As vozes irrompem no escuro proferindo textos sem nexo,  murmúrios repetidos e ofegantes. A câmara, o nosso próprio olhar exterior submergido na tela, segue entre portas, janelas e fechaduras as silhuetas e sombras de sujeitos que deambulam pelas salas vazias. Ao mesmo compasso, os seus pensamentos frenéticos correm sem limites como cavalos desprovidos de amarras, vagueando à deriva da realidade. Este é o ínicio de uma das mais belas longas-metragens em competição nacional no DocLisboa’14.

Pára-me de repente o Pensamento de Jorge Pelicano tem o seu ponto de partida nos versos de Ângelo de Lima, um escritor boémio diagnosticado com esquizofrenia e internado no hospital psiquiátrico Conde Ferreira. O mesmo hospital é agora palco do documentário, que retrata a vida quotidiana dos pacientes. Uns vivem na sua loucura e ironizam com a sua doença, outros na lucidez explicam os seus fantasmas, tormentas e sintomas. Uns têm medo de enfrentar a realidade no exterior, outros anseiam a cura para conquistar a liberdade no mundo lá fora.

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O filme é um ensaio que homenageia e engrandece os pacientes, desmistificando os clichés sociais sobre as doenças mentais. Entre medicamentos e injeções tão comuns nos hospitais, também há a hora do café e do cigarro.  Entre a loucura e a sanidade, os pacientes desenvolvem os seus relacionamentos de amor e amizade, ao mesmo tempo que tentam se integrar nas iniciativas como teatro, música, dança, costura…

Do mundo exterior, chega Miguel Borges, um ator de teatro que trabalha a sua personagem no hospital. Através das conversas travadas, o espetador aproxima-se da universo dos utentes, que sofrem interiormente, travando uma batalha diária com os seus pensamentos inquietos. Miguel é uma peça fundamental para o sucesso deste filme, pois através dele o espetador coloca-se no interior do hospital, criando empatia com cada doente.

O filme culmina com uma peça de teatro sobre Ângelo de Lima, em que Miguel Borges e os doentes revertem os papéis. O ator interpreta o poema do escritor envolvido em surtos esquizofrénicos e os doentes são os médicos e senhores de alta sociedade que lidam com os pacientes. Esta inversão de papéis leva o espetador a refletir. Todos somos seres humanos e tanto a loucura como a sanidade podem tocar-nos a todos.

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O realizador consegue de forma sublime abordar este tema com um toque leve e simultaneamente profundo, mantendo a dignidade e o respeito por todos os pacientes. As imagens belas transmitem, com planos gerais e aproximados, desfocados e sombreados, a imensidão das salas vazias e  as expressões incríveis dos doentes.  Os diálogos são dotados de uma espontaneidade surpreendente, relatos de dor e sofrimento com um toque humorístico para quebrar o gelo.

Um filme belo em todas as suas dimensões, que trata com humanidade os doentes e os aproxima de nós. Pará-me de repente o Pensamento é sem dúvida um dos potenciais candidatos ao prémio de melhor longa-metragem na competição portuguesa do DocLisboa.

10/10

Ficha Técnica
Título: Pára-me de repente o Pensamento
Realizador: Jorge Pelicano
Género: Documentário
Duração: 100 minutos