Albertine, o Continente Celeste passou pelo Teatro Nacional de São João, no Porto, e agora permanece até sábado no São Luiz, em Lisboa. Escrita e encenada por Gonçalo Waddington, são colocados em cima do palco Marcel Proust e Albertine enroladas em conhecimentos de física, biologia, astrofísica como camuflagem dos verdadeiros sentimentos que nutrem um pelo o outro.

Ao sair do ambiente desta Albertine, o Continente Celeste no Teatro São Luiz, li que “escrever é um processo físico. escrever é um processo termodonâmico, escrever cansa.” e talvez seja esse o primeiro feito no que diz respeito a esta peça. A minha atenção vira-se, em primeiro lugar, para Gonçalo Waddington, pelo tempo gasto com a obra Em Busca do Tempo Perdido, base de todo a obra. Interrogo-me se poderá ser chamada obra-prima. Prendo a minha atenção no ator, agora como criador e encenador desta Albertine, pelos caminhos que atravessou para conseguir encontrar o foco numa obra tão extensa, perdida em informações e detalhes. Esse foco prende-se, ao longo de hora e meia de espetáculo, na relação de Marcel e Albertine.

Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, está dividido em sete volumes, publicados entre 1913 e 1927. Alguns momentos característicos da obra do escritor são plasmados em cima do palco, como o detalhe em tantos temas, tão assente nesta Busca do Tempo Perdido. Tiago Rodrigues, a interpretar Marcel, começa por dar a conhecer informações sobre cosmologia, astrofísica, física quântica e tantos outros temas que não passam pela cabeça da maioria das pessoas, quer na época em que a obra foi publicada, quer na atualidade. As informações discorridas por Marcel são encaradas como temas a serem discutidos num soirée, em que o público é convidado e permanece calado. Os espetadores são os convidados na casa de Marcel e Albertine, a partir do momento em que entram no São Luiz e os atores já se encontram em palco.

Ela que permanece sentada e a caminhar em silêncio pelo palco, no decorrer do primeiro ato, mas a sua presença emana algum tipo de energia que faz o espectador olhar, algumas vezes, à medida que Marcel vai “deitando fora” os seus conhecimentos e teorias. Informações que começam a transformar-se, bem aos poucos, em sentimentos por Albertine, definida pelo ator como o amor da sua vida. Sentimentos que lhe provocam medo e angústia e encontram-se camuflados nos seus conhecimentos científicos, tão amadores como é caraterístico em quem deseja saber um pouco de tudo.

Marcel, o escritor, escreveu no prefácio da obra Sésamo e Lírios, de Ruskin, que a “importância que dou à leitura não é a dos livros que li, mas talvez a das memórias que através dela me foram devolvidas”. E é este conceito de memória que está presente no discurso de Marcel sobre Albertine, postada em cima do palco. Acusando-a, vítima de ciúme e insegurança, de mentiras e também de tendências para ter prazer com outras mulheres. Pode imaginá-la como quiser, dizer o que lhe apetecer sobre a sua Albertine. Mas ela começa as suas acusações, indo contra as memórias de Marcel, mostrando-se como rebelde para a imagem que ele idealizou.

Apesar da peça centrar-se mais no amor de Proust, como personagem, Albertine define a sua personalidade nos momentos em que o acusa e confronta com episódios, imagens e sentimentos. Carla Maciel não podia estar melhor na personagem, serena ao início e complexa no momento em que começa a expor-se. Camaleónica, pode dizer-se. Dir-se-á que chega a ser ousada contra as memórias de Marcel.

Albertine, o Continente Celeste coloca também em questão o tempo. Ao remexer nas memórias que tem de Albertine e ao ser confrontado, de seguida, por ela própria, o espectador talvez se aperceba que o tempo cronológico não é utilizado em cena. Talvez as personagens escritas por Gonçalo Waddington estejam a reencontrar-se e a refletir para os convidados. O tempo, se correr a uma velocidade estonteante, volta atrás devido às memórias dos dois protagonistas. Colocam-se em palco devido a esse regresso proporcionado pela memória. Mas, no fim e enquanto já estava a ler sobre este espetáculo, informo-me de que Waddington colocou unicamente dois mentirosos em palco para um confronto.

Sendo ou não mentirosos, a essência do ser humano está em cima do palco. O que somos, qual a imagem que construímos de nós próprios e dos outros que nos são próximos, o tempo, os nossos medos e o poder da memórias estão presentes neste Albertine, o Continente Celeste. Permanece até sábado, 18 de outubro, na Sala Principal do Teatro São Luiz.

Albertine_1©Mário Melo Costa

© Mário Melo Costa