No panorama musical luso, a Lovers & Lollypops tem sido um dos principais agentes no que toca ao lançamento de alguns dos projectos mais sui generis que têm agraciado o nosso país. Desde o math-rock-agora-a-virar-para-o-stoner dos Equations até ao rockuduro improvável de uns tais de Throes + The Shine. Assim, é preciso pouco tempo com os trabalhos de JIBÓIA para entender que a sua toca não poderia ser outra.

Escondido por detrás do réptil rastejante, o jovem Óscar Silva faz uma música bizarra, munindo-se da sua guitarra e caixa de ritmos para desenhar paisagens destinadas a brincar com os sentidos, criando um som, que lá está… serpenteia pelos nossos ouvidos. É uma estranheza que acaba por se entranhar e prova disso é JIBÓIA EP, o primeiro trabalho, editado ainda no ano passado. Nele pintam-se telas maioritariamente instrumentais e um certo namoro com a sonoridade oriental com travo a caril e cuja moeda de troca é a rupia.

Eis que nos chega então, Badlav, um curto álbum composto por quatro momentos, que já tinham sido antevistos na última faixa do trabalho anterior. A alucinada Uadjit era o único tema que continha vocais, pertencentes a Ana Miró (ou se preferirem, a encantadora Sequin). Desta feita, todas as canções de Badlav contêm a contribuição vocal da jovem cantora e o resultado é capaz de causar alguns devaneios (dos fixes).

Podemos dizer que estamos exactamente onde JIBÓIA nos deixou da última vez e retomamos agora a viagem por este som decididamente exploratório que começa já a dar sinais de afunilamento para algo mais concreto: Badlav é um disco para trips intensas e para ser sentido com passos de dança frenéticos numa qualquer cave estranha às tantas da manhã.

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Nova imagemO tema que inspira o disco é claramente discernível. Inspirado pela doutrina hindu, o novo output de Óscar Silva constitui literalmente uma viagem espiritual (nem que seja pela nomenclatura), já que cada uma das quatro faixas foi baptizada com nome das quatro Yugas, as diferentes fases que a religião contempla e que representam o caminho entre a criação de todo o Universo até à completa aniquilação do mesmo.

É importante, no entanto, que se desenganem. Apesar da direcção musical estar mais concisa, este projecto musical não ficou nem um bocadinho menos estranho. O rock psicadélico presente em Badlav é algo para derreter paredes e caras. No entanto, será difícil pararmos quietos com os pés enquanto descendemos pelo abismo da destruição ao som dos ritmos quentes e áridos da Síria e Turquia.

Começamos então com Satya Yuga, a faixa introdutória que corresponde à fase mais virtuosa das Yugas. Começando com um percussão infecciosa onde nem falta um chocalho brincalhão, esta é a faixa mais alegre do disco. Aqui temos Sequin a cantar alegremente, remetendo-nos para um qualquer cenário de Bollywood enquanto o xamã JIBÓIA nos presenteia com riffs cortantes. É um bom aquecimento para o que se segue.

À medida que as Yugas avançam, a quantidade de pecado e desvirtude na Vida aumentam. Óscar levou isto em conta e criou um álbum que só viaja numa direcção: tudo fica aqui fica progressivamente mais negro e bizarro, mas também mais sensorial e dançável. Treta Yuga começa com uma linha de teclado 8-bit suja, adornada por uma percussão monótona e tribal, oferecendo um tom mais dramático. No entanto, é em Dvapara Yuga que a coisa começa mesmo a a descarrilar para caminhos mais alucinados.

A voz de Sequin aqui parece estar destinada a induzir o ouvinte num transe, agravado pelos padrões circulares e arrastados das guitarras. Enquanto isso, entre o fumo espesso surge um teclado frenético, perfeito para quem gosta de dar tudo nas danças bizarras. A este ponto começamos a notar alguns lugares comuns na música desta JIBÓIA como uma secção rítmica e vocal que nunca chegam realmente a variar drasticamente. No entanto, a curta duração não nos permite enjoar nem tão cedo destas batidas apocalípticas por isso continuemos, estamos quase a chegar.

Kali Yuga é a fase mais negra das quatro e apropriadamente recebe uma faixa a condizer. Com uma intro de orgão que lembra a chegada do boss final de um qualquer videojogo, o último tema é o grande climax de Badlav. O fim da linha é aqui e para a despedida, Ana e Óscar oferecem-nos uma batida negra e quase épica de sete minutos para antever a destruição. Não se senta no trono como melhor momento do disco (a terceira fase apanha-nos sempre com o seu delírio retro), mas é uma boa conclusão para um bom mini álbum que consegue ser, em alguns momentos, arrebatador.

Badlav é onde a música de meditação, os sons dos videojogos dos late 80’s e a neo psicadelia em ácidos se conjugam para nos transportar para uma curta mas intensa viagem pela vida. O caminho traçado por este réptil é, por falta de melhor termo, esquisito. No entanto, o groove está bem presente num trabalho que nem sempre é fácil de escutar, mas que tem um potencial ao vivo bastante vincado. Resta agora ver para que sítio irá a cobra rastejar a seguir. Por enquanto, sempre podemos carregar no play e repetir o percurso.

Nota: 7.7/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945