Hierarquia das Nuvens, criação coreográfica que marca o já tão esperado regresso de Rui Horta, aclamado e internacionalmente reconhecido bailarino e coreógrafo português, estreou na sexta-feira, pelas 21.30h no Grande Auditório da Culturgest.

Num retomar das composições coreográficas de grupo e no reavivar do movimento que o caracteriza, o criador, através do gesto de um pequeno grupo de bailarinos de referência, fez emergir em palco uma intensa e intrínseca relação com o Espaço: ‘’Preparemo-nos então para habitar uma vez mais aquele lote vazio e dar-lhe uma alma. Transformá-lo em lugar’’.

Escrevo ainda sob eco do calor do momento de forma a poder ao máximo subtrair a racionalidade e objetividade que me estão incutidas e que, por excelência, esta função acarreta. Faço-o para que, de algum jeito, consiga fazer jus à obra e à sua marca e natureza.

‘’Uma heterotopia onde entramos a cada apagar de luz de público e da qual saímos após esta se acender, revelando um mundo real que, durante o tempo da obra, co-habitou temporalmente com esta.’’

Sete corpos, de movimento e expressão transparentes, foram tomando o espaço diante de um auditório recheado e expectante e, deitados sob extasiantes composições de som e luz, abriram portas à Hierarquia das Nuvens. Uma criação que tomou por base o empírico e renegou a razão, revelou-se uma sucessão de re(l)acções e dinâmicas ora a solo, ora em grupo, na procura da personalização das insustentáveis questões do ser.

Os bailarinos foram-se apresentando banhados de uma aliciante e emocionante linguagem corporal que cativou o público: a co-habitação das duas realidades ganhou forma e a ‘’poética do gesto’’ fora de controlo, imperou. Uma dança quebrada, quase que instintiva, soltou-se dos diferentes corpos como se mais nada lhes restasse. Entre sombras e lusco-fuscos de soberba ilusão óptica, os bailarinos baloiçaram na exploração do si mesmo, deixando perceber jogos de sombra, de simetria e de equilíbrio.

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Reinou, durante quase duas horas de espetáculo, um movimento orgânico e animalesco que curiosamente se foi traduzindo num gesto simultaneamente metódico e terno, rígido e elegante. Expuseram-se a incerteza, o receio, a hesitação e simultânea ânsia de poder e de luz, o partir, a glória, o desejo.

Com papel, num primeiro momento, e arame, posteriormente, as nuvens foram, numa imaginária linha do horizonte, construídas. O papel, como que numa dimensão pouco ou nada cognitiva, foi, por entre os corpos sedentos e curiosos, consumido, expelido, desejado, possuído, gritado, descoberto e, por fim, já sem forças, abandonado.

Uma fabulosa composição de luzes deixou compreender e enfatizar detalhes que se deixam escapar ao olho da realidade quotidiana e racional através de inebriantes jogos de luz e contra luz e sob comando de sonoridades por vezes eletrónicas e fabris, outras ensurdecedoras, ou até intermitentes e desgovernadas. Claro está que a linguagem esteve a cabo dos sete comuns corpos que, através de um movimento técnico irrepreensível que só deixou tornar visível o gesto da alma, facilitaram e aprimoraram a comunicação.

Hierarquia das Nuvens é uma criação minuciosamente elaborada para que a compreensão seja, por momentos, deixada de parte. Para os amantes da Arte de Dançar, uma utopia deliciosamente interpretada eleva o movimento ao sublime e faz do gesto a Mãe de todas as linguagens.

‘’De facto não existe espaço sem corpo’’.


Após os dois espectáculos de estreia nacional na Culturgest, Sexta (10) e Sábado (11), Hierarquia das Nuvens tem já as seguintes actuações programadas:

18.10.14 – Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, a 18 de Outubro de 2014;

24.10. 14 – Teatro Virgínia, Torres Novas

25.10.14 – Quartel das Artes, Oliveira do Bairro

01-02.11.14 – Teatro Principal, Zaragoza

08.11.14 – Cine-Teatro Curvo Semedo, Montemor-o-Novo

22.11.14 – Teatro Paco Rabal, Madrid