Esta lista é baseada na minha experiência na província de Sichuan, maioritariamente em Chengdu e nos arredores, durante um mês em que fiz voluntariado num projecto da AIESEC. É um artigo de opinião que se alarga à China mas reflecte apenas as minhas vivências pessoais e das pessoas com quem convivi, pretendendo ajudar o futuro turista/voluntário/residente a saber o que pode esperar do país. Para leres a primeira parte deste artigo clica aqui.

Ora aqui vai:

6. Permanece calmo/a no meio do trânsito caótico

Talvez as palavras “calmo” e “caótico” sejam antónimos mas não há melhor maneira de descrever a atitude a tomar quando nos encontramos num país onde as regras de trânsito, se existem, são irrelevantes.

A polícia não multa ninguém e faz ainda pior se for preciso. Traços contínuos, o que é isso? Basicamente, a estrada é um caos. Quer se conduza um ligeiro ou um pesado, a velocidade é a mesma, nada muda. Certo dia estava eu a descer uma montanha extremamente ingreme, com curvas apertadas e declives num dia de chuva intensa e nevoeiro, presa num autocarro cujo condutor não sabia de certeza da existência do travão, conhecendo apenas os encantos do acelerador. Escusado será dizer que vi a minha vida a andar para trás.

Juntar aos automóveis ligeiros e pesados, a existência de inúmeros triciclos, motas ou bicicletas também não ajuda. Uma miscelânea destas no meio da estrada torna tudo ainda melhor visto que estes últimos veículos até atravessam na passadeira e estão autorizados (suponho) a circular no passeio.

Confesso que durante o tempo que passei na província de Sichuan fiquei de certo modo contaminada por maus hábitos como não pôr o cinto, decisão que não recomendo. Na China ninguém parece importar-se com tal pormenor insignificante. Cheguei a andar de carro com um “bip” incessante durante uns dez minutos só porque o condutor não lhe apetecia pôr o cinto. Caso te desloques de triciclo (funcionam como táxis), nem sequer tens essa oportunidade e estes veículos são geralmente velhos e rangem por todos os lados, mas vale a pena experimentar. No geral, aconselho a não entrar em pânico visto que não existe outra alternativa. Afinal de contas, os condutores “parecem” ter tudo controlado.

7. Não fales sobre política

Este é um assunto delicado mas essencial que irei ilustrar com uma situação que presenciei pessoalmente. Tendo estado na China a fazer voluntariado com a AIESEC, uma das voluntárias no mesmo projecto que eu era proveniente de Taiwan, mais precisamente da capital, Taipei. Nenhum chinês a tratava de forma diferente, todos eram agradáveis, não se notava qualquer tipo de descriminação, mas a questão não reside aí.

Todos os voluntários tiveram de expor aos alunos chineses, nas escolas onde trabalhámos, uma espécie de apresentação sobre o nosso país de origem. Sem incluir esta rapariga, todos nós eramos da Europa ou América-Latina. Tivemos total liberdade de expressão na escolha dos temas abordados. Os membros da organização dirigiram-se somente a esta rapariga com alguns requerimentos que incluíam a proibição de colocar a bandeira de Taiwan no seu power-point e não poder dizer certas palavras em chinês (referentes ao seu país e à China). Ela lidou surpreendentemente bem com a questão e fez a apresentação como pôde. Calculo que já esperasse algum tipo de censura o que demonstra que a tensão existe, apesar de não tão perceptível à superfície.

Deste modo, temas relacionados com política, quer sejam questões internas ou relacionadas com Taiwan, o Tibete ou o Japão devem ser evitadas. Conheci pessoas com as quais conversei abertamente acerca de questões deste género e às quais pude fazer várias perguntas, mas foi um tema que surgiu naturalmente, e por iniciativa da outra parte. Não aconselho portanto a iniciar propositadamente uma conversa sobre um assunto desta natureza.

8. Faz download de um software para aceder a sites bloqueados

Quando cheguei à China fiquei impedida de utilizar o Facebook, o Google, o Youtube e, o pior te tudo, a minha conta do Gmail. Os chineses possuem inúmeros sites e aplicações que substituem as tão conhecidas redes sociais no resto do mundo, como o QQ ou o WeChat, pelo que no país em si esta situação não é problemática.

No entanto, para estrangeiros o caso é diferente. Ao fim de pouco mais de uma semana acabei por conseguir instalar um software que me permitiu aceder aos sites bloqueados. Hoje em dia encontramo-nos demasiado presos àquilo que a Internet nos oferece e ser incapaz de aceder ao correio electrónico durante um mês é realmente um problema. Não vou propor nenhum método específico para solucionar esta situação dado que no fundo estou a sugerir algo considerado “ilegal” no país em questão, mas de facto qualquer um se depara com a censura enquanto em território chinês (exceptuando Hong Kong e Macau).

Deste modo, se estiveres na China durante pouco tempo isto não será propriamente um grande aborrecimento. No entanto, para aqueles que pretendem realizar estadias mais longas ou até mesmo emigrar, será provavelmente imprescindível.

9. Aceita aquilo que te oferecem

Os chineses são pessoas extremamente generosas que te fazem sentir em casa. Fiquei realmente impressionada com o esforço imenso que faziam para me sentir confortável em qualquer situação apesar da barreira linguística.

Tive a oportunidade de viver com três famílias de acolhimento muito diferentes e não poderia de modo algum apontar um dedo a nenhuma delas. Insistiam em pagar entradas em monumentos, jantares em restaurantes ou snacks que simplesmente queriam que provasse. Afinal eu era a convidada. O mesmo acontecia com qualquer pessoa com quem estivesse, mesmo que fosse a primeira vez que nos encontrávamos. Até no que diz respeito aos alunos que tive, de vez em quando gostavam de me oferecer algo, quer fosse um gelado, um livro, uma pulseira. A oferenda mais comum é mesmo a comida pelo que mesmo que já estejamos cheios devemos fazer um esforço.

Por vezes chega a ser demais e sentimo-nos como que em dívida para com a outra pessoa mas não há razão para isso pois sempre tive a impressão de que de facto, eles não esperavam nada em troca. É algo que faz parte da tradição e que penso estar ligada a um desejo de nos fazer querer regressar ao país.

10. Parte à aventura

Quando estive na China vi de tudo.

Desde a “moda” extremamente comum dos homens que durante dias de calor intenso (ou não) decidem andar com a camisola repuxada até mais ou menos debaixo do peito para mostrar a barriguinha, a um hábito que se estende a imensos cidadãos: cuspir constantemente por tudo e por nada.

Explorei locais e conheci pessoas que me ficarão para sempre na memória, desafiei-me a mim própria ao viajar sozinha para um lugar remoto e completamente diferente do que estava habituada, aprendi a esperar, testei a minha capacidade adaptação…

Porém, aquilo que realmente nos marca não é isso. O que fica são os pedaços de um país que nos conquista a pouco e pouco, exactamente pela sua singularidade. Pela sua aura, que é muitas vezes pintada em tons demasiado negros. Ideias pré-concebidas.

Mas a China que eu vivi não é assim.

Carrega consigo uma tradição ancestral de sonhos perdidos em parágrafos interrompidos a meio. É um país onde por vezes nos interrogamos acerca da própria noção do tempo. Como se este não corresse da mesma forma no topo das montanhas ou numa rotina de taishi pela manhã. Quer nos encontremos nas partes mais industrializadas ou numa plantação de milho, essa essência tão característica consegue sempre transparecer. Estás nas pessoas, nos rios, na brisa, nos sabores.

Por isso, se tiveres oportunidade, parte à aventura.

De qualquer das formas, dá sempre uma boa história.

Se quiseres saber mais sobre as experiências que a AIESEC proporciona, visita aqui a página oficial. Podes ainda ficar a saber mais sobre o programa de estágios internacional Global Citizen aqui.

*Este artigo foi escrito, por opção da autora, segundo as normas do acordo ortográfico de 1945