Guitarrista transformado em DJ, Bruno Cardoso pertence à nova geração de músicos portugueses cuja versatilidade os leva a passar por vários projetos ao longo da carreira.

Inicialmente guitarrista da banda The Vicious Five, levou a transformação Xinobi a uma conhecida parceria com Moullinex. Juntos criaram a Discotexas, estúdio de música que se traduzia em exibições em palco. Depois de vários EPs tocados pelas pistas de dança de Portugal e mundo fora, chega finalmente o primeiro trabalho de longa duração a solo.

Um espaço improvisado, no meio de uma agência discográfica em renovação, dois pequenos sofás e uma máquina de Nespresso proporcionam uma conversa típica de pausa para café.

Boa tarde Bruno! Porque não começar pelo início, quando eras guitarrista dos Vicious Five. Essa era uma experiência ligeiramente diferente daquela pela qual estás a passar agora…

Sim, no início [o projeto Xinobi] era uma experiência complementar aos Vicious Five, pois permitia-me fazer música em casa sem ter de depender de mais pessoas. Elas cresceram juntas, e ultimamente têm deixado de ser diferentes porque introduzi muitos elementos orgânicos na minha música. Já em novembro vou até levá-la ao formato de banda.

E a experiência em palco, gostas mais de ser guitarrista ou DJ?

Gosto dos dois, pois são responsabilidades diferentes. Há muita gente que pensa que ser DJ é muito fácil, mas acho que é mais difícil do que ser guitarrista numa banda. Muitas vezes depende se o bar vai vender bebidas, se o pessoal baza todo… Se tiveres uma banda vais, se não estiver gente, não está, se estiver, fazes a tua cena. Pá, eu gosto das duas coisas, mas posso dizer que a experiência de palco com os Vicious Five me deixou mais tranquilo na primeira vez do que quando fiz DJing.

Sentes então mais pressão como DJ?

Não, não, são pressões diferentes… Só que se fores fazer DJ sozinho, se tu fizeres merda, não há ninguém que te cubra! Se fores com uma banda, há sempre ali alguma coisa que safa.

A tua carreira como DJ está no entanto muito ligada ao Moullinex. Como é que surgiu a vossa relação, e como é que tem durado tanto tempo?

A dada altura, e deixo aqui os Vicious Five novamente à conversa, ele escreveu-me no MySpace a perguntar se era possível fazer uma remistura para nós. Ainda não o conhecia, mas ouvi as coisas dele e achei que tinha piada. Falei com o pessoal da banda e aceitámos. Entretanto continuámos a comunicar e a trocar impressões, ele mandava-me cenas “ouve lá isto, vê o que é que achas”, e quando demos por nós estávamos a tocar juntos. Tornou-se uma constante, com mais zanga, menos zanga; temos trabalhado, temos um estúdio, temos uma data de projetos juntos.

Qual foi o motivo que vos levou a criar esse estúdio, a Discotexas?

Foi um misto de duas coisas: primeiro ter uma plataforma para editar a nossa própria música. Já que ninguém pegava nela, epá, porque não tentarmos nós? O segundo é sempre o gosto que tens pela música. Foi uma altura favorável porque o MySpace e uma data de blogs de música simpatizaram muito connosco, e foi bom para disseminarmos tanto a nossa música como o projeto Discotexas; ganhámos logo ali um avanço decente que muitas editoras demoram a alcançar.

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The Discotexas Band

Achas então que há em Portugal uma falha de exploração nesse mercado de música?

Eu ainda hoje não percebo muito bem o mercado da música de dança, confesso. O know-how todo que eu e o Moullinex construímos vem de cenas totalmente empíricas ou da noção de editora que eu tinha nos Vicious Five. Só há pouco tempo é que eu comecei a perceber o targeting da música de dança: é preciso saberes fazer música que seja tão fácil de ouvir na pista de dança como em casa, tens de convencer um DJ com um preview de um minuto e meio a comprá-la para tocar… Há uma data de cenas muito complexas na música de dança, tal como há outras muito complexas na música rock.

Este vai ser o teu primeiro projeto de longa duração como Xinobi, mas já produziste vários EPs antes. Como é que consegues gerir o tempo entre dar concertos e criar música nova?

Eu sou um gajo desorganizado por excelência, e tenho dormido muito pouco nos últimos tempos porque raramente consigo dizer não, nem a mim mesmo. Estou sempre a aceitar desafios, e depois enterro-me. Por isso é difícil, mas enquanto não me sentir totalmente rebentado fisicamente, vou tentando.

Vais improvisando…

Sim, exatamente, é um bocado na ordem do improviso! Eu não tenho um manager que me possa fazer um calendário, que dava bué da jeito…

Sentes-te mais confortável a fazer música no estúdio ou em casa sentado no sofá?

O estúdio é sempre mais fixe porque tenho material e instrumentos que me permitem compor muito mais habilmente qualquer coisa do que estar em casa com o computador e com o tecladozinho ao lado… No entanto, quando me dá uma ideia na altura, se estiver com uma insónia, se o estúdio estiver ocupado, aproveito e faço qualquer coisa. Às vezes uma ideia sai tão imediata, e tão em modo “ei, é mesmo isto!” que tu improvisas e nem vais para o estúdio inventar mais que podes estragar. Há coisas que funcionam mesmo com a limitação que um computador tem.

Como é que te orientas depois a longo prazo para a construção do álbum como um todo?

O álbum em si é um conjunto de músicas que fui pondo de parte há já dois, três anos, por achar que não serviam só a pista de dança. Depois construí mais algumas no início deste ano, escolhi praí umas seis antigas, retrabalhei tudo outra vez para conseguir que a coisa ficasse minimamente uniforme… Que não ficou, porque o álbum é super diversificado.

E onde vais buscar inspiração para toda essa diversidade?

Quando tu fazes música estás sempre a reagir ao que ouves, nem que seja do género “fogo, nunca faria uma coisa destas!”. Vais absorvendo ideias, tipos de sonoridade, melodias, marketing… Tens de saber vender-te, tens de saber trabalhar na web, tens de arranjar pessoal para fazer videoclips, tens de coordenar a tua vida toda… É bué da cansativo, a menos que tenhas uma super equipa a trabalhar para ti, e agora [a Universal] está a ajudar-me em muita coisa. Às vezes é muito difícil focares-te no que realmente interessa.

Já que tocaste na questão dos videoclips, fizeste um como promoção para o single “Mom and Dad”. Como é a experiência de dar imagem a uma música tua?

Ei, é bué da confuso… O vídeo não é propriamente reflexo da música; enquadra-se bem nela, tem a sua cadência, rítmica, etc, mas não é um vídeo de narrativa. Já tinha feito um clip anterior em que havia uma atriz a interagir com a câmara em modo improviso, a reagir à música, a pegar em objetos random e a fazer qualquer coisa, e resolvi fazer uma espécie de sequela. Comprámos umas frutas para mandar à cara da [rapariga], coitadinha, sofreu tanto…! E depois fizemos uma montagem. Não é um vídeo feito em cima do joelho, que pode parecer. Foi escrito, não na totalidade porque eu gosto do improviso também, gosto de fazer decisões na altura, mas… Não sei, eu tenho muito medo de fazer vídeos. Eu já me sinto desconfortável em partilhar uma música, ainda ter que fazer um vídeo… Fogo, são logo duas coisas! E depois há aquele pessoal que pergunta “ah, e aquele vídeo… O que é que é aquilo?”, “é aquilo, olha… Foi aquilo que ficou”.

Mas o videoclip não tem de ser um filme…

Há quem faça… O videoclip é um modo que muitos realizadores têm para escapar ao que fazem normalmente, “eu aqui posso fazer o que eu quiser”. Nem sempre, depende de com quem tiveres a trabalhar. Se tiveres a trabalhar com música muito comercial, se calhar tens de te restringir, mas se tiveres a trabalhar comigo podes inventar bastante.

E do ponto de vista do artista, qual é o objetivo do videoclip hoje em dia?

É mais uma forma de mostrares uma música tua com o apelo visual, fazeres com que haja mais alguém a ouvi-la. Mesmo que não seja um vídeo que ilustre a música, pode haver alguém que entre na música por causa dele. Eu lembro-me quando os Daft Punk me cativaram a sério pela primeira vez foi com o vídeo super simples [da música Revolution 909]. Fiquei mesmo naquela “ei, isto é bué da fixe!”, continuei a ouvir a música e depois acabei por gostar.

O novo álbum vai chamar-se ‘1975’. O nome tem algum significado especial?

Eu era para lhe dar um nome que tinha a ver com um estúdio de cinema italiano, mas depois descobri que tinha sido fundado pelo Mussolini e lembrei-me que podia haver pessoal a pensar que tinha alguma conotação política, que não tem! Depois ao ver umas fotografias da minha família entre 1970 e 80… Aquilo parecia muito cinematográfico. E pensei, porque não ser uma data que foi especial, nem sempre pelo melhor, mas que obrigou a minha família toda a vir de Moçambique e recomeçar a vida em Portugal, e achei piada.

XINOBI_front

1975

O teu pai foi uma das pessoas que te introduziu ao mundo da música. Ainda continuas a trocar ideias com ele?

Mando-lhe sempre as coisas que faço e fico a tremer com o feedback dele, mas sei que ele tem orgulho no meu trabalho. Ainda há pouco quando lhe mostrei o álbum já finalizado ele ainda disse “se eu fosse a ti mudava aqui isto e isto” e eu “não estás a perceber, isto já está na fábrica, não há nada a mudar”, “ah ok, pronto, era só uma sugestão minha…”. Eu sempre que vou a casa dos meus pais ainda fico pelo menos meia horinha a ver os discos novos que ele comprou na feira, ou os negócios que ele fez. Ele gosta muito de comprar gravadores de cassetes, diz que o som da cassete é mágico. E eu confirmo, é um som peculiar, até eu comprei um gravador de cassetes no outro dia! Mas pronto, continua a ser uma boa influência e a ter muita importância.

1975, o primeiro trabalho de longa duração de Xinobi, foi lançado a 06 de Outubro. Vai ser apresentado ao vivo dia 8 de novembro na Gare, no Porto, e dia 13 de novembro no Lux Frágil, em Lisboa.