O filme começa com um tratado da personagem principal, Sébastien Morin (Baptiste Lecaplain) sobre como a masturbação pode ser um tipo de homenagem a outras pessoas e sobre a leveza de se poder sonhar o que fazer, mais do que concretizar alguma coisa. Sobre como pode ser tranquilizante o evitamento.  

E, por momentos, pensamos estar perante non sense absoluto. Mas não estamos. Estamos na sala com uma comédia que nunca nos permite deixar de pensar, com um permanente drama em fundo, o drama do mundo e das pessoas que retrata. Um filme implacavelmente real sobre uma sociedade que aceita mal os sonhos, que vive mal com o que não é quantificável, que é viciada em horários, manuais de procedimentos e contagens.

Sébastien é um jovem de quase 30 anos que após ter realizado dezenas de formações superiores continua perante uma inevitabilidade: Não quer fazer nada. Não quer apaixonar-se, porque isso é demasiada emoção forte e demasiado esforço para conquistar. Não quer trabalhar, porque para chegar mais longe tem de trabalhar muito (quão redundante…). Não quer viver, porque a contemplação pode bem chegar-lhe.

Vai viver para Paris, obrigado pelos pais a procurar um trabalho, e tem dois colegas de casa que passam de estágio em estágio ou de trabalho temporário em trabalho temporário. Realidade cruel, e ao que parece, universal. E é aí que consegue arranjar maneira de escapar, ficando a receber o equivalente francês ao Rendimento Social de Inserção.

Para um filme sobre alguém que não faz, nem quer fazer, nada, nunca há falta de ritmo. Seja em alucinantes deslizamentos pelo chão encerado do corredor, nas tramoias para burlar a Segurança Social ou num passeio em cuecas pelo museu.

A química entre Sébastien (Baptiste Lecaplain), Anne (Charlotte Le Bon) e Bruno (Félix Moati) é evidente e um dos ingredientes essenciais do filme. Ficamos quase até ao fim à espera que Séb e Anne se entendam e resultem amorosamente, tal é a magia da química entre os dois. Não revelo o resultado final.

trio

Também importante é a amizade entre Richard (Denis Podalydès), o cúmplice do protagonista na Segurança Social para continuar sem fazer nada. Um funcionário público médio, com altura média, comportamentos generalistas e salário normal, com um casamento medianamente aborrecido e uma vida absolutamente comum. Os diálogos entre os dois, uns verdadeiramente psicoterapêuticos e outros genialmente cómicos, contém algumas das mensagens mais filosóficas do filme e de maior crescimento mútuo para ambas as personagens.

Baptiste Lecaplain é, de resto, o protagonista ideal, um anti-herói com o qual criamos empatia aos primeiros frames, mesmo podendo ser visto como um parasita da sociedade. Fica a curiosidade para vermos mais do trabalho do ator. E não conseguimos imaginar esta personagem noutro corpo.

A realização, muitas vezes pueril, do estreante e prometedor Benjamin Guedj, leva-nos a viajar de forma interessante pelos pensamentos e vivências de Sébastien. E as imagens do jovem contra-corrente, colorido no meio da imensidão cinzenta, são alguma da poesia visual que devemos aproveitar deste Libre et Assoupi.

Saímos da sala de cinema de sorriso aberto e coração cheio. Isso acontece poucas vezes e, quando acontece, é a arte a viver em nós.

9/10 

Ficha Técnica
Título: Libre et assoupi
Realizador: Benjamin Guedj
Argumento: Benjamin Guedj e Romain Monnery
Elenco: Baptiste Lecaplain, Charlotte LeBon, Félix Moati, Denis Podalydès, Suliane Brahim
Género: Comédia
Duração: 93 minutos