Está em cena no Centro Cultural de Belém de 25 a 30 de setembro, e depois rumará para outras zonas do país, numa digressão que se prolongará até ao próximo ano: Gata em Telhado de Zinco Quente é uma belíssima revisitação de um clássico do século XX, que continua a fazer sentido nos nossos dias – e talvez esteja hoje mais atual do que nunca. Uma brilhante encenação de Jorge Silva Melo, numa produção da Artistas Unidos.

Quando a peça estreou pela primeira vez, em 1955, numa encenação de Elia Kazan, o autor Tennessee Williams estaria a vislumbrar um dos maiores sucessos da sua carreira, naquela que se tornaria na sua peça preferida (ou, pelo menos, foi o que mencionou numa ocasião particular). E tal como em algumas das suas peças anteriores, como a “escandalosa” Um Eléctrico Chamado Desejo (outra das mais célebres, adaptada ao cinema por Kazan), a polémica instalou-se, devido aos temas retratados nesta história caótica e emocionante: o conflito de gerações, a linguagem das personagens e, acima de tudo, a forma como a sexualidade é abordada, e todas as dúvidas que residem à volta do estado desastroso de Brick.

Anos depois, o filme, realizado por Richard Brooks e protagonizado por Elizabeth Taylor e Paul Newman, elevou o mediatismo da peça a outros patamares que, para a posteridade, seriam difíceis de superar. A memória mágica e eterna dos olhares e talentos destes dois atores criaram uma “imagem” daquilo que a peça deveria ser (tal como aconteceu com a outra peça de Williams aqui referida – quem consegue imaginar outro ator que não Brando a interpretar Stanley Kowalski?), confundindo o poder do cinema com o poder do palco, das suas características e do seu toque único.

Jorge Silva Melo decidiu “tentar” contrariar esta ideia, e voltar a trazer ao palco as personagens que o público conheceu, maioritariamente, no grande (ou pequeno) ecrã. O resultado? Numa palavra, fantástico. É óbvio que a memória das imagens em movimento é grande demais para se desvanecer da nossa mente, mas conseguimos mesmo, durante quase duas horas, esquecer a sua existência. Graças a um formidável conjunto de atores que tão bem se encaixam nos papéis que representam (desde os protagonistas aos mais secundários), e também a uma encenação cuidada, atenta e detalhada, que tenta ao máximo aproveitar e exibir as intenções da peça original, numa tradução impecável que faz jus ao original de Tennessee Williams.

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O efeito de Gata em Telhado de Zinco Quente não será no nosso tempo, com certeza, o mesmo que obteve nos anos 50, criando uma série de controvérsias sociais que ajudam a compreender a mentalidade de uma época e uma perspetiva cultural distinta da contemporânea. Mas não há dúvida que a peça permanece inesquecível e, ao mesmo tempo, uma incrível reflexão sobre a crise dos (verdadeiros) valores humanos, e uma crítica aos julgamentos que fazemos dos outros, às opinações erradas que, pensamos nós, termos o direito de fazer sobre quem queremos, aos “diz-que-disses” desta vida.

Assim, esta peça é um monumento à constante colisão das relações humanas, e de uma sociedade aparentemente feliz, bela e eficaz, que esconde com essa máscara um misto de ódios, repugnâncias e ambições desmedidas. E isto é acentuado, talvez, devido à fabulosa reconstrução da história original que foi feita – e ao exímio trabalho de preparação dos atores e do encenador em voltar a levar à cena, com o maior respeito e dedicação, uma história simples que, por outro lado, está cheia de pequenas complexidades em cada momento, em cada discussão, em cada ironia e em cada reviravolta.

E o génio de Tennessee Williams não se encontra apenas nos maravilhosos e sublimes diálogos das personagens, como também naquilo que elas não dizem, e que os atores e Jorge Silva Melo conseguiram captar tão bem: os pequenos movimentos, os silêncios, os olhares sarcásticos e amargurados e a falsidade que as personagens têm umas para com as outras, rodeando-se de mentiras e ilusões que servem apenas para tentar suportar o insuportável, e curar as más relações que sempre tiveram uns com os outros e que, agora, são completamente impossíveis de serem alteradas.

Os espectadores têm agora a oportunidade de contemplar uma grandiosa peça nas condições “apropriadas”. Sem montagens ou ilusões cinematográficas, o texto de Williams revela-se, em todo o seu esplendor. como uma das obras mais importantes do autor, e uma das peças mais marcantes da dramaturgia norte americana do século passado. Um único cenário transporta-nos para toda esta história que, praticamente, se passa “em tempo real”, e que consegue proporcionar uma visão mais profunda e humana de tudo aquilo que nos inquieta na modernidade.

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Gata em Telhado de Zinco Quente mantém-se uma peça demolidora, um olhar arrasador para o lado mais negro e superficial da condição humana, e um clássico que passou o teste do tempo. Porque ainda sabe lidar tão bem com a vida e com a(s) morte(s) de cada um dos seus personagens, porque ainda nos emociona e nos faz rir, e porque continua a gerar debate e a fazer pensar sobre tudo o que está perto de nós, e na maneira como a peça acaba por ser um reflexo do seu próprio público, e de todas as condicionantes sociais e hierárquicas que continuam a fazer-se sentir.

No final, todos os aplausos são poucos para agradecer a todos os atores e ao seu encenador por esta maravilhosa recriação de um clássico que, sem se adaptar a preceitos modernos, não viu o seu dramatismo perder uma ruga, com o passar dos anos. Mas lança-se aqui o repto: que os espectadores de todo o país corram para ver esta Gata em Telhado de Zinco Quente, e que se deixem emocionar e encantar por este retrato tão pouco encantador da vida mundana e dos seus maiores protagonistas.

Fotografias de Jorge Malaia Gonçalves