 

Nota: 8.5/10