O último filme do realizador de Hiroshima, Meu Amor e O Último Ano em Marienbad chega finalmente a Portugal. Amar, Beber e Cantar é uma interessante e revigorante comédia dramática, sobre seis personagens à procura de si mesmas e de uma razão para todos os problemas e enganos de que serão vítimas nesta história.

Seis atores interpretam os membros de três casais, que se veem condicionadas por um sétimo, amigo de todos eles, que os espectadores nunca irão conhecer fisicamente (apenas poderemos saber de quem se trata graças a tudo aquilo que as personagens contam sobre a sua vida, os seus segredos e os seus dilemas no presente). É assim que se desenrolam todas as peripécias de Amar, Beber e Cantar, onde vemos as alegrias e mágoas das personagens, os momentos de rutura de cada um dos casais e os recorrentes ensaios para uma peça, numa narrativa cheia de risos, lágrimas e algum whisky.

Se Alain Resnais é um cineasta das relações humanas (filmadas, claro, sempre de uma maneira muito peculiar), este seu derradeiro trabalho demonstra isso mesmo, através de uma perspetiva não muito recorrente (pelo menos, no cinema contemporâneo): se a narrativa já é por si só baseada numa peça de teatro, e se nessa narrativa está incluída uma sub-plot sobre a preparação de uma outra peça de teatro (uma peça dentro da peça), o filme acrescenta uma outra fórmula para aumentar e fortalecer ainda mais o seu lado dramatúrgico: a construção aparentemente cinematográfica dos elementos figurativos e cénicos (como os cenários) é, no seu todo, uma recuperação dos valores do teatro filmado, e de certas formas de se usar a câmara que imperavam nos tempos do mudo (os planos gerais em sequência, muitos deles fixos).

Mas Amar, Beber e Cantar (adaptação de uma peça de Alan Ayckbourn, autor recorrente na obra de Resnais) não se reduz a essa ideia simplista, e que hoje já foi usada e abusada até à exaustão, de transformar a técnica do cinema em teatro – mas aqui, felizmente, encontramos uma boa utilização desse tipo de artifício, que despreza o elemento de ilusão do cinema e proporciona-lhe uma dimensão estética não menos apelativa. Aqui o centro da questão está nos atores – porque são eles que verdadeiramente importam, e não as decorações e ambientes “falsos” que os rodeiam, em cada espaço em que se movem, comovem e se auto-enganam.

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São atores que levam as suas personagens “a sério” num ambiente que tem tudo para ser visto como risível, inocente e colorido. Mas não é isso que acontece, porque os três casais do filme têm muito mais para nos dizer e transmitir, nesta sucessão simples de cenas de romance, intriga e confusão, do que muito filme agitado, movimentado e “realista” que por aí anda a estrear nas nossas salas. Em Amar, Beber e Cantar, o que importa fundamentalmente não é a construção do artifício, ou a desconstrução da ideologia imaginária do cinema, mas a capacidade dos atores em levar o filme, praticamente, “às costas” – aproveitando todas as condicionantes técnicas que encontraram nesta produção.

E também porque, para além dos atores, é na simplicidade das questões com que se debate este grupo de personagens que podemos encontrar uma representação minimalista das problemáticas que assaltam a grande peça que é a da existência humana, que se elabora num palco e que nunca consegue ser ensaiada. E Alain Resnais pode não assinar aqui um dos seus melhores filmes (porque aqui a conjugação do teatro filmado com o filme propriamente dito não resulta sempre bem), mas não deixa de ser curioso como, para seu último trabalho como realizador, deixa aos seus espectadores uma reflexão sobre a vida e a morte – e o que de mais cómico e trágico há em cada uma delas.

Reflexão essa que acentua, através de um sétimo personagem de que todos falam (mas que o público nunca conseguirá ver mesmo quem é), os conflitos e os choques que se instalam nas relações humanas, devido a variados mal entendidos e confusões manipulatórias. E assim, Amar, Beber e Cantar desenvolve-se, aos olhos de quem o for ver, como um filme cómico e delicado, mas acertado e inteligente, sobre o cinema, o teatro, o cinema no teatro e o teatro no cinema… e tantas outras coisas mais.

Alain Resnais deixou-nos este ano, e para a posteridade fica uma carreira notável, multifacetada e única na História do cinema. Este seu canto de cisne pode não ser o filme que faça mais jus ao seu talento e imaginação cinéfilas, mas pode ser um bom ponto de partida para começar a conhecer a sua filmografia, e para as novas gerações o poderem finalmente descobrir e a alguns dos seus temas essenciais.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título: Aimer, Boire et Chanter

Realizador: Alain Resnais

Argumento: Alain Resnais, Laurent Herbiet e Jean-Marie Besset, a partir da peça de Alan Ayckbourn

Elenco: Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Sihol, Michel Vuillermoz, Sandrine Kiberlain, André Dussollier

Género: Comédia

Duração: 107 minutos