Este documentário é diferente de tudo o que já foi feito em Portugal no domínio do documentalismo“, garantiu o diretor do National Geographic Portugal, Gonçalo Pereira, na anteestreia de As Ilhas Desertas, na passada quinta-feira no Oceanário de Lisboa.

Ao fazer a apresentação do documentário, antes da sua exibição, Gonçalo Pereira afirmou que este modelo de financiamento, um guião especial e a junção de Madalena Boto e Alexandre Vaz faz deste um documentário de culto, que surge como uma “referência para o futuro“. “As rotinas da profissão geram a sensação de que não há alternativa. Este projeto mostra o contrário“, concluiu. A terminar a sua intervenção, o diretor do National Geographic Portugal considerou que os caminhos mais arriscados são os menos percorridos, e que este documentário é um desses percursos.

As Ilhas Desertas

As Ilhas Desertas

Este é um documentário que nos oferece a perspetiva de dois portugueses no rico habitat das espécies cabo-verdianas. Uma espécie ameaçada – a calhandra-do-raso – foi o ponto de partida, mas Alexandre Vaz e Madalena Boto encontraram mais histórias interessantes na biodiversidade ali existente. No fim, a mensagem é de esperança.

Um dos ilhéus, o do Raso, tem uma paisagem árida que fascinou os realizadores e que rapidamente conquista os espetadores. É, aliás, na beleza das paisagens que As Ilhas Desertas vence. Na aridez, no foque desfoque em cada pormenor, nos animais que trespassaram o caminho destes dois portugueses: toda uma vida selvagem que vislumbra qualquer ecrã, seja português seja estrangeiro. As potencialidades de um documentário destes prometem levar estes dois realizadores a voos mais altos, não fosse este um projeto de crowdfunding.

O documentário gira à volta do salvamento de uma espécie, mas vai além disso ao mostrar a interação com as populações dos ilhéus, com as preocupações e vontades de cada um. A natureza no seu estado inicial. Uma contextualização profunda da região. Três ilhas desertas: Raso, Santa Luzia e Branco – três faunas e floras únicas que possibilitaram filmagens fora do normal. Para além disso, os dois portugueses filmaram algo inédito: a reprodução da calhandra-do-raso, uma das aves mais raras do mundo, depois das primeiras chuvas, em novembro.

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Só naquele arquipélago existem 36 espécies de aves, sendo que 14 delas não existem em mais nenhum lugar do mundo (chamam-se espécies endémicas). Ao chegaram ao local, os dois portugueses verificaram a quantidade de projetos que havia para a proteção destas espécies e, deste modo, deram protagonismo a uma luta contínua.

O trabalho de proteção unifica-se na associação Biosfera. Esta é uma associação ambiental local criada pela população que pretendia uma mudança na atitude perante a proteção das espécies. Não só estas são espécies raras. Também este é um raro documentário, principalmente em Portugal. Esta gota num imenso deserto da produção nacional de documentários não só dá esperança como nos dá material para mostrar o quão bom somos, e podemos ser. E há factos que o comprovam: o documentário está selecionado para mais de cinco festivais espalhados por o mundo. Há estrada para percorrer.