Tempestades, mais recente criação de Rui Lopes Graça em parceria com o maestro Pedro Carneiro e a Companhia Nacional de Bailado, teve estreia marcada na passada noite de sexta-feira, 17 de 0utubro, no Teatro Camões. Com inspiração na corrente proto-romântica Sturm und Drang, o espetáculo, com pouco mais de uma hora de duração, reuniu e envolveu em palco bailarinos, músicos e instrumentos em dinâmicas pouco comuns.

Sturm und Drang, conceito que dá nome e origem a toda a obra coreográfica e musical, revela-se uma via de exploração da ’’questão do Homem com ele próprio e a sua relação com o Outro e, por outro lado, a questão do seu retorno à Natureza’’, enfatiza Rui Lopes Graça. Parte-se rumo à experimentação, à eliminação da razão e prevalência e supremacia do que nos é empírico, numa permanente confrontação da busca e ânsia pelo perfeito, utópico e o lado sombrio da consciência da mortalidade humana, a quebra da linearidade do indivíduo.

O pano sobe ainda no reboliço de entrada do público. Um palco desprovido de cenários e completamente a descoberto, revela somente um ecrã que projeta um campo de flores amarelas. Um corpo, estático e de costas viradas para a plateia, comporta um longo, volumoso e majestoso vestido de veludo vermelho. Aos poucos, os treze músicos, descalços, entram em palco de braço dado ao seu instrumento e encontram-se, cada um, com um bailarino.

O encontro marcou assim o início de uma obra que paira sobre o partir e o ficar, sobre o desejo e o desprezo, sobre a alegria e a tristeza. Um reviver de parte da obra musical de Joseph Haydn (1732-1809), protagonizado pelos músicos da Orquestra de Câmara Portuguesa, assumiu-se simultânea e paradoxalmente estímulo e banda sonora de um movimento que pareceu não se cansar de ser livre.

Por entre ameaçadoras percussões, ensurdecedoras e disruptivas melodias e doces e melódicas sinfonias primaveris, ora a solo, ora a par, ora num coletivo, os corpos dos bailarinos foram-nos apresentados como plasticina largada num universo composto por estímulos. A felicidade e alegria rapidamente se converteram em raiva e ódio tal como a paixão e a loucura se transformaram em desinteresse e desprezo: a força do impulso ganhou legitimidade e a sensação foi rainha no seio de uma comunidade que se geriu em torno do apego e desapego, da inconstância e da reação irrefletida.

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Movimentos limpos, fortes e inesperados deixaram a descoberto a exploração da beleza de incomuns posições de transição que, no entanto, se apresentaram quase estáticas. Elevou-se a elegância do feminino ao seu expoente máximo no trabalho em pas-de-deux, onde a ameaça, a obsessão, o desespero, a loucura e a paixão acesa se confrontaram com os seus extremos opostos. Jogos de simetria e de repetição demonstraram o corpo (todo) ao serviço dos membros (partes) e deixam sublinhar a excelência e limpeza de execução técnica e a total plasticidade da expressão quer corporal, quer facial de todos os bailarinos.

O viver no limite, o teste que inclui as sonoridades mais ruidosas e perturbadoras, as sensações mais vigorosas e explosivas, as luzes mais cativantes e ofuscantes, tomou conta de um palco que se deixou dominar e elevou a sensação ao pensamento. O fim, a morte, chegou como descanso e glorificação de uma vida emocionalmente exacerbada.

«Poderia dizer a mim mesmo: ”És um insensato em busca daquilo que não se encontra neste mundo”.» Johann Wolgang Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther, 1774.