Esta lista é baseada na minha experiência na província de Sichuan, maioritariamente em Chengdu e nos arredores, durante um mês em que fiz voluntariado num projecto da AIESEC. É um artigo de opinião que se alarga à China mas reflecte apenas as minhas vivências pessoais e das pessoas com quem convivi, pretendendo ajudar o futuro turista/voluntário/residente a saber o que pode esperar do país.

Ora aqui vai:

1. Não sejas esquisito/a nos restaurantes

Um pormenor em que reparei depois de passar algum tempo na China foi que deixei de me preocupar com a “limpeza” dos locais onde comia. De facto, se nos preocuparmos com isso, iremos perder alguns dos melhores momentos gastronómicos da nossa vida visto que a China não prima muito pela higiene mas tem boa comida. Os melhores locais onde comi eram pequenos, quase desprovidos de decoração e sim, claramente não muito limpos. Acho que a situação pode talvez ser comparada àquilo que as “tascas” representam no nosso país na medida em que se come melhor nos locais tradicionais e baratos.

Durante a minha estadia provei pratos espectaculares e outros terríveis, mas a certa altura já conseguia distinguir perfeitamente quais aqueles de que gostava. Os vegetais e a fruta, principalmente a manga, são deliciosos! As barraquinhas na rua, com inúmeros snacks como espetadas de tofu picante e fedorento, são também locais a explorar. Para além de que os chineses possuem outros produtos de que irei sentir saudades como gelado de milho.

Recomendo então que, ao visitares um país exótico como este, não te prendas demasiado às idealizações que construíste previamente. O que importa se estamos a comer num sitio onde claramente andam gatos na cozinha a largar pelo? É necessário quebrar algumas das nossas regras pessoais para que nos possamos realmente emergir na cultura de um país e aproveitar o que este tem para nos oferecer.

E se a preocupação principal é o cliché de “os chineses comem cão”, tal situação é muito controversa mesmo no interior da China pelo que não há razão para preocupações. Aliás, tive a oportunidade de comer escorpiões e quando em conversa comentei essa minha estreia com uma chinesa, esta ficou chocada e disse que nunca seria capaz.

Para concluir, a comida chinesa não é aquela a que estamos habituados a comer nos muitos restaurantes chineses que se encontram espalhados por Portugal e vale a pena experimentar.

2. Aprende a comer com pauzinhos (cliché mas é verdade)

Este ponto é óbvio mas deve ser mencionado. Quando chegares à China vais ter de comer de tudo com pauzinhos. Até peixe, talvez o mais difícil, visto que não podemos separar as espinhas antes de colocar a comida na boca e acabamos a cuspi-las com algum esforço para a mesa. Este último detalhe pode soar estranho mas vamos então incluir aqui uma breve descrição de como se come em território chinês.

Antes de mais, inúmeros pratos diferentes são colocados no centro na mesa. Podemos ter de tudo numa refeição: diferentes tipos de carne, peixe, tofu, noodles, dumplings, fruta e uma variedade incrível de vegetais a acompanhar praticamente cada prato. A única diferença é que comemos tudo ao mesmo tempo. Cada pessoa tem uma pequena tijela e pauzinhos. Na tijela colocamos a comida e quase sempre arroz a acompanhar. Quando algum dos pratos ao dispor tem caldo, é comum colocar o mesmo na nossa tijela e beber como se fosse sopa. O excesso (ossos no caso da carne ou as espinhas que mencionei anteriormente, entre outros), são comumente colocados na mesa e no final da refeição limpa-se tudo. Por vezes também se tem outra tijela para colocar o excesso, mas não é tão comum.

Portanto, aprender a comer com pauzinhos é absolutamente necessário e não tão difícil como poderá parecer: a comida é sempre cortada em pedaços pequenos para facilitar.

3. Aproveita os teus 15 minutos de fama warholianos

Se não és asiático, prepara-te para te sentires como uma autêntica celebridade. Isto acontece porque ao caminhares na rua em solo chinês, a grande maioria das pessoas olha para ti demoradamente e de forma extremamente óbvia. Se fores loiro/a, alto/a e tiveres olhos claros melhor ainda.

Penso que naquela zona não devem estar habituados a ver estrangeiros pelo que é uma certa novidade. Algumas pessoas tiram fotografias às escondidas. Outras pedem para tirar. Nunca tirei tantas fotografias na minha vida como durante o mês que passei em Chengdu.

Se alguém quiser tirar fotografias, devemos aceitar o pedido e sorrir. Ser simpático é a melhor solução. Em relação aos olhares, o melhor é ignorar e agir como se nada fosse, apesar de por vezes ser extremamente desconfortável. De um modo ou de outro, como a maior parte das situações caricatas, sempre dá para rir. Ou talvez para aumentar a auto-estima durante uns segundinhos.

4. Aceita que saber falar inglês não te vai safar

É a realidade. Não vale a pena acreditar que o facto de saberes falar inglês te vai salvar quando estiveres perdido ou pedires indicações: ou sabes falar mandarim padrão ou muito provavelmente a maior parte das pessoas não te vai compreender.

Os jovens são aqueles cuja probabilidade de te perceberem será maior mas mesmo assim vi-me inúmeras vezes presa em mal-entendidos ou total desconhecimento daquilo que queria transmitir. A pouco e pouco aprendi a simplificar o meu inglês ao máximo, até mesmo a usar verbos no presente quando deveriam ser colocados no passado, para ser melhor compreendida. Mesmo no caso de quereres transmitir números por sinais gestuais, é necessário ter cuidado. Os chineses não representam os números gestualmente da mesma maneira que nós pelo que na maior parte das vezes ou eles não me percebiam ou eu não os percebia a eles.

Sempre que comprava alguma coisa numa loja olhava directamente para a caixa registadora. Quando ia almoçar nalgum restaurante havia sempre alguém que tinha de pedir por mim pois a maior parte das ementas é em chinês e não tem imagens. Basicamente, se conheceres alguém que fale tanto chinês como inglês fluentemente, faz dessa pessoa a tua guardiã. Safei-me de inúmeras situações simplesmente porque um dos voluntários possuía conhecimentos alargados de ambas as línguas.

Tendo dito isto, apesar de nem tu saberes falar mandarim, nem eles saberem falar inglês, vai existir comunicação. Aconselho a aprenderes a dizer o nome do teu país de origem em chinês. Isto pode parecer ridículo mas as pessoas vão sempre querer saber de onde és e a maior parte dos chineses simplesmente não percebe os nomes dos países em inglês. Se me referisse a Portugal teria de o fazer em chinês: “Pútáoyá”. Desta forma, toda a gente me compreendia e recebia sempre um sinal de aprovação devido ao Cristiano Ronaldo (ou “Cilô” como os chineses dizem). É também recomendável saber o básico para poder cumprimentar alguém ou agradecer. Outra situação extremamente aconselhável é aprender a dizer casa-de-banho – Cèsuǒ.

5. Tem sempre contigo lenços de papel/Aprende a lidar com as casas-de banho

Este é sem dúvida alguma um dos pontos mais importantes. Os chineses usam imenso papel e levam-no para todo o lado maioritariamente porque precisam realmente dele. Quando se come utiliza-se imenso papel visto que é fácil sujarmo-nos devido aos pauzinhos. Antes de se comer também é comum limpar a mesa caso estejamos a comer fora de casa pois é comum não se encontrarem limpas. No final da refeição limpa-se sempre pois a mesa encontra-se suja como referi no tópico 2.

Mas a maior razão para este hábito são as casas de banho públicas que quase nunca têm papel. É por este motivo que decidi colocar estes dois assuntos no mesmo ponto, visto estarem intrinsecamente ligados. É uma temática mais direccionada ao público feminino mas que tem forçosamente de ser mencionada.

Antes de mais, quase todas as casas de banho na China são do tipo de “agachar”. Existe um urinol no chão e não uma sanita. Também existem algumas sanitas mas mesmo em casa, os chineses tendem a preferir urinóis. De certo modo, poderia ser considerado mais higiénico, mas o que acontece é que a maioria das casas de banho públicas tresanda a urina devido ao facto de toda a gente urinar para o chão. Isto faz com que, devido a entupimentos ou simplesmente a alguém “falhar o alvo”, o pavimento se torne escorregadio e literalmente nojento.

Infelizmente não há como evitar as casas-de-banho e estas não são de todo agradáveis. Se por acaso deres de caras com alguém que se esqueceu de fechar a porta da casa-de-banho e acabares a observar por segundos alguém a meio de um momento íntimo, bem, não há nada que eu possa dizer que possa apaziguar tal visão. Contudo, aconteceu-me várias vezes, e em certas alturas nem sequer se pode evitar. Cheguei a ir a casas-de-banho que quase não possuíam separadores entre os urinóis. Talvez seja essa a razão para que a noção de privacidade seja por vezes esquecida por algumas raparigas. Enfim, seja qual for a situação, não te esqueças dos teus lenços de papel. Vais precisar deles.

Se quiseres saber mais sobre as experiências que a AIESEC proporciona, visita aqui a página oficial.

*Este artigo foi escrito, por opção da autora, segundo as normas do acordo ortográfico de 1945