Passou pelo MotelX e agora chega ao circuito das salas, numa distribuição da Alambique: O Senhor Babadook é uma interessante investida australiana no cinema de terror mas que, apesar de ter algumas ideias engenhosas, acaba por sair vencida pela força das convenções que rodeiam a sua história.

A sinopse é simples, e soa a muitas outras que já vimos antes: mãe e filho vivem sozinhos numa casa, e o pai morreu há sete anos e isso continua a causar traumas no presente. A mãe lê ao filho um conto infantil todas as noites, e de repente surge um livro misterioso (que nunca ninguém viu antes, e que só aparece neste momento porque dá jeito) chamado “O Senhor Babadook“, que o pequeno pede à progenitora que leia. Mas é um livro amaldiçoado, que ameaça criar graves problemas a esta pequena família, e que não os parará de perseguir até ao último momento.

Para uma história que se assume como um autêntico reciclar de estereótipos dos filmes de terror (há aqui tanto de O Exorcista como de The Shining), a premissa de O Senhor Babadook nem está construída de forma repetitiva e insuportável – e por isso é que o filme consegue ser verdadeiramente interessante em quase todo o seu conjunto. Há que apreciar, também, um vigoroso trabalho de câmara e o bom trabalho dos atores.

Mas noves fora, e voltamos ao mesmo de sempre, que por vezes vemos com agrado, e que em outras, só nos consegue provocar mais risos involuntários do que tensão, corte de respiração, pânico, etc. Caminhando para o inevitável (?) happy ending, dando voltas em pequenas histórias que nos desviam a atenção do primordial (e para tentarem que nos esqueçamos que o centro da questão não faz muito sentido), e não esquecendo a habitual confusão entre o que é assustador e o que é repugnante (nos nossos dias ainda alguém acha o gore como algo realmente interessante?), O Senhor Babadook desenvolve-se numa espiral de clichés – mas há que reconhecer que existem alguns que estão mais bem trabalhados do que outros (a construção psicológica da personagem da criança, por exemplo).

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São muitos os que procuram constantemente uma “salvação” para cada género de cinema na atualidade, comparando, injustamente, obras modernas com qualquer referência clássica a que se lhe possa associar, originando, por vezes, um manancial de disparates que são ótimos para matar qualquer filme que queira subsistir como peça individual. Com a reação inicial da crítica estrangeira a O Senhor Babadook assistimos, em parte, à ocorrência desse “fenómeno”, mas felizmente, nem tudo é negativo neste filme. Porque, se não é o título que irá salvar o terror da pouca credibilidade que ainda tem, este consegue ser, pelo menos, um exemplo do género que funciona melhor do que a maioria dos seus pares.

E isso é de louvar porque, entre tantos filmes que se aproveitam de grandes referências do horror para as trabalharem de uma forma que agrade às gerações mais recentes (que não sabem que estão a ver apenas um espécime que copia uma ou várias grandes obras), O Senhor Babadook proporciona uma imagem que, ao menos, é própria, e que não conseguiremos deixar de associar ao seu estranho e grotesco imaginário. Não se podem esquecer a química desconcertante e atribulada entre mãe e filho, apesar de todas as incongruências da narrativa e do drama de telenovela que os circunda.

O Senhor Babadook não prima, portanto, pela originalidade do argumento, nem pela seleção dos elementos figurativos e cénicos utilizados para contar esta história macabra – e que em (raras) ocasiões, nos consegue tirar a respiração. Mas vale pela pequena diferenciação que possui no panorama atual do terror, dominado por sequelas, remakes e reboots constantes. Poderia ser melhor, mas a hora e meia de filme também poderia, por outro lado, ter sido muito menos proveitosa. Mas as fórmulas para criar sustos poderiam ser outras – ou seja, daquelas que ainda conseguem… assustar!

6.5/10

Ficha Técnica:

Título: The Babadook

Realizador: Jennifer Kent

Argumento: Jennifer Kent

Elenco: Essie Davis, Daniel Henshall, Tiffany Lyndall-Knight

Género: Drama, Terror, Thriller

Duração: 93 minutos