Diogo Infante repetiu a dose da obra de Álvaro de Campos no Teatro Municipal São Luiz e esteve à deriva numa conversa com o Espalha-Factos onde a Ode Marítima foi surgindo, inevitavelmente. Porém, mais do que isso é aqui revelado, principalmente sobre o público que vem ver o poema do heterónimo de Fernando Pessoa.

Espalha-Factos (EF): Em 2012, no Festival da Artes, em Coimbra, fez a primeira declamação deste poema (Ode Marítima). O que é que muda desse momento até agora?

Diogo Infante (DI): Eu não gosto muito da palavra declamar, aliás, eu acho que a proposta desde essa noite até agora passou sempre por não declamar. Quanto muito por dizer, e talvez em primeiro lugar por sentir. E a razão pela qual durante tantos anos nunca disse poesia é porque eu não gosto da ideia de declamação. É uma ideia exterior a nós, é algo que é um bocadinho formal, e eu não me revejo nessa maneira. Naquela noite li e disse o poema de uma forma um pouco quase que atabalhoada, diria, porque não tive tempo para me preparar o suficiente para abarcar toda a dimensão do poema.

A Ode Marítima_Photo.José Frade

EF: Mas quais são as diferenças entre esse dizer e o agora?

DI: Sobretudo mais preparação: para já decorá-lo, o que só em si já é um trabalho titânico. Mas depois decorar não chega. É preciso entender o que estamos a dizer, mastigar o texto, apropriarmo-nos do texto para que ele passe por nós, para que ele faça parte do nosso corpo. Portanto, ao longo deste processo, destes seis meses de digressão, desde que estivemos no São Luiz e que andamos pelo país e agora voltamos, eu tenho vindo a apropriar-me cada vez mais do poema. Já não se trata de estar ou não seguro com o texto; trata-se de ir sistematicamente e cada vez que o faço e digo, descobrindo novas leituras, novas possibilidades, porque o texto é tão rico e tão diverso que podemos estar muito tempo entretidos com ele e é isso que tenho feito. Por isso, neste regresso ao São Luiz, espero continuar a descobrir coisas diariamente.

«é uma espécie de uma reflexão que tem necessariamente que surgir dentro de nós»

EF: Às vezes não cai na tentação de o declamar, de forma formal, ao invés de o dizer?

DI: Eu tento que isso não aconteça. É evidente que o poema tem uma estrutura rítmica e contém zonas de uma grande poesia e, por isso, às vezes o poema empurra-nos para determinado tipo de dimensões que podem ser mais poéticas. O que eu tento sempre fazer é sentir o poema. Dizê-lo como se estivesse a dizer para mim. Senti-lo como se ele nascesse em mim e, portanto, ele é uma consequência direta de uma necessidade de o dizer, mais do que uma vontade de formalizar um texto. Portanto, esse é o grande desafio, é o que tento fazer todos os dias.

EF: Vê este texto também como um diálogo constante consigo próprio enquanto ator, apesar de ter a contracena da luz, do vídeo e da música?

DI: Eu acho que sim, eu acho que o poema é um diálogo interior. Aliás, de que forma se justifica alguém estar a falar sozinho. É uma espécie de uma reflexão que tem necessariamente que surgir dentro de nós, com as suas variadas dimensões. E depois à medida que ele vai evoluindo e isso avançando, ele vai ganhando novas espessuras, camadas. Isso permite-me ir mergulhando emocionalmente em zonas do texto que são mais profundas.

A Ode Marítima_Photo.José Frade1.

EF: Porquê este regresso? A primeira digressão foi um sucesso com mais de oito mil espectadores.

DI: Para além de termos ficado surpreendidos por um poema de Álvaro de Campos ter tido esta receptividade, ficamos com a sensação de que o público em Lisboa ainda não tinha ficado esgotado. Na altura fizemos 10 espetáculos, em duas semanas, e às vezes quando as pessoas pensam que gostariam de vir ver, o espetáculo já acabou. Portanto, no fundo, é dar possibilidade a todas as pessoas que não viram que o possam fazer agora. O São Luiz foi muito receptivo nessa vontade partilhada de repor o espetáculo e, pelo que percebi, está a correr muito bem. Portanto, eu acho que se justifica este esforço.

EF: Apesar de a maior parte das pessoas estudar Fernando Pessoa no secundário e ter contacto com esta obra, qual é o público que vem ver uma peça que não é comercial?

DI: O público é muito heterogéneo. Temos escolas, temos grupos de alunos, muitas vezes mobilizados pelos seus professores de português que querem aproveitar para os trazer e ouvir um texto, que de outra forma lido pode não ser tão interessante ou não lhes ser tão inteligível. Temos pessoas de meia-idade, jovens, temos de tudo. Alguns curiosos, que nunca tinham lido Pessoa; pessoas que de alguma forma vêem um bocadinho ao engano porque me conhecem da novela e têm essa curiosidade de me verem ao vivo. Mas muita gente vem porque efetivamente quer: uma escolha consciente de ouvir um texto que sabem à partida tem uma grande complexidade e uma grande beleza.

EF: Tem receio que, por vezes, a mensagem não passe por este ser um texto complexo e diverso, que o próprio Diogo tem dificuldade em digerir?

DI: Receio não, não tenho receio nenhum.

«o poema é que me comanda»

EF: Mas tem essa preocupação mesmo quando está a fazer o espetáculo?

DI: Preocupação tem de se ter necessariamente, mas isso está relacionado com o próprio facto de nós optarmos por não declamar o texto, dizendo-o e sentindo-o, significa que, ao passar o texto por mim, ele fica mais claro pelo menos na minha cabeça e na forma como eu o transmito. Portanto, tenho a esperança que a perceção seja mais clara. Agora é evidente que não é a ouvir o texto uma única vez que o vais absorver por inteiro. A ideia é que tu saias daqui e tenhas feito comigo uma viagem também ao interior de ti próprio, e que saias inundado por uma sensação ou por muitas sensações. Agora tu não consegues dissecar exatamente quais são e saber exactamente qual foi a parte do texto que te provocou, mas ficas com uma impressão: é disso que se trata.

A Ode Marítima_Photo.José Frade2

EF: Tem sido uma viagem solitária e, também por isso, complicada a nível emocional?

DI: Sim, é verdade. Este projeto foi levantado em seis semanas, e eu nas primeiras três semanas tive praticamente só fixado no texto, em decorá-lo, em memorizá-lo, em parti-lo. Depois as outras três semanas foi o tentar assimilar o texto de forma a que ele se tornasse inteligível. E esse é um processo muito, muito duro porque estamos a falar de um texto que não é coloquial, banal, e portanto é difícil. São ideias complexas e difíceis para decorar. Mas ultrapassada essa fase, dificílima e solitária, depois a partilha quer com a música, quer com as luzes, o espaço, depois é um prazer. Tudo é uma mais-valia.

EF: Na estreia já estava ao comando do paquete que é esta obra ou só em espetáculos a seguir?

DI: É uma viagem partilhada e, na verdade, eu nunca me sinto – passando o pleonasmo – no comando. O poema é que me comanda. Eu sou uma espécie de primeiro imediato, alguém que vai orientando, ajudando. Eu não comando. Não me sinto verdadeiramente em comando. O poema é maior do que eu, é mais importante do que eu. Eu hei-de morrer e ele há-de continuar sozinho, ou dito na boca de outros atores, outros intérpretes. Portanto, eu tenho essa consciência e essa humildade em me levar pela própria dimensão do poema, e surpreender-me. É isso que eu acho que é maravilhoso.

«ficam a pensar naquilo durante várias horas»

EF: O poema acaba por ser transcendental?

DI: O poema existe por si. É evidente que no caso de um texto nós podemos pessoalizar a forma como dizemos. Mas ele é tão intenso e tão forte que ele exige de nós, e se nós não estamos à altura da exigência do poema, ele não funciona. No fundo, é o poema que me vai orientando no sentido de eu poder chegar a um determinado porto. Esse é o desafio diário, é isso que eu pretendo sempre fazer. Sempre que eu não dou o máximo, eu fico aquém, eu fico com uma sensação de angústia, de não cumprimento do meu dever.

A Ode Marítima_Photo.José Frade4.

EF: E o feedback que tem recebido diz-lhe que as pessoas têm achado o espetáculo muito complexo?

DI: Sabes que o feedback que me chega não sei se é representativo de todo o feedback. Presumo que as pessoas mais críticas me poupem aos detalhes da sua opinião, felizmente, mas a generalidade do feedback que tenho tido tem sido muito, muito positivo. Acho que as pessoas, mesmo aquelas que já tinham lido o poema, redescobrem nesta versão. Reconhecem uma intensidade, uma vibração e uma complexidade que é muito empática, é muito imediata… as pessoas dizem que saem daqui muito ‘abananadas’, e perturbadas, como se levassem um murro no estômago. Ficam a pensar naquilo durante várias horas e, por isso, têm dificuldade em desligar.

Fotografias: José Frade