É o primeiro de muitos trabalhos póstumos de Robin Williams que temos o prazer de ver nas nossas salas. Talvez seja pela morte trágica do ator, mas a verdade é que Aproveita a Vida Henry Altmann é uma comédia divertida e ao mesmo tempo comovente.

Conta a história de Henry Altmann (Robin Williams), um homem infeliz e zangado com o mundo. Quando confronta bruscamente a Dr.ª Sharon Gill (Mila Kunis) durante uma consulta para que lhe diga os resultados do último exame, esta, atrapalhada, diz-lhe que tem apenas 90 minutos de vida. Dá-se então uma dupla corrida contra o tempo: ele vai tentar a todo o custo reconciliar-se com aqueles que ama, enquanto que a doutora se vê obrigada a encontrar o seu paciente para solucionar o mal entendido.

Este remake do filme israelita Mar Baum está longe de ser um filme original ou inovador. Aliás, em termos técnicos tem momentos mesmo muito pobres. O que mais salta à vista é a realização irritante de um Phil Alden Robinson completamente obcecado numa câmara tremida que, em vez de dar um toque indie (ou seja lá qual for o objetivo do realizador) ao seu trabalho, o faz semelhante a um vídeo amador. A fotografia, aquando dos inúmeros flashabcks que Henry tem, é desapropriada, pois todos aqueles tons de castanho fazem as suas recordações parecerem muito mais velhas do que realmente são. E na única cena onde se utilizam efeitos especiais, o blue screen é tão evidente que torna um episódio comovente num segmento algo patético.

Mas pondo de parte todos estes aspetos e mantendo a atenção focada somente no enredo, pode desfrutar-se facilmente da visualização de Aproveita a Vida Henry Altmann. A história em si também tem algumas falhas, nomeadamente uma ou outra cena que não faziam falta nenhuma, e o argumento não é, de todo, de alta qualidade. No entanto, o bom trabalho dos atores, especialmente o sempre energético Robin Williams e a carismática Mila Kunis, lá conseguem tornar toda a narrativa mais interessante, divertida e, quando necessário, comovente. Embora por vezes não se consiga gerir bem a comédia com o drama, sendo possível encontrar alguma dificuldade em alternar entre os dois tons na escrita do argumentista Daniel Taplitz, o elenco talentoso consegue compensar e disfarçar essas falhas.

E tanto a comédia como o drama do filme estão bem construídos. Por um lado, podemos rir-nos às gargalhadas com um humor simples mas eficaz, que recicla algumas piadas de outros filmes e consegue adaptá-las bem à história, criando momentos bastante engraçados. Mas, por outro, também o lado mais emocional do público pode ser despertado durante a fita, dado que alguns momentos de Henry a refletir sobre a sua vida e a tentar reconciliar-se com os seus entes queridos são extremamente tocantes.

Um dos outros aspetos mais interessantes e até inteligentes foi a decisão de fazer os dois protagonistas principais narrarem em voz off parte do seu passado e um pouco do que estão a sentir a dada altura do filme. Ficamos logo desde início a conhecer a personalidade das personagens e a afeiçoar-nos a elas. Embora seja descaradamente uma tentativa de copiar o estilo de Woody Allen (algo impossível e que faz com que alguns monólogos acabem por ser desnecessários ou chatos, dada a falta de uma essência própria), sempre atrai um pouco mais de atenção.

Mas fica uma dúvida no ar. Será que Aproveita a Vida Henry Altmann resultaria se Robin Williams ainda estivesse vivo? Não é de todo uma das suas melhores performances, mas a verdade é que a história ganha um outra dimensão tendo em conta a sua morte trágica. Há inclusive um momento arrepiante e premonitório em que Henry, pensando que morrerá em 90 minutos, grava uma mensagem de despedida ao filho dizendo “quando vires este vídeo já estarei morto“. Todos os momentos dramáticos têm uma nova pujança e algumas das piadas são mais engraçadas porque são das últimas que ouvimos da sua boca.

Talvez o filme não fosse o mesmo sem a morte de Robin Williams. Talvez não ficássemos tão emocionados e divertidos se não soubéssemos que vemos o ator pela última vez. Mas a verdade é que é inevitável ver Aproveita a Vida Henry Altmann de outra forma. E é assim que a experiência de assistir à fita se torna mais rica, onde a história e a carga emocional chegam quase à altura dos aspetos genuinamente positivos, como o restante bom elenco e os momentos engraçados que proporciona.

6/10

Ficha Técnica:

Título: The Angriest Man in Brooklyn

Realizador: Phil Alden Robinson

Argumento: Daniel Taplitz

Elenco: Robin Williams, Mila Kunis, Peter Dinklage, Melissa Leo

Género: Comédia, Drama

Duração: 83 minutos