A Manopla de Karasthan é a obra de estreia do autor Filipe Faria, o primeiro volume da saga Crónicas de Allaryia e romance vencedor do prémio Branquinho da Fonseca atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e o Jornal Expresso. Lançado em abril de 2002, contava o autor já 20 anos, este livro demonstra uma grande capacidade imaginativa de criar um mundo fantástico e rico com as mais variadas personagens, paisagens, lendas e histórias.

A Manopla de Karasthan

Allaryia é um mundo imenso, de heróis e vilões, belas criaturas e monstros maléficos, nações e impérios imponentes. Depois de muitas eras que alternaram entre a paz e a discórdia, este mundo aparenta estar em paz. Contudo, o desaparecimento de Aezrel Thoryn, o campeão de Allaryia, deixou todo o povo sem um protetor contra um possível ressurgimento do Flagelo, a força das trevas que assolou o mundo muitos anos antes. Determinado em descobrir o que aconteceu ao seu pai, Aewyre Thoryn, filho mais novo de Aezrel, pega em Ancalach, a famosa Espada dos Reis, e parte para a distante terra de Asmodeon, determinado em desvendar o mistério de uma vez por todas.

Contudo, quando Aewyre pensava que a sua jornada iria ser solitária e calma, eis que se viu na companhia de um grupo muito peculiar, que envolvia a mais variada mistura de seres, saídos da imaginação vívida de Filipe Faria: Allumno, um Mago, Liannah, a bela princesa arinnir, Worick, um thuragar, Quenestil, um eahan, Babaki, um antroleo, Taislin, um burrik e Slayra, uma eahan negra. Logo a sua demanda tornar-se-á numa espiral de perigos e aventuras que porá à prova a coragem dos nossos heróis e fortalecerá os seus laços de amizade. E cada um deles possui a sua própria personalidade e carisma, fazendo-nos torcer para que todos eles ultrapassem os desafios e fiquem em segurança.

Aewyre é o típico jovem inconsciente que salta para a luta e por vezes coloca-se em perigo e aos seus companheiros. A sua aparência esbelta torna-o famoso entre as mulheres, embora nunca tenha assumido nenhuma relação séria. No entanto, a descoberta e a perda de um novo amor ajudam a amadurecê-lo. Deseja do fundo do coração saber o que aconteceu a Aezrel, e nada nem ninguém o impede de fazer a perigosa viagem.

Allumno é a voz da consciência do grupo. Sendo o mais velho, é de admirar a sua resistência e paciência enquanto percorre as terras de Allaryia com o grupo, que é composto por praticamente jovens com sede de aventura. Na sua testa encontra-se encrustada uma gema vermelha, onde a alma de Zoryan, o seu mestre, reside. Os seus conhecimentos de magia e outras artes são de enorme valor e já salvaram o grupo de muitas situações perigosas.

Liannah é a princesa arinnir, um grupo de guerreiras exiladas que se isolam do mundo que consideram corrupto e mau. O seu feitio complicado atrai Aewyre desde o primeiro dia, e o jovem guerreiro não descansa enquanto não quebrar aquela barreira de antipatia que a princesa exibe com tanta firmeza. Contudo, os perigos e aventuras tornam-na mais amigável e preocupada com os seus companheiros de viagem.

Worick é um thuragar, seres baixos e atarracados, conhecidos pela mesquinhez e má disposição. É o mentor de Liannah e um antigo general de batalha. O seu feitio é ainda pior do que o da princesa e é visto a maior parte do tempo a resmungar e a amaldiçoar a sua sorte. Contudo, o seu sentido de lealdade é muitas vezes bem transparente nas suas ações.

Quenestil é um velho amigo de longa data de Aewyre. Sendo um eahan, um ser belo e amante da natureza e das coisas vivas, é um dos companheiros mais fieis do grupo. Por causa da sua atitude calma e bondosa, é muitas vezes espicaçado por Worick, acabando sempre por o ignorar.

Babaki é um antroleo, uma raça de seres animalescos e de reputação feroz. Contudo, a sua personalidade é completamente oposta à da sua aparência. Ainda maior amante da natureza e dos animais que Quenestil, Babaki possui uma natureza dócil e pacífica, e é bem recebido por todos os membros do grupo. Contudo, quando a vida dos seus companheiros se vê ameaçada, Babaki é capaz de libertar o seu animal interior e tornar-se numa besta feroz de violência incontrolável.

Taislin é um burrik, seres diminutos com olhos felinos, irreverentes, individualistas, despreocupados e, no caso desta personagem, ladrões astutos. Não foi bem recebido no grupo (uma vez que tentou roubar alguns dos companheiros), mas rapidamente todos se aperceberam que a sua presença seria muito bem-vinda e as suas qualidades muito úteis na jornada. Taislin é o mais jovial do grupo, mantendo a moral sempre em pé e fazendo do seu hobby favorito espicaçar Worick.

Por fim, Slayra é uma eahan negra, ou eahnoir, seres negros corrompidos pelo Flagelo. Assassina cruel, Slayra é capturada pelos companheiros depois de o seu grupo os ter atacado. É mantida prisioneira contra a sua vontade enquanto Aewyre e os companheiros tentam saber o que fazer com ela. Contudo, com o passar do tempo, as suas ações ganham a confiança do grupo, criando uma ligação de amizade entre a maioria, e algo mais por Quenestil

A escrita de Filipe Faria neste primeiro volume é muito simples e de leitura fácil, com descrições detalhadas sobre o meio envolvente e as várias personagens que compõem esta fase da aventura. As aventuras e os perigos que os companheiros enfrentam são constantes, e as suas personalidades são tão carismáticas que é impossível detestar algum deles.

Desde as terras da nação de Nolwyn até à cidade sitiada de Alyun, passando pelos pântanos de Moorenglade até ao reino de Latvonia, os cenários são variados e muito imaginativos. As várias personagens com quem os companheiros se cruzam são também elas realistas e deixam a sua marca na história. Mesmo assim, este volume peca por uma narração demasiado rápida na maioria das vezes, oferecendo maior destaque aos diálogos e às cenas de luta.

A Manopla de Karasthan é um volume obrigatório para os fãs de literatura fantástica, e tal mostra que o nosso país possui bons talentos no que toca a esse género literário. Filipe Faria apresenta-nos neste livro os primeiros passos de uma aventura que mal sabia ele ainda que se iria tornar num dos maiores épicos da high fantasy.

Nota final: 8/10