Contracorpo, romance de Patrícia Reis publicado em 2012 pela D. Quixote, traz uma transformação na relação entre mãe e filho, Maria e Pedro. Trata-se de uma viagem pela personalidade de cada um, pelo elo que os liga – dos mais fortes, mãe e filho – e do melhor como pessoas que os pode aproximar.

“Sou a única a amar o meu filho, a compreendê-lo verdadeiramente e mesmo através das cenas, dos gritos, continua a ser amor”, assim começa a obra com citação de Marguerite Duras sobre o seu filho e não podia ser melhor introdução para este Contracorpo. Do título retira-se uma ideia de conflito, de choque ou mesmo, na mais elevada criatividade, de explosão. Maria e Pedro vivem uma relação de silêncio desde a morte de Francisco, marido e pai de cada um. Em cada página há traços de revolta em cada um pela morte inesperada desta personagem sempre referida, por vezes colocados de lado pela exaustão do que esse sentimento tão pesado.

Contracorpo

Mãe e filho vivem uma relação no silêncio, quase sem se conhecerem pelo choque paralisante da morte. Infiltrou-se na casa, no dia-a-dia de cada um, nos pensamentos e ambições. Pedro adora desenhar, gosta e deseja passar despercebido na escola secundária. Maria trabalha desalmadamente para cuidar dos filhos, Pedro e Simão. Planeia o dia-a-dia para manter a perfeição aparente, como se fosse esse o objetivo de cada mãe. Deseja, na maioria das vezes, entrar no mundo do filho adolescente mas a violência do seu silêncio, com a porta do quarto fechada, leva-a a afastar-se cada vez mais. Sem compreender o que se passa com Pedro, acaba por sugar, num egoísmo desmedido, a infância e inocência de Simão. Ainda longe de ser um rapaz crescido e com tanto por crescer, sem lembranças nítidas do pai.

Cada um viaja no seu silêncio, a viverem na mesma casa. Até que Pedro chumba por faltas. O acontecimento que leva Maria a colocar tudo de lado, mesmo o filho mais novo, para tentar encontrar Pedro. Para tentarem encontrar-se numa viagem sem fim à vista e sem planos traçados, longe de encarnarem o papel de mãe e filho. Patrícia Reis retrata, de forma brilhante, as duas vozes do livro. Uma mãe, inicialmente sem esperança, e um filho revoltado e fechado numa concha preciosa. Tal como disse em entrevistas, encarna e vê-se nos dois papéis – de mãe e filha. E essa experiência nos dois papéis levou-a a escrever este Contracorpo. Um contracorpo que acaba por se transformar em apoio e compreensão.

Afinal, Maria é uma pessoa completamente diferente aos olhos de Pedro. Como é que nunca a viu? E porque é que Maria nunca foi capaz de ver as capacidades e talentos do filho? Ir além dos defeitos, da mágoa que lhe machuca o coração de uma forma violenta? Talvez sejam as perguntas às quais se obtém resposta neste romance, digamos, rápido. Não são mais de 200 páginas. Os espaçamentos, com frases curtas em itálico, dão espaço para a reflexão do leitor sobre as personagens.

Posso dizer que talvez possa ser um dos melhores livros de Patrícia Reis mas vou ter de ler mais um pouco para confirmar a minha afirmação em relação a este Contracorpo. A escritora lançou, na semana, passada o seu mais recente romance, O Que Nos Separa Dos Outros Por Causa De Um Copo De Whisky.

Nota final: 8/10