Um pouco por todo o país e notoriamente pela capital têm-se feito notar os efeitos deste estranho clima tropical que teima em adiar o tradicional tempo de outono. Isto apresenta um incómodo grande para aqueles que gostam de vestir as suas camisolas compridas e pisar nas folhas amarelas que vão caindo das árvores a caminho de casa.

O outono é sempre aquela estação da nostalgia e do sossego. É a altura das castanhas nas ruas, das sobremesas quentes e dos dias mais pequenos. Portanto, outono que se preze, terá que ter a sua dose recomendada de frio, algo que não se verifica por esta altura em que estamos quase em novembro.

Assim, o Espalha-Factos quer ajudar-te a entrar no espírito da época e sugeres oito momentos musicais distintos para te remeterem ao abrigo e acolhimento desta amarelada altura do ano. Não, não vai haver Bon Iver. Isso fica para o inverno.

Rebellion (Lies), por Arcade Fire

O primeiro que aqui sugerimos é também um dos primeiros dos Arcade Fire como banda e quase dez anos depois, permanece ainda como um dos melhores. Provavelmente não têm coração se ficam indiferentes à fantástica intro que figura neste tema. Aqui quase ouvimos queimar os primeiros raios de sol de uma qualquer manhã de outono.

Ready, Able, por Grizzly Bear

Os nova iorquinos já há alguns anos que são fortes na criação de um folk-rock que sabe remeter o ouvinte para paisagens belas e outonais, principalmente quando olhamos para a fase do excelente, e impronunciável, Veckatimest. Ready, Able é uma das faixas mais fantasiadas da banda e que nos embala no seu tom calmo e encantado, quase místico. Vale a pena também pelo seu sublime videoclip.

Mr. Carousel, por noiserv

O maestro David Santos é pródigo a conduzir a sua orquestra minúscula e solitária por estradas que viajam em momentos bastante específicos da vida: sejam eles compostos por horas, minutos e até segundos. Mr Carousel foi uma das faixas que levou o artista luso à proeminência e percebe-se porquê: a melancolia latente, a nostalgia da infância e o tom agridoce desta canção criaram aqui um testemunho emocional tão tocante como abstrato. Arrepios.

It’s Real, por Real Estate

Tirada do segundo álbum da banda, It’s Real é, em muitos aspectos, uma música dedicada à estação: desde as guitarras a pintarem melodias esverdeadas e bucólicas, passando pela voz relaxada de Martin Courtney até às próprias imagens descritas na canção (“I walk on decomposing leaves”). Ponham os earphones e vão dar um passeio.

Weird Fishes/Arpeggi, por Radiohead

Profundamente abstrata, por vezes desconcertante. A melancólica Weird Fishes é um dos momentos predilectos qualquer fã de In Rainbows e percebe-se porquê: é uma lindíssima peça repleta de melancolia e ainda assim, dotada de uma extrema placidez. Os acordes invernais e marcadamente folky também ajudam.

Blue Boy, por Mac DeMarco

Com uma linha de baixo particularmente tristonha e uma guitarra que a acompanha a choramingar notas pelo caminho, esta faixa até tem uma aura particularmente reconfortante, apesar de tudo. O conto sobre a tristeza fútil das pessoas do jovem canadiano é um dos de maior relevo no seu mais recente álbum e capta bem aquela atmosfera fria de onde só se quer encontrar abrigo. Esta é para as noites mais solitárias.

If You’re Feeling Sinister, por Belle & Sebastian

Estes escoceses devem ser os derradeiros campeões do campeonato das faixas de outono, portanto a questão nem era tanto se iam figurar numa lista deste género, mas mais qual seria a canção eleita. Por muito cliché que pareça, faixa título do derradeiro disco do grupo tinha que aqui estar. Desde a intro onde se ouvem as crianças a brincar no recreio da escola (querem melhor reminiscência do que vocês a brincar na escola em setembro?) até ao refrão de tom doce, If You’re Feeling Sinister sabe mesmo bem é nesta altura do ano.

Queluz Menos Luz, por Linda Martini

Para encerrar mais uma fornada de sugestões saudáveis, temos um projecto pequeno que vocês ainda não devem ter ouvido falar. Queluz Menos Luz é um curioso instrumental engendrado pelos Linda Martini. Consegue ser um dos temas mais aprazíveis e leves de todo o seu espólio, com as suas guitarras circulantes e a sua melodia lenta mas ritmada. Um tema que nos arrasta ao de leve e põe a nossa mente a divagar por outros caminhos mais oníricos.

E assim se conclui mais uma edição desta rubrica. Voltem na próxima semana para mais sugestões e enumerações triviais.