Após lançar o seu primeiro disco de originais, Pedro Cazanova, uma das referências portuguesas da música eletrónica, é entrevistado pelo Espalha-Factos. Podes ler o resultado aqui: 

Espalha-Factos (EF): Como foi começar em 1997 uma carreira de DJ?

Pedro Cazanova (PC): Eu acho que até foi antes! Não foi uma coisa fácil. Na altura trabalhava-se com um gira-discos, que não era uma coisa que se tinha em casa. Não é como hoje em dia… “epá, quero meter música por isso deixa-me descarregar aqui 100 músicas e sacar um Virtual DJ para meter música hoje à noite”. Na altura era complicado: preciso de discos, preciso dos técnicos – que eram caríssimos na altura. Era diferente. Hoje em dia a evolução é muito mais rápida do que há 20 anos. Comecei muito novo mas não foi fácil.

EF: Qual foi o teu primeiro contacto com a música eletrónica?

PC: O meu primeiro vinyl terá sido do MC Hammer: U Can’t Touch This. Acho que este disco foi o que começou a evolução da música de dança. Foi o primeiro contacto que tive.

EF: A nível de produção, como foi iniciar o trabalho em estúdio?

PC: A nível de produção, olhando para trás, eu comecei tarde. Eu comecei a produzir há uns seis anos. Antigamente o disc jockey bastava pôr música. Agora é quase obrigatório seres produtor. Não havia acesso aos programas. Havia grandes produtores, mas não cá em Portugal, só lá fora. Nos Estados Unidos nasce com o Macintosh praticamente. Cá em Portugal aquilo veio um bocado atrasado.

EF: A evolução da música eletrónica em Portugal foi positiva?

PC: Foi, foi. Não houve um momento em que eu dissesse que estou a regredir, estou a andar para trás. Se calhar houve momentos em que pensei que estava um bocado parado, mas talvez por culpa minha, por não estar a trabalhar. Às vezes acontece isso, uma pessoa… não é desmotivar-se, mas não sei…

EF: Quando é que começas a ver esta atividade como uma profissão?

PC: Eu desde sempre que quis fazer disso vida. Mas há um momento em que tu acordas e dizes: “isto tem que ir para a frente”. Ou é um hobby ou é um emprego, um trabalho sério. Então depois dediquei-me a 100%, e quando o fiz correu bem.

EF: Como aprendeste essa parte da produção depois?

PC: Vou-te ser sincero: onde eu cresci não havia disc jockeys nem ninguém produzia música. Não havia tutoriais do YouTube como há agora. Portanto, é a descoberta, sozinho, em casa. É ir descobrindo.

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EF: Quando estás a produzir, pensas naquilo que está ‘a bater’ na altura, ou seja, mainstream?

PC: É óbvio que não vou fazer uma coisa dos anos 90. Há a evolução dos sons, dos truques de como tu fazes as coisas. Se eu quero meter uma voz com uma melodia a tocar numa pista com mil pessoas, então vou ter de adaptar aquele som que eu adoro a uma pista grande. Vou-te dar um exemplo: um dos temas que eu tenho no álbum, o Crazy, é um tema que eu acho fantástico, mas que não posso passar num festival. Não é impossível, posso tocar mas se calhar vou levar com uma caixa de ovos na cabeça. Não é um tema para festival. Mas se eu pegar naquilo e tocar numa discoteca ou num club com um público mais velho, talvez seja perfeito.

EF: Portanto tem que ver com o ambiente e o público para qual se toca?

PC: Exatamente. Por exemplo, o On Fire é um tema que eu posso tocar em qualquer lado. O Lose Control posso tocar em qualquer lado. O Crazy não posso tocar em qualquer lado. Tenho outro, o Big and Fat – que nem sequer é cantado -, que não posso tocar, só em festivais ‘mais fortes’. Se eu tocar essa para um público mais velho, eles vão espancar-me de certeza.

EF: Este é o teu primeiro disco de originais. Porquê só agora e como surge esta oportunidade?

PC: Já me fizeram essa pergunta e eu respondi um bocado o que me veio à cabeça, mas depois tive a pensar e acho que já tinha pensado que queria o disco de originais. Mas se eu ficasse forçado, se me dissessem: “tens seis meses para fazer um disco de originais”, nunca o ia fazer. Mas eu fiz este disco de originais em seis meses porque foi um processo fluído. Eu sou uma pessoa que gosta de acordar cedo, gosto de trabalhar, sou mega produtivo nas coisas que faço. Eu fui fazendo até que cheguei a um ponto em que disse: “espera lá, eu tenho aqui quase um álbum, então vou acabá-lo”. Com a pressão de criatividade, se calhar não o vais ter.

EF: E vale a pena um DJ fazer um disco de originais ou isso acaba por ser um complemento do seu trabalho apenas?

PC: No meu caso, foi difícil escolher os temas porque havia muitos que eu queria pôr. Quando dei por mim eu ia em dezoito temas para meter no álbum, mas achei que não fazia sentido. Então tentei agradar a gregos e a troianos. Imagina se eu fizesse um álbum em que todas as músicas fossem praticamente iguais, se calhar o público ia pensar: “eu ouço a primeira e estou a ouvir as outras todas”.

EF: Assim sendo, como definirias o álbum?

PC: Eu acho que é um álbum que abrange todas as faixas etárias…

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EF: E qual foi o feedback que tiveste do público?

PC: Se eu for perguntar aos familiares eles vão dizer que é o melhor álbum do mundo! [risos] Eu até agora tive bom feedback do álbum. Uns falaram muito bem de uma música, outros de outra… normalíssimo. Não houve ninguém que me dissesse: “Pedro, não me leves a mal, mas aquilo não está bom”.

EF: Como foi a escolha do single?

PC: Eu estava indeciso entre o On Fire e outro, mas quando me comecei aperceber que o On Fire funcionava bem, disse logo que este tinha de ser o single. Eu por mim tenho a minha ideia mas também não sou eu sozinho a decidir, claro.

EF: E a produção do álbum foi o mais desafiante? Como foi esse processo?

PC: Há dias em que nós entramos e a coisa flui de uma maneira que nem se dá conta. Estamos ali 10 horas e fazemos uma ou duas músicas quase. Há outros dias em que estamos 20 horas e em que não fazemos rigorosamente nada. Andamos ali à procura de um som que nós sabemos bem qual é. Andamos ali para cima e para baixo… “é este, é quase, mas não é isto; tira e põe outro, vamos por ali”. Às vezes está também relacionado com o teu estado de espírito. Às vezes estás bem, outras vezes há alguma coisa que te está a incomodar e faz com que não estejas concentrado nem estejas bem. Tem muito que ver com o estado de espírito.

EF: Cada vez há mais procura de DJ’s e festivais de EDM. Notas que há uma certa saturação? Há espaço para novas aquisições?

PC: Eu acho que há sempre espaço. Eu acho que em cada dia aparecem 100 disc jockeys novos, 100 produtores novos, que trabalham bem… eu acho mesmo que há espaço para toda a gente.

EF: Também notas que há mais afluência a nível de público?

PC: Claro que sim, muito mais. Aliás, eu acho que a música de dança é o pop da atualidade. Antigamente, as rádios não passavam música de dança. Hoje em dia não há uma rádio que não passe música de dança.

EF: Há um ano atrás, o Hardwell disse ao EF que a música eletrónica era a música que melhor e mais juntava as pessoas. Concordas? E porquê?

PC: Concordo porque a música de dança hoje em dia abrange muitos géneros. Tu consegues pôr a minha mãe a ouvir temas que eu ouço e que a minha filha também ouve. Só aqui tens três gerações a ouvir a mesma música. Mexe com as pessoas.