E sem que nada o fizesse prever, no meio de tanta vulgaridade, chega esta semana às salas mais um dos grandes filmes do ano: Frank não é uma história normal sobre o percurso de uma banda moderna, mas sim um olhar singular, atento, distante do “mundo real” e colado ao poder dos media e das redes sociais que condicionam as relações humanas.

Realizado por Lenny AbrahamsonFrank é uma comédia excêntrica sobre um génio megalómano e a extravagante banda que lidera. Com alguma base numa história verídica (ou pelo menos, num personagem verídico, o de Frank Sidebottom, a alminha interpretada pelo comediante e músico Chris Sievey), o filme desenvolve-se através da perspetiva de Jon, um jovem aspirante a músico profissional (Domnhall Gleeson), que tenta levar o grupo de músicos a outros sonhos e grandezas artísticas, com o auxílio das redes sociais. As consequências é que não serão as melhores, ou pelo menos, as mais previsíveis…

Frank é um filme que possui uma construção narrativa que se pode designar de normal (mas não de “vulgar”, ou “banal”): começa com a acidental descoberta da banda pelo jovem protagonista do filme, e a (aparente) ascensão a que este sujeita o seu vocalista e os seus colegas. Talvez Jon seja mais movido pelas suas ambições pessoais do que pelo interesse pelo bem comum, em ajudar a banda a sair da discrição em que está submetida. De facto, é isso que faz com que a sua personagem seja tão inocente e, ao mesmo tempo, tão humana – no pior sentido de humanidade possível, como também no melhor, em certas ocasiões

Mas não há dúvida que a sua visão do mundo artístico irá mudar completamente – e talvez aos espectadores se suceda o mesmo (esperemos!) – quando começar a lidar mais de perto com estes artistas peculiares, fechados numa redoma que exclui toda a sociedade “formatada” e “comercial” que os pretende “abater”, e por isso, são detratores dos media digitais que o aprendiz tanto utiliza para, sorrateiramente, dar a conhecer ao mundo aquela estranha banda (e mais ainda, para se dar a conhecer a si próprio, um zé-ninguém maior do que todos os outros zés-ninguém do filme).

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Porque fitas há muitas sobre os percursos acidentados de bandas mais ou menos ficcionais, ou mais ou menos inspiradas em casos verídicos (cuja veracidade, ou pelo menos, identificação com a realidade dos factos, todos conseguem facilmente descobrir). Podemos recordar o título paradigmático Quase Famosos de Cameron Crowe, o mockumentary This is Spinal Tap de Rob Reiner, ou ainda, o recentíssimo Jersey Boys, realizado por Clint Eastwood, como casos emblemáticos de uma certa ligação do cinema com a música, aproveitando o melhor dos dois “mundos” para explorar visões de pendor narrativo que marcam pelo insólito dos seus conceitos e das suas reinvenções.

Contudo, Frank difere destes e de outros exemplos pela sua abordagem mais simples, mas não menos relevante, exaustiva e inesperada, dos meandros da cultura, das interações dos indivíduos em sociedade, do peso/preço da fama, e ainda daquilo que há de mais “rudimentar” (os valores ou a falta deles) em toda a nossa espécie – e que por mais que as redes sociais tentem apagar (através de uma ficcionalização virtual que nos é constantemente imposta), nunca deixará de existir. E é por isso que o filme ganha, e é por isso que, apesar de ter sido recebido de uma forma pouco consensual pela crítica e público norte americanos, não consegue deixar ninguém indiferente, apesar dos diferentes efeitos que possa assumir.

Já que não é todos os dias que vemos um filme sobre um criador artístico fechado no seu próprio mundinho (que, digamos, está mesmo encerrado dentro da sua cabeça, completamente tapada por uma outra – e a razão de tal facto nunca será explicada, e não precisamos sequer de a saber) que recria ideias velhas com um novo fulgor. Porque mesmo que o final seja inevitável, e o rumo dos acontecimentos também, ainda apanhamos algumas interessantes reformulações de mecanismos clássicos que “já têm barbas”, além que encontramos uma ou outra surpresa de argumento de quando em vez (como a maneira que é utilizada para jogar com a questão das redes sociais, e da falsa popularidade que as mesmas proporcionam).

Assim, Frank é uma reflexão melancólica, mas que nunca deixa de ser divertida e, até, bizarra e encantadora, sobre as simplicidades da modernidade cada vez mais complexa (ou pelo menos, com pretensões de o ser), e a sua ligação com a imaginação e a criatividade que são impostas à arte – ou pelo menos, a todos aqueles que desejam criar algo de novo, que consiga despertar novas mentalidades e abrir as portas para a descoberta de novos horizontes sociais, culturais, e muitas coisas mais. E não nos esqueçamos de salientar o novo triunfo de Michael Fassbender, e do menos conhecido mas não menos talentoso Domnhall Gleeson, dois atores que não têm medo de arriscar atingir outros públicos e outros feitos brilhantes. Até porque tiveram a sorte de entrar num filme que é todo ele uma peça de brilhantismo cinéfilo e emocional.

9/10

Ficha Técnica:

Título: Frank

Realizador: Lenny Abrahamson

Argumento: Jon Ronson, Peter Straughan

Elenco: Domnhall GleesonMichael Fassbender, Maggie Gyllenhaal

Género: Comédia, Drama, Mistério

Duração: 95 minutos