O cinema francês está diferente. A afirmação serve de mote para a 15.ª edição da Festa do Cinema Francês. A iniciativa, que pretende divulgar a cultura e o cinema nacionais em Portugal, chega este ano a mais cidades que nunca e começou ontem em Lisboa.

Num ano em que foram várias as estreias francesas nas salas portuguesas, principalmente de comédias, os espectadores mais atentos já devem ter ultrapassado o estereótipo de que o cinema gaulês é lento, pausado e sem história. No entanto, a organização da Festa quer sublinhá-lo. E fá-lo bem, num humorado vídeo promocional com um ‘ex-diretor de pausografia’, uma profissão em vias de extinção:

A noite de estreia começou com uma atuação de abertura pelo grupo DANSASAPARTE, de expressão corporal e danças adaptadas a indivíduos com deficiência e limitações físicas. E é sempre impressionante, e desafiante, apercebermo-nos que é sempre possível fazer, desde que se queira.

O filme de abertura da edição deste ano foi um documentário, La Cour de Babel, que sublinhou, de forma evidente, um lema a manter em mente: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Julie Bertucelli, a realizadora, acompanhou ao longo de um ano, na Escola Secundária de Granges-aux-Belles, em Paris, uma turma de acolhimento de jovens imigrantes entre os 11 e os 15 anos que chegam a França e querem poder evoluir para o ensino regular.

Um filme que quebra as ideias pré-definidas sobre a imigração e retrata com fidelidade o sentimento de jovens a descobrir um país que lhes é estranho, a aprender uma língua diferente e a crescer, com todas as dúvidas e indefinições que isso acarreta, no meio de uma turma de pessoas com histórias de vida e culturas variadas.

lacourdebabel

As discussões sobre religião, educação ou até mesmo sobre como se diz bom dia em cada uma das línguas faladas pelos alunos são filmadas de forma franca e natural. E se parece que os estudantes se esquecem que estão a ser filmados, nós próprios parecemos sentir-nos no meio daquela turma e também com algo para dizer.

A determinação, os sonhos e as vidas difíceis de cada um destes estudantes inspiram-nos, bem como nos inspira vê-los crescer ao longo deste ano letivo. Uma lição sobre inclusão, num filme que nos traz boas notícias de uma França cujas últimas novidades apontam crescimento do neo-fascismo e da intolerância racial. Uma das personagens do filme dizia que ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’ é sobre todos sermos livres, iguais e vivermos como irmãos. A mensagem é simples. E tu, porque é que não consegues entendê-la, Marine Le Pen?