É exatamente nesta semana que um dos definitivos filmes dos anos 90 e uma das maiores obras do cinema pós-modernista, faz duas décadas de existência. É verdade, Pulp Fiction já conta com 20 anos de presença na mente colectiva dos cinéfilos, bem como da cultura popular em geral.

A película, realizada pelo agora lendário Quentin Tarantino, arrasou a crítica e as audiências com a sua alucinada narrativa não linear, as suas personagens bizarras, únicas e instantaneamente adoráveis, bem como a sua estética e estilo. Foi este o filme que colocou o norte americano no lugar que o mesmo já ameaçara conquistar com Reservoir Dogs e Jackie Brown: um  lugar entre os melhores realizadores da época moderna.

É seguro dizer que uma parte vital do sucesso deste filme (como alias acontece com todos os seus filmes) residiu nos incríveis momentos musicais que nos proporcionou. A música sempre foi um dos instrumentos predilectos que Quentin Tarantino usou para criar os momentos memoráveis das suas películas. E é por isso que o Espalha Factos vai aproveitar esta data comemorativa para te listar dez dos seus melhores momentos onde surgem estas duas artes de mão dada.

Comecemos, portanto:

10. Jackie Brown: Cena de abertura (Across 110th Street, por Bobby Womack)

Para começar, é um hino intemporal e clássico da soul. Across 110th Street, do mítico Bobby Womack, é já de si um tema com um poder imenso, um inconfundível groove adornado com uma das maiores vozes de sempre. No entanto, a música apenas conseguiu ficar melhor aquando a sua utilização no segundo filme (e muitas vezes injustamente ignorado) de Quentin Tarantino. Ver Pam Grier correr pelo aeroporto com aquele plano horizontal é simplesmente o contexto perfeito para esta música desenrolar. O mood para o filme está perfeitamente ajustado.

9. Inglourious Basterds: “OBLIGE HIIIIM…” (La Resa, por Ennio Morricone)

Esta é a primeira entrada de Ennio para esta lista, mas é tão certo como 1+1=2 que não será a última. Originalmente recrutado para ele mesmo fazer a banda sonora original do filme, Morricone acabou por não conseguir dar luz à colaboração devido a conflitos de calendário. Quentin Tarantino, no entanto, não desistiu de ter o seu compositor preferido na sua mais recente obra prima e “pediu emprestado” alguns temas seus de outros filmes. Esta é uma das cenas mais icónicas de Inglourious Basterds, desde a famosa frase proferida por Aldo Raine até à intensidade que este incrível tema lhe confere. Ora vejam (ou revejam):

8. Kill Bill Vol.2: A cena do caixão (L’Arena, por Ennio Morricone)

Pois, lá está… Ennio outra vez. E para variar, as suas paisagens sónicas feitas para o mais épico dos westerns acabam mais uma vez fora do contexto… e a funcionar de forma genial. Este é um dos melhores momentos dos dois volumes que constituem um dos filmes mais comercialmente bem sucedidos de Tarantino. Ver Beatrix Kiddo a escapar dramaticamente (e a pôr inveja aos ilusionistas mais extreme) ao som desta peça incrível é um dos melhores regalos do cinema da década passada. Damos por nós a torcer com toda a força pela nossa heroína numa das sequências mais ridiculamente irrealistas já filmadas. Há poucas coisas mais Tarantino que isto.

7. Django Unchained: O massacre (Payback/Untouchable, [medley com James Brown e 2pac]

E quando Quentin Tarantino finalmente decide fazer um filme com cowboys? Evoca duas lendas da música negra para se fundirem num gigante murro na cara em formato hip-hop/soul. Tudo normal, portanto. A vingança pinta-se a vermelho e canta-se a altos pulmões. Numa das cenas mais exageradas e ultra violentas da carreira do realizador (bem como um dos tiroteios mais fixes da memória recente) é possível ouvir o rei James Brown e o ícone que é 2pac a vocalizarem a raiva e absoluta carnificina causada por Django neste épico banho de sangue e tripas. “Expect me, nigga. Expect me like you expect Jesus“. Saiam da frente.

6. Pulp Fiction: “Bring Out The Gimp” (Comanche, por The Revels)

Chega a vez de se falar do aniversariante. Em defesa daqueles que ainda não viram o magnum opus deste realizador, pouco será dito aqui sobre a cena em si. No entanto, é importante frisar como o gosto obscuro de Tarantino por velhas faixas de surf rock conseguem servir momentos tão alucinados aos seus filmes (e este, Pulp Fiction, em particular). Assim, é sempre impressionante ver como a incrivelmente tão-funky-como-creepy Comanche proporciona a Bruce Willis um dos momentos mais radicais e tresloucados da sua carreira cinematográfica. Facto bónus: A intenção original do realizador era utilizar a famosa música My Sharona, no entanto, por motivos legais isso não foi possível.

5. Kill Bill Vol. 1: O Assobio no Corredor (Twisted Nerve, por Bernard Herrmann)

Bastante habilidoso na arte do entretenimento, Quentin Tarantino preza-se igualmente pela sua capacidade de criar um tipo muito específico de tensão. Uma de índole psicopata que consegue deixar qualquer espectador com um sorriso nervoso na cara devido a toda a perversidade da situação. Um dos melhores exemplos desta mestria é precisamente o assobio em jeito de canção infantil que anuncia a chegada de Elle Driver ao hospital. Vestida de enfermeira e com a sua lendária pala, foi-lhe ainda atribuída esta música para se criar aquilo que é não só um dos momentos mais icónicos e marcantes da carreira do cineasta, como também da cultura popular atual.

4. Reservoir Dogs: Saindo do diner (Little Green Bag, por George Baker)

Em boa verdade, o clip fala por si mesmo.

3. Pulp Fiction: A valsa de Mia Wallace (Girl, You’ll Be a Woman Soon, por Urge Overkill)

Chegamos ao pódio com provavelmente aquele que é o momento de maior requinte na filmografia de Quentin Tarantino e uma das pedras-toque do cinema da década de 90. Logo após a retirada de Vince Vega para a casa de banho, Mia Wallace (imortalizada por uma sublime Uma Thurman) decide rodar este original de Neil Diamond, aqui tocado pelas mãos de Urge Overkill. A dança que Mia protagoniza nos instantes seguintes é um exercício sem igual no que à elegância e ao charme toca. É uma daquelas sequências destinadas a ser um clássico instantâneo transversal a qualquer geração e um exemplo magno daquela magia que todos nos adoramos sentir ao assistir a uma película. Um colossal momento de Cinema.

2. Reservoir Dogs: A Orelha (Stuck in The Middle With You, por Stealer’s Wheel)

Para a sua estreia, Tarantino quis começar bem e por isso realizou aquilo que é hoje em dia considerado como o melhor filme independente já alguma vez feito. É também esta a película que em 1992 fez, alegadamente, com que muitos espectadores abandonassem a sala de cinema durante esta cena. Aqui vemos a grande estrela do filme, Mr. Blonde (por um Michael Madsen em grande forma) em rotinas costumeiras para qualquer mafioso que lida com reféns. Isto, claro, enquanto dá tudo ao som deste clássico dos anos 70. Mais uma vez, a perversão está bem patente.

1. Inglourious Basterds: “I think this might just be my masterpiece” (Rabbia e Tarantella, por Ennio Morricone)

Inglourious Basterds será talvez o mais belo filme que Quentin Tarantino já idealizou. É, sem dúvida, o mais refinado, polido e complexo da sua carreira. Dotado de um humor negro extraordinário, cheio de performances sublimes e recheado de pormenores absolutamente deliciosos, este conto distorcido de vingança passado na França nazi é uma homenagem mais que digna não só ao cinema europeu, mas como ao cinema em geral e à arte de fazer (e muito importante, ao gosto de ver) filmes. Assim, tudo nesta peça de duas horas e meia de entretenimento tem um propósito e um lugar, servindo para o espectacular culminar de eventos que é o seu fim.

É talvez por isso que a cena que encerra esta verdadeira “masterpiece” possa ser considerada como o melhor momento musical de toda a obra de Tarantino. É certo que este sublime tema de Ennio praticamente só começa a rodar durante os créditos, mas a verdade é que todo o sentimento que a música transmite acaba por resumir e capturar a essência do filme durante os quatro minutos da sua duração. O gosto doentio pela violência, os crimes cometidos contra a humanidade, a própria atitude corrosiva dos intervenientes desta trama… Quase nos faz pensar que Morricone havia escrito esta peça para este mesmo filme quase quarenta anos antes. Ele é que ainda não sabia.

Menções honrosas:

Kill Bill Vol. 1: Woo hoo!, por 5.6.7.8’s

Inglourious Basterds: Un Amico, por Ennio Morricone

Pulp Fiction: You Never Can Tell, por Chuck Berry