Competitividade é a melhor palavra para descrever Negócio Fechado, e talvez toda a sociedade em que vivemos. Encenada por Rodrigo Francisco com Paulo Mendes, não podia ter sido colocada em cena na melhor altura. Há peças que merecem uma salva de palmas simplesmente por retratarem tão bem a realidade em que todos os seres humanos vivem. Negócio Fechado está em cena no Teatro da Trindade até 18 de outubro e é uma produção da Companhia de Teatro de Almada.

Rodrigo Francisco adotou o texto original de David Mamet, Glengary Glen Ross, para um cenário a decorrer no final de uma época brilhante para Portugal. No final dos anos 90, depois das pessoas do nosso país gastarem todo o dinheiro que têm em vários eventos e acontecimentos, todos começam a fechar os bolsos para novos investimentos. O dinheiro começa a ser escasso e não, afinal, há assim tanta riqueza. É neste cenário que Negócio Fechado acontece, com quatro trabalhadores de uma imobiliária a tentarem fazer negócio para não serem despedidos.

É sob a filosofia “o segundo é o primeiro dos últimos” que estes vendedores fazem o seu trabalho, onde a manipulação e inteligência são essenciais para persuadir possíveis novos clientes. Numa fase em que se fecham os bolsos e não existem tantas pessoas dispostas a fazer investimentos no setor imobiliário, os vendedores desta imobiliária são obrigados a puxar pela imaginação e a pensar em como passar à frente dos colegas. Há um clique quando o público começa a ouvir os planos que os atores começam a engendrar num bar, com uma empregada quase muda e a ler unicamente o seu livro. Numa primeira fase assiste-se a uma discussão por contatos decentes, de forma a fazer-se negócio para dar lugar a uma conversa entre dois colegas, ambiciosos por ganharem dinheiro, para venderem todos os contatos e deitarem a imobiliária na banca rota.

Negócio Fechado Pedro Lima e Alberto Quaresma

Cada vendedor, interpretados por Adriano Carvalho, Ivo Alexandre, Marques D’Arede, Miguel Eloy e Pedro Lima, pretende ser o melhor e passar, a qualquer custo, à frente do colega. Há também lugar para o suborno, em que o melhor ou o chefe se deixa levar pelo desespero de quem está à beira de perder o emprego pela falta de vendas. Prende-se a atenção do público pela realidade familiar colocada durante toda a peça. Quer seja vendedor, jornalista, médico, enfermeiro, não se sente em todas as profissões uma competitividade desenfreada? Uma competitividade que tende cada vez mais a infiltrar-se nos valores do ser humano? Para uns talvez esteja correto, para outros talvez não esteja.

É essa a intenção deste Negócio Fechado: colocar o espetador a pensar um pouco sobre o ambiente em que vive. Quem sobrevive num ambiente tão carregado de trabalhadores ambiciosos, desejosos por chegarem ao topo por qualquer preço? Qual o futuro destinado a pessoas deste género? É incrível perceber a forma como, 30 anos depois da peça ter sido escrita e levada para os teatros, se pode colocar o enredo de forma tão eficaz nos tempos atuais.

Negócio Fechado Marques D'Arede

Marques D’Arede interpreta o funcionário caído em desgraça, desesperado por conseguir sobreviver num ambiente em que se consagrou campeão. Sílvio Rosa, talvez o mais antigo trabalhador na imobiliária, fazia vendas extraordinárias no passado. Centenas e centenas de escudos, entretanto transformados em míseros euros nos tempos que correm. É o típico trabalhador caído em desgraça, com desespero no início da peça a transformar-se em ambição ao iludir-se com uma nova venda de milhares de euros. Cada ator merece uma salva de palmas, a começar com Pedro Lima, o trabalhar sem tento na língua e a mostrar todos os esquemas manipuladores para com os clientes, e a terminar com Alberto Quaresma, a interpretar o cliente que se deixa levar na conversa e não tem tempo de voltar atrás.

Negócio Fechado é uma reflexão dos tempos atuais com recurso a épocas passadas. Oferece uma verdadeira visão do que é ser competitivo, violentamente ambicioso diria. Nunca uma peça foi tão importante para colocar o público a pensar sobre o caratér como uma óptima característica num ser humano. Está em cena no Teatro da Trindade até 18 de Outubro.

Fotografias de Rui Carlos Mateus