Shalwar Kameez – o título refere-se a um vestido tradicional da Ásia do sul e central – marca uma melhoria em relação ao regresso duplo da semana passada. Não é que, como nos cumes qualitativos de Homeland, este terceiro episódio acrescente a cenas a solo ou face to face profundamente humanas outras de sensação de bomba-relógio, mas é um tiro em cheio no primeiro destes dois aspetos. Carrie e Quinn levam a tensão aos píncaros, culminando num final que antecipa o seu reencontro e uma nova história de amor disfuncional.

Com a protagonista de volta a Islamabad, torna-se claro que esta está dispersa em dois lugares. Os EUA, a filha nomeadamente, são um gatilho incontornável para que viva no passado, na memória da morte de Brody. No Médio Oriente, consegue embotar a dor com um trabalho de alto risco. A ausência de um espaço a que possa chamar lar é lhe positiva porque este era-lhe mais habitado por angústia do que por qualquer outro sentimento, pensamento ou corpo. Ainda assim, parece existir alguma incongruência no modo em que a Carrie nunca tão sombria (inclusive em Islamabad) de há uma semana é, repentinamente e de novo, a Carrie mais moderada. Talvez o seu transtorno bipolar e a instabilidade adjacente justifiquem este aspeto.

Quinn PTST

Também ela, e não só Quinn, estará a sofrer de stress pós-traumático, assunto que começa a ser recorrente e sempre numa intrigante exploração psicólogica. De Carrie, há que salientar o poderoso e quente one-on-one com Aayan, num registo algures entre a empatia e a tensão sexual. Mais uma vez, é numa operação de disfarce que a sua capacidade profissional singular sobe à superfície

Homeland quase nunca se abeirou de elementos surrealistas, mas, numa altura em que o conflito das personagens está bem mais cativante do que o enredo por si só, cenas de sonhos ou pesadelos poderiam adensar o que de melhor há na série.

Carrie - Homeland

O trauma de Quinn continua neste episódio, com espasmos de violência física e verbal. Motivado pelas acusações de que não fez tudo o que podia para salvar Sandy Bachman, torna-se obcecado com vídeos do seu espancamento. Quando se depara com uma ponta solta – a presença de um indivíduo com uma escuta na área -, o ecrã grita “vintage Homeland”. Ao mesmo tempo que o nível de dano psicológico de Quinn chegou a um auge, a sua humanidade também. O seu combate interno e o seu autodesprezo promovem empatia. Nestes três episódios, a personagem de Rupert Friend teve um dos desenvolvimentos mais sensíveis de toda a série.

Noutro campo, o regresso de Fara (um importante pêndulo moral) é bem-vindo e é refrescante os produtores não terem caído no lugar-comum de demonizar mais um(a) superior de Carrie – a embaixadora. Falta que Saul volte a ter uma participação ativa e regular nos acontecimentos…

Quinn - Homeland

Sugerir um possível romance entre Quinn e Carrie não sabe de todo a manobra comercial. O afeto do primeiro pela segunda já vem bem de trás e este é o momento certo. São duas personagens isoladas e atormentadas, mas são também dois seres em espaços mentais distintos. O altruísmo e desejo de Quinn contrasta com o egoísmo e a indisponibilidade emocional de Carrie. O “I fucking love you, Quinn” da protagonista é um belo momento irónico, de duplo sentido para encerrar o episódio.

 Nota: 8/10