Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.

No mês em que estreou Os Gatos Não Têm Vertigens, recordamos um dos primeiros filmes de António-Pedro Vasconcelos, e que foi também um dos seus primeiros êxitos de bilheteira (juntamente com O Lugar do Morto, também da década de 80), conseguindo quase 90 mil espectadores. Produzido por Paulo Branco, foi apresentado pela primeira vez ao público na Seleção Oficial do Festival de Veneza em 1981, e apesar do sucesso inicial, ao ter estreado no Nimas a 8 de maio de 1981, o filme começou a ficar despercebido, em parte por não ser exibido na televisão regularmente, e também porque não existe qualquer edição no mercado home video disponível entre nós.

Mas este é um filme que merece ser descoberto, não só por ser um dos poucos retratos ficcionais que podemos encontrar, no cinema português, dos primeiros anos do país depois da revolução do 25 de abril (e talvez o único que retrate essa época o mais perto possível dos acontecimentos reais), como também porque se trata de um curioso exercício cinematográfico que mistura ficção, realidade e meta-ficção. Isto porque o próprio realizador é quem conta a história do filme, assume as suas personagens como meras criações “de papel”, e entra na própria ação da narrativa – se bem que de forma discreta, mas assinalável (e em certos momentos as suas personagens chegam a falar connosco).

A isto se junta uma visão agridoce da vida portuguesa nos primórdios da democracia: seguimos José (Manuel Baeta Neves), que emigrou para França ainda no tempo do Estado Novo, e que vai a Portugal e regressa por diversas ocasiões entre 1974 e outubro de 1978, tentando compreender, afinal, no que se tinha tornado o país com o fim da ditadura militar. Entre França e Portugal, José quer também saber se vale a pena, ou não, abandonar o país que lhe deu exílio para voltar à sua terra natal e fixar-se em Portugal, voltando às suas gentes e aos seus costumes. As suas experiências e desilusões são construídas numa história que está dividida em um prólogo, três retratos, três capítulos e um epílogo.

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Oxalá é um filme sobre a desilusão da democracia. Ou melhor dizendo, para evitar mal entendidos, é um filme que versa sobre aquilo que a revolução não conseguiu corrigir, num país que está numa procura eterna de identidade. E através das suas personagens e de vinhetas que tentam retratar, com ironia e acidez, os gostos e modos de uma época, de formas mais ou menos hilariantes (o momento de conversa à volta de O Último Tango em Paris é um ótimo exemplo de uma sátira social presente no filme), António-Pedro Vasconcelos traça um perfil do Portugal contemporâneo, adequado aos princípios dos anos 80 como também a esta segunda década do século XXI.

É nesse Portugal que reside uma contínua esperança naquilo que há de vir, nas coisas que vão fazer com que “oxalá” tudo acabe em bem, para que todos possam ter o happy ending que mais desejam para as suas vidas. Mas na comédia do filme, e nos retratos femininos que nele encontramos, reside a maior tragédia, a de um país desorientado que não sabe (nem agora) qual o melhor caminho a seguir. E mesmo que não esteja totalmente equilibrado na sua construção narrativa (a ideia de dividir o filme em tantos “separadores” acaba por tirar algum do efeito da sua história), não deixa de ser muito interessante a exploração sarcástica de um certo tipo de sociedade e as invenções ficcionais e reais que António-Pedro Vasconcelos insere na trama.

Oxalá é uma metáfora de um país de conto de fada, de ilusões de felicidade em tempo de ruína, em que a ordem natural das coisas domina os portugueses, que continuam conformistas e desiludidos consigo próprios, sem nada fazerem para mudar a sua situação. Porque tudo “é assim” e “assim” tem de continuar, vá-se lá saber porquê. Um filme que questiona o que é Portugal e os portugueses, e que ainda consegue suscitar um interessante debate social.

Ficha Técnica:

Realizador: António-Pedro Vasconcelos

Argumento: António-Pedro Vasconcelos

Elenco: Manuel Baeta Neves, Marta Reynolds, Laura Soveral, Ruy Furtado

Nota: 8/10