Depois de uma primeira noite de showcases no Musicbox Lisboa, o Jameson Urban Routes recebou as estreias internacionais de Celebration e Future Islands que pregaram à esgotada sala do Cais do Sodré.

À oitava edição o Jameson Urban Routes mostra porque tem sido um dos festivais de sala fechada mais interessantes da rentrée com um cartaz que procura divulgar as novas tendências da música de diversas paisagens e com um preço bastante acessível. Só temos pena da hora tardia a que começam os concertos e, pior ainda, do não cumprimento dos horários.

Depois de uma primeira noite onde vários artistas nacionais se mostraram a agentes e jornalistas estrangeiros (Cachupa Psicadélica, Beautiful Junkyards e Sequin), a segunda noite iniciou-se com os também portugueses Memória de Peixe. Miguel Nicolau (envergando uma bonita t-shirt dos Deerhoof) e Marco Franco (músico de formação jazzística) subiram ao palco para apresentar alguns dos ainda anónimos novos temas a editar em março do ano que vem. Com breves loops de guitarra e uma bateria pronta a improvisar abriram a esgotada noite do Musicbox Lisboa para um plateia desde cedo composto e bastante entregue à competente prestação da formação das Caldas da Rainha.

memória de peixe

Seguiram-se os americanos Celebration que podem não ter muitos fãs por cá, mas certamente que a comunhão que testemunhámos com o público podem ter lançado o início de uma bela amizade. Padecendo, de alguma forma, da duvidosa qualidade de som, tiveram na voz e postura de Katrina Ford (ela tem um quê de Karen O, diziam-nos) a chave de entrada para o coração dos presentes que iam engrossando as filas da frente do Musicbox. Apostando no seu último registo de originais, Albumin, a banda de Baltimore entregou-se de alma e coração e merece, sem dúvida, uma atenção especial por parte do público português.

Celebration

 

Depois de um longo tempo de espera e nervoso miudinho acumulado (já passam 45 minutos da hora marcada) e de alguns elementos dos Future Islands terem andado a montar os seus instrumentos entra em palco o vendaval chamado Samuel T. Herring, absorvedor de todos os olhares, de todas energias, de todos os corpos e almas presentes no Musicbox . Com as suas palavras, olhos, dedos apontados, danças e socos sugou-nos a alma até ao tutano ao longo de temas como Back In The Tall Grass, A Dream of You and Me, Doves ou a esperadíssima Seasons (Waiting on You).

Se muitos dos temas de Singles saltaram para o palco do Musicbox, a banda da Carolina do Norte não se fez rogada em pegar em canções mais antigos (e menos conhecidas) como Walking Through That Door ou Tin Man (de In Evening Air de 2010) ou Before The Bridge e Balance (de On the Water, 2011).

No meio de tudo isto, o incansável e demoníaco Samuel, com uma capacidade e imaginação performativa espantosa (a escola Dan Deacon ter-lhe-à feito lindamente!) e uma comunicação dramática arrebatadoras, foi pregando aos presentes sobre o amor, uma nova ordem das coisas, o amor, a natureza, o amor… Soberba interpretação de um dos mais magníficos performers que vimos nos últimos tempos.

 

Future Islands1

Quando ele bate com força no peito e rebentam as gotas de suor em seu redor estremecemos, como quando nos olha profundamente nos olhos ou nos aponta o dedo acusador. Mas não esqueçamos a sua banda. Tudo funciona porque por trás de Samuel estão exímios músicos – Gerrit Welmers (teclados e programação), William Cashion (fabuloso baixo) e Michael Lowry (baterista que acompanha a tour de Singles) que são o nº 10 desta equipa. E ouvidos nela porque vai chegar longe no campeonato internacional das melhores bandas da década.

Com os bilhetes já esgotados, o Jameson Urban Routes recebe hoje os portugueses Keep Razors Sharp e os ingleses Fujiya & Miyagi e Glass Animals.

Fotos: Alípio Padilha