É mais uma das grandes iniciativas deste ano cinematográfico: a partir de hoje, todos os dias até 5 de novembro, o Espaço Nimas irá exibir seis filmes do realizador Satyajit Ray. Apostando maioritariamente em filmes menos conhecidos (pelo menos em Portugal) do cineasta indiano, esta é uma oportunidade única para deslumbrar algumas das maiores pérolas de um génio do cinema, em cópias (realmente) digitais e (realmente) restauradas. O Espalha-Factos viu quatro dos filmes que estarão em exibição intercalada durante as próximas semanas.

Elaborar (mais) uma História do cinema e ignorar Satyajit Ray é algo equivalente a desprezar Tolstoi ou Steinbeck numa hipotética História da literatura. Quer se goste ou não, é inegável o contributo do realizador para a evolução e renovação do cinema, e os seus filmes, que parecem ser retratos de uma sociedade restrita (a bengali), acabam por ser mais universais do que aparentam – e intemporais também. Dos quatro filmes que pudemos ver, encontrámos as provas de um cineasta sempre em constante reinvenção criativa, através de diferentes histórias e modos de filmar que espelham as suas preocupações sociais, e a maneira muito peculiar como olhava o mundo e todas as suas “personagens”.

A Grande Cidade (Mahanagar) [1963] – 9/10

a grande cidade

Um drama que reflete a mudança do papel da mulher na sociedade, passando do ambiente doméstico para o mundo profissional do “exterior”. É a história de uma família que começa a enfrentar sérios problemas económicos. Por isso, Subrata (Anil Chatterjee) decide, contra todos os conservadorismos do seu pai (e também os dele próprio), fazer com que a sua mulher, Arati (Madhabi Mukherjee, colaboradora recorrente de Ray), comece a trabalhar. A certa altura, a situação inverte-se: o marido perde o emprego, e a esposa torna-se a pessoa que sustenta a casa.

Mas o retrato de costumes não fica por aqui, e Satyajit Ray explora esta situação problemática (e tão presente na atualidade portuguesa) com exemplar precisão técnica e narrativa. Acentuam-se os sinais de mudança de mentalidades que marcam também a alteração da conjuntura de um país, das suas raízes e das suas tradições culturais. Como sempre, há um formidável trabalho de atores, de câmara e de simbologia(s) narrativas e filosóficas.

Charulata [1965] – 10/10

charulata

É o filme mais conhecido entre a meia dúzia dos selecionados para serem exibidos no Nimas (e provavelmente em breve noutras salas do país). E é uma obra prima, que já muitos rios de tinta fez correr, e sobre a qual pouco ou nada há para acrescentar. Tem uma das mais belas histórias de amor do cinema, porque esta não chega, propriamente, a evoluir para um romance propriamente dito. Centramo-nos na personagem que dá nome ao filme (interpretada por Mukherjee), mulher solitária que, quando o marido não está por casa, entretém-se a vaguear pelos quartos, a investigar as estantes cheias de livros, ou a bisbilhotar todos aqueles que passam por ali, através dos seus binóculos. Mas quando um familiar do marido chega, que partilha o seu amor pela literatura, ela começa a apaixonar-se. As consequências não são previsíveis, nem acabam por se suceder quando estamos à espera.

É preciso dizer que Satyajit Ray não localiza a história numa época diferente da contemporânea por um simples acaso, nem que este não é só um filme de situações narrativas. É aliás, um dos filmes mais inventivos do cineasta, quer na utilização de planos ou de técnicas de filmar (a maneira como a câmara acompanha delicadamente a ação é fenomenal), quer na posição dos atores, nas suas entradas em “cena” e nas representações que fazem, mais presentes nos pequenos silêncios do que nos muitos diálogos da história. Um filme detalhado, milimetricamente pensado e executado, cuja força arrasadora e emocional continua intocável.

O Santo (Mahapurush) [1965] – 8/10

o santo

É o filme mais curto entre os que vão passar no Nimas (tem pouco mais de uma hora), mas é uma pérola igualmente deliciosa: trata-se de uma comédia satírica sobre um charlatão que se faz passar por santo (Charuprakash Ghosh). Por isso, esse vigarista torna-se um messias para as multidões que correm para o ver e para receberem os seus preciosos pensamentos e filosofias de vida.

Satyajit Ray desenvolve, assim, a premissa desta farsa através de alguns exemplos dos “maravilhosos” dotes curativos e espirituais dessa figura divina (cenas hilariantes e completamente inesperadas, portanto), bem como do plano que alguns “hereges” pretendem executar, para desmascarar o impostor. E mesmo com dimensões reduzidas, O Santo revela-se um filme exemplar graças ao apuro visual e técnico do seu realizador, bem como pela dimensão ritmada da sua história, pelas boas interpretações dos seus atores, e pelo retrato de uma sociedade em desespero e em busca de uma (qualquer) salvação.

O Cobarde (Kapurush) [1965] – 8.5/10 

o cobarde

Mais uma (ótima) surpresa, num filme que em pouco se assemelha aos outros três que foram aqui mencionados: é uma pequena história, com o seu quê de melodramática e, até, trágica, sobre um argumentista de cinema (Soumitra Chatterjee) que reencontra a ex-namorada (mais uma vez a excecional Madhabi Mukherjee), no local mais improvável possível. E a construção dos acontecimentos é incrível: Satyajit Ray não segue o caminho mais fácil e, por isso, não tenta reconciliar as duas personagens, cujas relações foram inteiramente cortadas e cujo clima de tensão e desprezo se mantém, passado tanto tempo após a separação – algo que notamos nos silêncios das interações entre ambos e nas reações frias da mulher às dúvidas do protagonista.

Não é um romance, mas um anti-romance, em que o passado e o presente se confrontam para decidir o destino e as decisões da narrativa. Simples, mas sedutor e sensacional, é mais um exemplo do grande realismo e criatividade do realizador, quer na composição cinematográfica e artística da obra, como na “manipulação” do enorme talento do grupo de atores que interpreta, com brilhantismo, o conjunto das figuras que perfazem este jogo de (ilusórias) emoções.