Longe vão os tempos dos filmes unilaterais de Hollywood: a constante e sempre crescente mescla de estilos numa mesma produção apresenta-se, à partida, como uma observação inegável. E embora nomes como Forrest Gump venham rapidamente à mente quando se fala desta congregação de géneros, a verdade é que intercalar comédia e drama ou terror e romance não deixa de ser uma tarefa intrinsecamente desafiante.

Neste aspecto, O Juiz não poupa esforços. Quem entrar na sala de cinema à espera de um drama jurídico à la Law and Order ou Boston Legal ficará decerto surpreendido pelas instâncias de comédia romântica, buddy comedy e até algum gross-out que intermitentemente se revelam pela sua história. O realizador David Dobkin utiliza-se pontualmente destes estilos, sem nunca se comprometer com nenhum deles, para a criação de um produto final algo irregular, tanto em eficácia quanto em coerência. No entanto, é importante notar que tudo isto revela uma considerável ambição – principalmente por parte dos argumentistas, Nick Schenk e Bill Dubuque – o que não deixa de ser bastante louvável.

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É nas actuações, não obstante, que O Juiz prima verdadeiramente. Robert Downey Jr. não se desvia muito do seu habitual tom sarcástico, trocista e com um cheiro de megalomania, sendo indubitavelmente a escolha certa para a caracterização de Hank, um advogado aparentemente bem-sucedido em todos os aspectos de sua vida. No entanto, o progredir da narrativa traz à tona, para grande espanto do resignado espectador, uma refrescante faceta de Downey Jr. à medida que este vive, em sua personagem, o filho pródigo que retorna a casa dos pais para se confrontar com o seu passado. Um desempenho raramente mal-conseguido por parte do actor.

Não menos brilha Robert Duvall na pele do enigmático Joe, pai de Hank, um juiz de tribunal na pacata vila de Carlinville, Indiana. O veterano ator interpreta um chefe de família tomado pela consternação de ver o filho a percorrer caminhos indesejados, ao mesmo tempo que lida com uma acusação de homicídio e uma doença em fase terminal. Toda este sofrimento é traduzido para o grande ecrã por Duvall de forma extraordinariamente interessante, demonstrando este angústia contida sob camadas de sábia resignação, que deixam passar, em ocasiões pontuais, o profundo sofrimento em que este personagem se encontra. Actores em papéis secundários, como Jeremy Strong, Vincent D’Onofrio e Vera Farmiga destacam-se menos, mas ainda assim logram em segurar as pontas do ponto de vista performativo.

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Tecnicamente deficitário e de irregularidade constante, O Juiz falha em convencer totalmente, apesar de tudo o que foi dito acima. A sua história é sólida, relacionável, e muitas vezes verdadeiramente comovente, mas uma realização grosseira, fotografia inexpressiva e argumento mais-que-pontualmente embaraçoso congregam um produto final razoável, no máximo. A sua dissecação exploratória de relações familiares e lares desfeitos é legitimada pelas notáveis actuações dos seus intervenientes, mesmo que a soma dos seus pontos fortes não signifique necessariamente um grande filme.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título: The Judge

Realizador: David Dobkin

Argumento: Nick Schenk, Bill Dubuque

Elenco: Robert Downey Jr., Robert Duvall, Vera Farmiga, Vincent D’Onofrio, Jeremy Strong

Género: Drama, Comédia

Duração: 141 minutos