Dia 11 de outubro de 2014 pelas 18h, o Teatro Camões, em Lisboa, celebrou o regresso da temporada da Companhia Nacional de Bailado (CNB) com o retomar do ciclo de conferências/conversas 2014, desta vez com Sturm und Drang.

No contexto da atual programação da CNB, dedicada, por excelência, à obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, a conferência foi dedicada à apresentação e exploração do tema inspirador de Tempestades, mais recente criação coreográfica de Rui Lopes Graça, em colaboração com o maestro Pedro Carneiro e com a CNB, com estreia marcada a 17 de Outubro.

Cristiana Vasconcelos Rodrigues, docente de estudos germanísticos, estudos comparados e humanidades na Universidade Aberta; Delfim Sardo, doutorado e dedicado à curadoria de arte contemporânea; Pedro Carneiro, co-fundador, diretor artístico e maestro titular da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP); Rui Lopes Graça, premiado coreógrafo residente da CNB e criador de Tempestades e Rui Vieira Nery, musicólogo e historiador cultural, foram os convidados que deram voz ao que concordaram apelidar de um ‘’exercício sem rede’’ em torno do movimento proto-romântico alemão Sturm und Drang, traduzível como tempestade e ímpeto (pulsão, empurrão, força).

Durante cerca de duas horas os conferencistas, à vez, aprofundaram e enquadraram o conceito alemão consoante e de acordo com as suas áreas de estudo. Delfim Sado, primeiro orador a tomar palavra na sessão, incidiu no passado histórico e cultural associado à corrente em análise, tomando como ponto de partida o ‘’interesse pelo novo como afirmação geracional através do culto do excesso’’. Ao debruçar-se sobre exemplos de grupos e movimentos contra-culturais de referência para o século XVIII, o conferencista concluiu que o único traço que a todos é comum se revela na ‘’paixão pelo gesto transformado e pela consciência alterada’’ como condicionante para encontrar a verdade.

Cristiana Vasconcelos Rodrigues, no seguimento da abordagem eminentemente histórica e comportamental até então feita, transportou a análise para o campo da literatura, onde o movimento Sturm und Drang se revelou ‘’um grito, um fogo’’ atingindo o seu expoente máximo com Os sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe. A oradora, salientando os traços literários e morais da geração, abordou os chavões da corrente enquanto ‘’cultura do sentimento’’.

Já o reconhecido musicólogo português Rui Vieira Nery, explorou o campo musical associado ao movimento proto-romântico, expondo exemplos ‘’da forma ordenada como se descreve a desordem’’ nos meandros sonoros do Sturm und Drang. O conferencista reforçou ainda a dicotomia da corrente: a procura pelo perfeito, quase utópico, alia-se ao lado sombrio da consciência da mortalidade humana, dando origem a um paradoxo que quebra a linearidade do indivíduo.

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Finalmente, a derradeira toma de palavras pertenceu a Rui Lopes Graça e Pedro Carneiro que, com carinho e agradecimento, revelaram parte da essência e do processo musical do espetáculo a apresentar. ‘’Como se transforma tudo isto em matéria de espectáculo?’’ , foi a pergunta que o coreógrafo admitiu fazer a si mesmo sempre que se propõe a abordar um tema. ‘’Reduzir ao essencial’’. A criação, passados dez anos, volta a reunir coreógrafo, maestro e orquestra em palco. Segundo Rui Lopes Graça, tudo vai de encontro à ‘’questão do Homem com ele próprio e a sua relação com o Outro e, por outro lado, a questão do seu retorno à Natureza’’.

A programação da CNB prevê mais duas conferências até ao final da presente temporada: no primeiro de novembro, Modernismo em Portugal, antecede a estreia de Lídia e dia 29 do mesmo mês, O Quebra Nozes e a tradição, prepara o último espectáculo do ano da Companhia, Quebra Nozes Quebra Nozes. Todas as conferências decorrem a partir das 18h e são de entrada gratuita.