O Espalha-Factos esteve à conversa, no Hotel Altis, com os dois atores, que fazem parte do elenco do novo filme de António-Pedro Vasconcelos, que se encontra em exibição em diversas salas de todo o país, e que conseguiu ser um assinalável êxito logo nos primeiros dias após a estreia, sendo um caso de sucesso ao nível do cinema português deste ano. Nestas duas pequenas entrevistas, o “vilão” Ricardo Carriço e o protagonista João Jesus falaram connosco sobre as suas personagens, as mensagens importantes da história de Os Gatos Não Têm Vertigense do bem e do mal que caracteriza a sociedade contemporânea.

Ricardo Carriço

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Espalha-Factos (EF): A sua personagem (Daniel), e a sua atitude para com os dois protagonistas do filme (e a tudo o resto), pode fazer parecer, para alguns, que esta se trata de uma figura estereotipada, mas infelizmente, ela reflecte um tipo de vivência e de relação com os outros (principalmente com os idosos e os jovens) que se tem vindo a agravar em Portugal.

Ricardo Carriço (RC): Fico contente que tenha ficado com essa sensação, e acima de tudo acrescento: eu acho que o Daniel reflecte também uma certa geração que, de algum modo, se tornou mais materialista, e que começou a viver num mundo mais descartável. O facto de não saber lidar com esta senhora mais velha (porque a quer despachar, e vender o apartamento dela) mostra isso mesmo. E não há dúvida que a nossa sociedade é assim. Depois é agradável vermos um filme que nos conta exatamente o contrário, que nos diz que o amor e a verdadeira amizade existem, e que tudo pode ser muito mais fácil se apenas dermos qualquer coisa de nós aos outros.

EF: É essa a mensagem principal que considera ser o que os espectadores devem captar deste filme, ou há mais alguma coisa fundamental?

RC: Eu acho que as pessoas devem viver o filme, e devem olhá-lo como se deveria olhar o nosso dia a dia, para percebermos quem são as pessoas que estão ao nosso lado e como é o universo de cada uma delas. E depois acho que o filme tem outra coisa extraordinária: dá-nos a capacidade de sonhar, e de entender que a vida não é só uma coisa “corrida”, às vezes sem sentido…

EF: … e que é preciso ter calma.

RC: Sim, e que devemos aproveitar o tempo para apreciar as coisas. E o filme dá-nos isso. E eu até considero que este é um daqueles filmes que nos faz sair da sala bem dispostos, com um sorriso na cara, e acordamos no dia seguinte a pensar nele, e só nos apetece dizer: “Que bom! Ainda bem que vi aquele filme!”. Acredito que este é um filme que as pessoas vão levar na memória, e de repente, ao longo do dia, vão encontrar uma série de coisas que começarão a olhar de uma maneira diferente.

EF: E acha que estes filmes, que conseguem captar o espectador dessa forma, fazem mais falta ao país?

RC: Nós vivemos num mundo em que somos completamente sufocados por problemas. Abrimos os telejornais e só vemos chatices, guerras, o mundo preso por um fio. E de repente vamos a uma sala de cinema, e assistimos a um filme que nos faz sonhar. Por isso sim, acho que precisamos de ver mais filmes como este.

EF: O sonho ainda comanda a vida, então?

RC: Eu acredito e vou continuar a acreditar nisso (risos).

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EF: Também será importante que filmes como este nos consigam ajudar a olhar para aquilo que está à nossa volta e que muitas vezes nos esquecemos que existe, apesar de estar tão perto de nós?

RC: Há algumas pessoas, de algumas correntes de pensamento e outras coisas mais, que costumam dizer que se cada um de nós olhasse para o seu quintal e o melhorasse, tudo isto seria muito melhor. Se calhar está na altura de começarmos a ter tempo para isso, e olharmos para aquilo que está à nossa volta. E para além de tudo o que já falámos, é engraçado que este filme, basicamente, fala de solidão do princípio até ao fim, com dois casos completamente opostos. E isto é uma coisa que assistimos tanto no nosso dia a dia, e os problemas de solidão são tão grandes que até já se chegou à conclusão que os telemóveis ajudam, com as aplicações todas que têm, a combater essa solidão. Portanto, ela de facto existe. Mas através da disponibilidade que esta mulher [Rosa, personagem de Maria do Céu Guerra] tem em aceitar alguém vindo do nada e que vai para o seu terraço, que depois vai perceber que se trata de uma boa pessoa, que tem talento para escrever e que precisa de uma oportunidade, é que percebemos como esta relação de simplicidade e de afetos, sem nada de mais, é tão pura e bonita, e que, se todos nós aplicássemos um bocadinho esta receita, valia mesmo a pena.

EF: É o mais simples então que há no ser humano e na forma como nos relacionamos uns com os outros que acaba por ser o que nos deveria continuar a mover?

RC: Nós vivemos numa sociedade que é motivada pelo medo, não é? É o medo que governa a sociedade dos dias de hoje. As pessoas têm constantemente medo do Amanhã, de saber “então, mas e o que é que vai acontecer depois?”. E depois… depois não sei, logo se vê! É bom viver o Agora, e acordar amanhã com energia para repetirmos as coisas boas que fizemos hoje, e por aí fora! E acabamos por deixar que os problemas nos possuam. Uma grande amiga minha dizia-me sempre isto: ”experimenta ver os problemas da tua vida como se estivesses a assistir a um jogo no terceiro anel de um estádio de futebol”. Distancia-te deles, vê-os de cima, porque assim terei uma maior capacidade para lidar com eles, para podermos estar disponíveis para tudo o resto.

EF: Como é que se diferenciou o processo de transformação desta personagem de outras que tenha interpretado no cinema?

RC: O texto estava tão bem escrito que estava lá tudo. As palavras, por si só, já me disseram tudo, já me davam todo o personagem. Não tive de acrescentar nada: eu ia com uma ideia e o António-Pedro Vasconcelos deu-me toda a liberdade. E o que eu senti deste o início é que este personagem é um velhaco, vê-se na cara dele. E aquilo que ele diz no final, sobre a mãe da esposa… está tudo dito (risos).

João Jesus

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EF: Qual é que achas que é o público principal que o filme e a tua personagem pretendem atingir?

João Jesus (JJ): No fundo, acho que tanto o público mais jovem, como o mais velho, como o que está no meio deles encontrarão coisas com que se vão identificar no filme. Mas é o lado dos mais velhos que acaba por ser mais vincado no filme, e está muito bem pensado. Acho que a história do jovem marginal já as pessoas conhecem, e foi feito algumas vezes e já estamos habituados a essas coisas.

EF: Mas tanto a tua personagem (Jó) como a da Maria do Céu Guerra entram num estado de solidão. É algo que presenciamos cada vez mais com os mais velhos. Contudo, alguns jovens que estejam naquela interseção entre a adolescência e a vida adulta podem, talvez, identificar-se muito com o protagonista…

JJ: Eu também gostava de saber a opinião desses jovens, porque não dá para adivinhar o que eles vão absorver do filme. Mas espero que passe a vontade de mudar, ou a vontade de ter algum objectivo, ou de pelo menos acreditar que podemos fazer aquilo que ambicionamos, e que devemos dedicar mais tempo às pessoas, e não duvidarmos ou desconfiarmos delas. As pessoas estão cada vez mais a desligarem-se umas das outras – talvez um pouco por culpa da tecnologia, já nos apercebemos disso. E o conceito de “família” também está a ser destruído, e por isso alguns jovens caem nesta marginalidade, porque não têm essas bases certas em casa, e acabam por se vingar na sociedade… e com toda a razão.

EF: Mas o teu personagem, apesar do seu background, que o filme mostra, é um miúdo que gosta de escrever. Achas que esses interesses específicos são importantes para pessoas como ele, para sonharem atingir outras metas que esse background não poderia permitir?

JJ: Sim, ele escreve para ele próprio, e sente-se (ou pelo menos eu senti isso quando vi o filme) que ele até despreza um bocado o que escreve. Quando a Rosa lhe fala da escrita, ele diz que não serve para nada, mas é algo que o faz crescer, e sonhar. E depois, faltam-nos pelo menos argumentistas, porque têm essa capacidade de meter a imaginação no papel, e não sei onde é que esses jovens escritores andam. Fazem falta (risos).

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EF: Falando outra vez na Rosa, queria perguntar se, ao tomares contacto com a Maria do Céu Guerra, a ideia que tinhas da tua personagem acabou por se alterar de alguma maneira.

JJ: Sim, acho que é sempre alterado… principalmente pelos cenários. Quando chegas a um cenário, onde vais filmar, e é totalmente diferente daquilo que imaginaste, em que tens de adaptar tudo o que pensaste no próprio dia. Claro que, depois, a pessoa que te vai dar a contracena acaba por construir contigo a tua personagem. E obviamente, a Maria do Céu ajudou-me muito, e gostei muito de trabalhar com ela. E acho que quase tudo o que eu pensei, antes de começarmos a filmar, acabou por ser completamente diferente na realidade.

EF: Para ti, qual é o lado real da ficção que interpretaste, e que achas que deve ser a principal mensagem que o público tem de captar do filme?

JJ: É aquilo que há pouco referi. Temos de pensar nas pessoas, mais e mais, porque o que interessa, no fundo, são as nossas relações. Não podemos pensar só em nós, e temos de tentar mudar essa condição, e darmo-nos aos outros. E com a Rosa aconteceu isso: ela cuidou daquele rapaz e não desconfiou dele, ele foi fazer-lhe mal mas ela não retribuiu, e acho que é isso que nos falta. O mal tem alguma razão de ser, e geralmente esse mal é provocado por todas as coisas que condicionam, por tudo o que está à nossa volta. Mas isso nunca vai ser alterado, o mundo está como está, as pessoas más não deixam de existir, tal como a guerra, e cada vez mais tudo está pior. Mas acredito que o filme possa ser capaz de sensibilizar as pessoas para isto.

Fotografias por Ana Catarina Araújo