O mais recente filme de ação de Liam Neeson consegue ser mais interessante do que todos os outros que o ator fez até à data, mas não consegue suplantar a mediania da história que carrega. Ainda assim, vale por ter alguns bons momentos de entretenimento, e por ser mais suportável do que se pode esperar.

A narrativa segue um fio condutor básico e recorrente de diversos filmes policiais norte-americanos clássicos e contemporâneos, em que Liam Nesson assume o papel do protagonista. É um antigo polícia de Los Angeles com um passado turbulento e traumas que continuam a atormentá-lo no presente, ao tentar ganhar a vida como detetive privado. Pela sua reputação, é contratado para descobrir o paradeiro da mulher de um traficante de droga, o que o leva a uma viagem que poderá não ter regresso, num crime que envolverá muito mais do que uma simples vítima.

Baseado no livro de Lawrence Block, O Caminho Entre o Bem e o Mal é mais um filme de ação protagonizado por Liam Neeson. Diga-se “mais um”, porque parece que tem sido este o género em que o ator tem apostado mais nos últimos anos, com propostas que, na sua totalidade, e até a este filme, se tinham revelado sempre como infelizes, execráveis e desprezíveis (com alguns casos mais degradantes que outros – alguém viu esse festival insípido e cansativo de clichés que deu pelo nome de Sem Identidade?).

Por isso, este novo filme de Neeson, realizado por Scott Frank (argumentista de Relatório Minoritário e Romance Perigoso, pelo qual foi nomeado para o Oscar na dita categoria), não foge, em parte, às regras impostas pelas suas anteriores incursões nas fitas de ação, que tornaram este novo interesse do ator numa vaga a que os espectadores já se habituaram, e que podem reencontrar de tempos a tempos: a sua personagem é um anti-herói duro (que está pronto a partir para a pancadaria), uma história linear que se perde em lugares comuns, e outros ingredientes. Não nos esqueçamos das cenas de luta, de “grandes plot twists” que, na realidade, não o são, e claro, da constante intenção de Neeson em tornar-se no novo ícone de ação, para a pequenada do século XXI.

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Mas, e ao contrário dessa fornada de títulos anteriores que protagonizou, este consegue, pelo menos, captar a atenção do espectador. Apesar da mediania do seu argumento (e da repetição de fórmulas elementares, como a do prólogo inserido propositadamente na trama para nos ajudar a compreender a complexíssima personalidade do protagonista), há que louvar alguma perspicácia no lado da realização (isto, pelo menos, em algumas das primeiras cenas do filme, que mais tarde se deixa levar por uma formatação técnica banal) e no aspeto visual, que utiliza uma interessante cinematografia que acompanha a ação com um fulgor que a torna mais apelativa.

Há também, por conseguinte, que destacar, neste pequeno entusiasmo que esta obra desinspirada proporciona, a importância das interpretações, que sustentam o interesse que conseguimos manter por uma narrativa polvilhada de ideias que, infelizmente, não possuem grande criatividade. Mas essas ideias conseguem, até, encaixar em certos momentos, graças aos atores e à química entre Liam Neeson e Astro (antigo concorrente do programa X Factor que, aqui, mostra algum talento interpretativo), como também às maneiras não tão óbvias que os outros intérpretes utilizam para desenvolver as suas personagens desequilibradas.

Mas é Neeson que sai mais valorizado, num papel que, não sendo um dos maiores desempenhos da sua carreira, demonstra a boa forma do ator na atualidade, que poderia ser aproveitada para desafios que se desenvolvessem noutros níveis, e que não se deixassem ficar pelo simples debitar de frases heroicas e pelas maiores sequências de tiroteio, perseguições, e outros que tais. E mesmo possuindo tudo isso, O Caminho Entre o Bem e o Mal acaba por ter mais alguma coisa, que o faz ser, na sua mais pura vulgaridade, o melhor filme protagonizado por Liam Neeson dos últimos anos (entenda-se por “últimos anos” um espaço temporal assinalável).

Por isto tudo aguentamos o filme de Scott Frank com outra perspetiva: pelas tentativas (falhadas) de se inovar uma construção cinematográfica desgastada, pelo ritmo viciante que nos conduz essa história pouco criativa, e acima de tudo, pela presença maior de Liam Neeson, que abandona, em parte, o papel-cliché que ele próprio criou com essa série (interminável) de filmes pré-fabricados dentro dos mesmos conceitos de ação, thriller e coisas semelhantes. Poderia ser melhor, mas por outro lado, O Caminho Entre o Bem e o Mal perderia mais se nem tivesse sequer essa agradabilidade suficiente e essa empatia que nos faz ficar interessados no percurso das personagens até ao surgimento dos créditos finais. Um filme mediano reverente e futuramente descartável, mas que, ao menos, cumpre pela positiva essa sua mediania.

6.5/10

Ficha Técnica:

Título: A Walk Among the Tombstones

Realizador: Scott Frank

Argumento: Scott Frank a partir da obra de Lawrence Block

Elenco: Liam Neeson, Astro, Dan Stevens, David Harbour

Género: Crime, Drama, Mistério

Duração: 114 minutos