A antologia mais assustadora da televisão norte-americana volta aos pequenos ecrãs e, desta vez, conta-nos a história de um circo de aberrações. Protagonizado por Jessica Lange e produzido por Ryan Murphy, Freak Show parece em nada mudar, mas a fórmula é totalmente nova e o piloto não desilude.  

Depois de uma temporada mais irregular, Ryan Murphy tem muito que provar aos fãs da série, principalmente enquanto argumentista. Coven começou bastante bem mas acabou por tropeçar nas suas próprias linhas da narrativa fazendo com que o argumento não fosse mais de que uma manta de retalhos, recheada de storylines por acabar, twists sem sentidos e ressurreições até mais não. Mas falemos então de Freak Show e da extrema importância que esta quarta temporada acarreta nas suas, ainda jovens, costas.

American Horror Story: Freak Show é a quarta temporada de uma das séries que tem cada vez mais conquistando mais público e audiência na FX, canal norte-americano. É também a temporada em que nos despedimos da gloriosa parceria Lange/Murphy. A maior diva da série já veio a público anunciar a sua saída do elenco, revelando que Freak Show será a sua última contribuição para American Horror Story. Posto isto, esta temporada não só tem que nos fazer esquecer dos momentos mais amargos e sem graça de Coven, como também homenagear a sua maior diva que está de despedida.

ahsfreakshow_401_3

Monsters Among Us, episódio piloto de Freak Show, começa com o pé direito e revela-se num eficaz e bem construído capítulo de abertura. Desde os segundos inicias que damos de caras com aqueles tão típicos e deliciosos aspetos técnicos, desde a direcção de arte vintage à música jazz, os movimentos da câmera, os ângulos estranhos, o guarda-roupa sem falhas.

Freak Show continua a trazer excelência técnica a esta série de televisão, uma excelência que se dá na atenção até aos mais pequenos detalhes, como na cena em que uma enfermeira vomita num redondo e verde caixote do lixo, muito caraterístico dos anos 50. E temos também uma banda-sonora escolhida e composta a dedo, temos músicas jazz e outras rock’n’roll, umas a lembrar o antigo glamour circense do tempo de ouro de Hollywood, como a própria música que serve não só de mote ao genérico como a toda uma temporada, esta que tem estes toques mais alegóricos de circo, em conjunto claro com a típica batida terrorífica a que já estamos habituados.

O episódio inicia e as storylines começam igualmente a serem introduzidas, personagens novas surgem e a empatia por estas estranhas – no seu duplo sentido – personagens começa a crescer. Murphy não caiu na preguiça argumentativa que julguei que iria cair, não expôs as suas personagens como se de uma apresentação de um circo se tratasse, ou seja, uma a seguir à outra, cada uma apresentado a sua peculiaridade ou disfuncionalidade. Pelo contrário, Murphy foi suficientemente inteligente para dar a conhecer ao espetador, em primeiro lugar, o lado humano de cada uma das aberrações, ajudando assim à criação imediata de empatia entre o espetador e estas novas personagens, fazendo com que as bruxinhas arrogantes de Coven fossem totalmente esquecidas.

zap-american-horror-story-freak-show-season-ph-001

Rapidamente fomos introduzidos à infame e demasiadamente promissora Elsa Mars, personagem de Jessica Lange. Uma atriz de cabaret alemã perdida no show business americano que a tornou dona de um circo. Esta personagem é sobejamente cativante graças ao especial cuidado nos diálogos escritos para a mesma e à entrega total de Lange em mais um papel icónico de American Horror Story.

Temos aqui novamente uma personagem que se aparenta forte, mas que esconde um role imenso de fragilidades (tal e qual como Sister Jude em Asylum e Fiona Goode em Coven), mas, apesar de a fórmula ser a mesma, a atriz consegue impregnar, vindo não sei de onde,  um ar fresco e revitalizante nesta Elsa. É incrível, inacreditável até como, passados quatros anos, Jessica Lange continua a ser o principal motor desta produção: ela é American Horror Story. Murphy terá um trabalho muito mais difícil quando a sua maior diva estiver fora do elenco, a ver vamos como será a quinta temporada.

Mas antes de nos metermos a fazer previsões de um futuro ainda distante, voltemos às personagens. Quem também promete imenso em Freak Show, e depois de uma desinspirada entrega em Coven, é Sarah Paulson que volta no papel de duas irmãs aprisionadas ao mesmo corpo. Paulson é Beth e Dot Tattler e só não rouba o spotlight a Lange. Ela é não só a nova atração do circo de aberrações de Elsa como da própria série de Ryan Murphy e, ou muito me engano, serão duas personagens centrais na trama e no desenvolvimento da acção de Freak Show. Paulson tem aqui todos os elementos para entregar a performance da carreira dela, algo que já se veio a construir desde os minutos iniciais com um francamente bom desempenho da atriz.

1412213676177_wps_45_American_Horror_Story_Fre

O resto do elenco foi muito menos explorado e muitos outros nomes ainda faltam aparecer, como Angela Bassett e Emma Roberts. Temos performances eficazes como a de Kathy Bates e outras mais trémulas como a de Evan Peters, mas nada que mereça grande preocupação. Já nas aberrações, temos um valioso trabalho de cast que complementa na perfeição o tema da série e os sustos que pretende provocar ao espetador.

Este episódio é assim um eficaz piloto, apresenta bem as suas storylines, dá as boas-vindas aos espetadores e tenta imediatamente criar empatia com os mesmos através das suas cativantes personagens. E, algo que ainda não se falou muito nesta análise, e ao contrário de Coven, promete muitos sustos e uma dose avulta de terror. Temos já pequenos indícios disso mesmo neste primeiro episódio, principalmente nas cenas com o palhaço Twisty, que promete aterrar, daqui para a frente, os pesadelos dos espetadores. Tenho imensa pena das pessoas que têm fobia a palhaços.

Em suma, Monsters Among Us é francamente um bom episódio, mas uma temporada nunca é definida pelos seus primeiros minutos: ou Ryan Murphy aposta num coeso argumento ou teremos mais disparates como aqueles que aconteceram em Coven. A esperança existe e vem materializada, uma vez mais, em forma de Jessica Lange.

Nota do episódio: 8/10