Os Filhos do Flagelo é o segundo livro de Filipe Faria e a continuação da demanda iniciada em A Manopla de Karasthan. Publicado em dezembro de 2002, a evolução deste livro em relação ao anterior não é tão notória, embora se comece a perceber uma certa maturidade por parte do autor ao retratar mais aspetos do seu mundo imaginário e no desenvolvimento das personagens.

Os Filhos do Flagelo

Atenção: Esta crítica contém spoilers para quem não leu os livros.

O segundo volume começa imediatamente onde termina o anterior, com o grupo separado e em objetivos diferentes. Aewyre, Allumno, Lhiannah, Worick e Taislin continuam na direcção de Asmodeon e cada vez mais perto de levantar o véu que esconde a verdade sobre o desaparecimento de Aezrel Thoryn. Enquanto isso, Quenestil e Babaki seguem em busca de Slayra, que no volume anterior fora aparentemente capturada por um grupo de eahanoir. E assim seguimos dois caminhos diferentes, que levarão a muitas intrigas e perigos que porão em prova a resistência dos nossos heróis.

O grupo de Aewyre penetra nas inóspitas Estepes de Karatai, na perseguição de Kror, o misterioso drahreg (criaturas negras, muito semelhantes aos orcs de O Senhor dos Anéis) que partilha com o nosso herói a Essência da Lâmina, um poder milenar apenas guardado a alguns guerreiros de Allaryia. Tal poder é partilhado por ambas as personagens, e a única forma de o obterem por completo é lutarem até à morte. Com Kror viaja Hazabel, a terrível mulher que seduziu Aewyre no volume anterior e acabou por dar à luz uma bebé que está nas mãos de um ser misterioso, servidor de Seltor. Enquanto isso, os nossos heróis continuam a sua demanda tanto por Kror como por Asmodeon, acabando por enfrentar o perigoso povo das estepes.

Entretanto, Quenestil e Babaki chegam a Jazurrieh, cidade pertencente a eahanoir, e deparam-se com uma sociedade corrupta, onde o perigo espreita a cada esquina e onde negócios sujos e prostituição predominam. Lá, travam inúmeras batalhas para encontrar Slayra, que se encontra nas mãos de Tannath, um eahanoir assassino, influente na cidade e antigo amante da eahanoir. Contudo, mal Quenestil e Slayra se reencontram, dúvidas sobre a sua lealdade voltam a estar postas em causa. Teria Slayra sido realmente capturada ou teria ido voluntariamente?

Como novidade, neste livro começamos a seguir Aereth Thoryn, irmão mais velho de Aewyre e regente de Ul-Thoryn, que tenta lidar com as consequências das ações impensadas do seu irmão. Ao mesmo tempo, e sem que tanto regente como o resto da corte se apercebam, Dilet, o bobo da corte, planeia algo que promete ser grandioso e que porá em perigo a segurança de todo o reino.

Neste segundo volume das Crónicas de Allaryia a ação tenta continuar constante e emocionante. No entanto, a cada vez maior existência de diálogos e desenvolvimento de personagens vem substituir a narrativa cheia de conflitos que proliferava n’A Manopla de Karasthan. A descrição continua detalhada, embora ainda se note uma preferência pelas cenas de luta do que propriamente o ambiente circundante. Os capítulos estão bem equilibrados, alternando entre a aventura de Aewyre e de Quenestil sem deixar que nos esqueçamos do que cada lado está a passar. Poder-se-ia pensar que tal método tornaria a ação mais lenta e os objetivos mais difíceis de alcançar, mas tal dificuldade não se revelou, e o volume termina numa situação crítica que vai deixar o leitor sequioso pelo próximo volume.

Um dos pontos mais altos do livro é, sem sombra de dúvida, Tannath. Durante a narrativa, é possível seguir os seus pensamentos e dúvidas em relação a Slayra, perguntando-se o que a torna tão diferente das outras eahanoir. Rapidamente aprendemos a gostar desta personagem, e mesmo sabendo que Tannath é um vilão que vai até onde for necessário para apanhar Quenestil e Slayra, a sua atitude e forma de lidar com as situações fá-lo numa das personagens mais amadas pelos fãs.

Os Filhos do Flagelo é uma boa continuação e está ligeiramente superior ao seu predecessor em termos de narração, descrição e diálogo. A introdução de novas personagens e novas localidades deu um pouco mais de vida à história e o final deixou antever o que o terceiro volume teria para oferecer.

Nota final: 8/10