40 anos de carreira fazem de Herman José um dos mais conceituados artistas do nosso país. Portugal viu nascer o humorista na RTP, estação à qual agora regressa para tomar conta das tardes. Há Tarde é o novo programa de daytime da RTP1 que conta com a apresentação de Herman José e de Vanessa Oliveira. No fim da estreia, esta segunda-feira, o Espalha-Factos esteve à conversa com Herman para saber como correu este novo desafio.

Espalha-Factos (EF): Acabou de estrear o primeiro programa. Qual é o balanço deste primeiro Há Tarde?

Herman José (HJ): Muito bom. A preparação foi muito profissional, fizeram todas as vontades… por exemplo, a nível cenográfico tivemos exatamente o layout que eu achava que devíamos ter para nos sentirmos confortáveis. A ligação à Vanessa foi muito agradável, foi muito mais lógica e serena do que eu imaginaria. E agora o truque é fazermos isto de maneira a que estejamos sempre ansiosos a vir para aqui, como quem vai fazer uma coisa que é prazer e não trabalho.

Há Tarde

«foi uma extraordinária prova de fogo para eu chegar hoje aqui»

EF: Estava ansioso nesta estreia?

HJ: Não, e vou dizer-lhe porque não: fiz 12 Verão Total que são emissões de seis horas complicadíssimas com este target de público, com temas variadíssimos e complicados porque de tão simples tornam-se complicados, e ainda por cima nos intervalos com o público a querer autógrafos, contacto e fotografias. Foi uma extraordinária prova de fogo para eu chegar hoje aqui e fazer isto com uma perna às costas. Seis horas ao ar livre rodeado de povo tem muito que se lhe diga.

EF: A estreia é sempre atípica. Daqui em diante, o que podemos esperar do programa?

HJ: Não sei porque nós vamos deixar isso ao sabor da maré. Portanto, o programa será sempre diferente consoante os seus próprios convidados. Alguns deles vão ser temáticos, como o próximo [terça-feira], por exemplo, que vai falar muito da relação Brasil-Portugal. Outros vão ser à volta de uma personalidade convidada. Portanto, a piada disto tudo é que vai ser sempre diferente.

EF: O programa tem sido comparado ao de Ellen Degeneres. Como é que vai conseguir ter o estilo do programa de 1h neste de 2h30?

HJ: A Ellen era o exemplo que eu dava para falar sobre a importância que a televisão tem hoje à tarde. Acabou aquele mito de que os programas bons são os de prime-time e que a televisão de dia não tem interesse. Lembro-lhe que a Oprah nasceu lá, a Ellen nasceu lá… Portanto, nós não temos dinheiro nem as star systems dos americanos, mas entre a Oprah e a Ellen há muitos ensinamentos que se podem tirar e usar, sobretudo na leveza da condução e na ligeireza da utilização do humor que é muito importante.

«de todos os géneros de televisão, este permite-me aproveitar-me muito da minha experiência da vida»

EF: O Herman está a comemorar os 40 anos de carreira este ano. Este desafio que a RTP lhe deu é uma bela forma de comemorar?

HJ: É engraçado porque era o único que me faltava fazer. De todos os géneros de televisão, este permite-me aproveitar-me muito da minha experiência da vida: tanto das músicas, como dos cozinhados, como dos convidados, tipo de temas. Um tipo com o meu tempo de vida e com o tamanho da minha carreira está muito apto a ser interessante todos os dias ao passo que uma pessoa com pouco tempo de vida tem mais dificuldade.

EF: Como é que surgiu este convite da RTP? De que lado das partes?

HJ: Foi uma coisa lançada para o ar para ver o que eu acharia. Lançada para o ar timidamente e eu disse logo que achava um máximo. Eles até ficaram espantados como eu tenho muitos espetáculos marcados acharam que era incompatível, mas eu resolvi isso porque tenho mais uma equipa a trabalhar… mesmo quando tenho espetáculos durante a semana, Portugal é um país pequeno, dá para estar em três horas a norte ou a sul, desde que tenha uma equipa a montar os palcos, consigo chegar a tempo. Dá-me perfeitamente para continuar os meus espetáculos. É mais complicado nos espetáculos no estrangeiro… aí só posso no fim de semana. Em novembro tenho uma saída para Nova-Iorque que vai obrigar-me a não fazer um dia, que eu espero que possamos gravar. De resto, a coisa faz-se.

Herman José

EF: Viu este talk show também como um desafio para a sua carreira?

HJ: Não sinto isto como um talk show, sinto isto mais como uma maneira de me aproximar com o tipo de público que hoje em dia me enche as salas.

EF: Este público para o qual faz este programa também é o público que depois vai aos seus espetáculos?

HJ: É, é. O público das tardes é muito misto: são gente a estudar em casa, nova, são reformados a precisar de ver televisão, pessoas que estão desempregadas e não têm nada para fazer. Hoje esteve um dia intenso de chuva por isso foi ótimo para estar em casa a ver televisão. É um horário muito específico. Ao passo que a manhã não… a manhã tem um público típico, das donas de casa, uma certa 3ª idade, um perfil mais linear. As pessoas novas não veem televisão, nem no cabo. À tarde não, à tarde há muita aptidão para ver televisão.

«um pingue-pongue de ideias entre duas pessoas é sempre útil porque permite essa lógica de amigos que estão em casa a receber amigos»

EF: Qual foi o trabalho de preparação para se habituar à Vanessa?

HJ: Nenhum…

EF: Portanto é aqui [no estúdio] que se está a fazer a dupla?

HJ: Não é possível preparar-se uma coisa destas… mandar-lhe um livro de encomendas a dizer ‘quando eu fizer isto, não faças aquilo’, é um disparate. É uma coisa que tem de ser feita no momento. Praticamente não foi preciso retificar nada.

EF: Já conhecia a Vanessa? Tinha empatia?

HJ: Profissionalmente não. Empatia claro, é um amor, é uma querida… profissionalmente não sabia como ia ser.

EF: Então como foi estar com a Vanessa nesta estreia?

HJ: Foi muito agradável, como se a gente já se conhecesse há uns anos. Ela tem uma vantagem muito grande quanto a mim: é uma mulher intelectualmente curiosa, não disfarça, é transparente, portanto é muito fácil de fazer dupla com ela.

Herman

EF: Quando a RTP lhe propôs a dupla com a Vanessa ficou logo aberto a essa possibilidade?

HJ: Sim, sim. O nome foi-me soprado antes do convite e eu achei que era uma boa hipótese. Mas também disse que estava apto a fazer com qualquer profissional competente da RTP.

EF: É sempre um risco?

HJ: Das da RTP praticamente trabalhei quase com todas, portanto não era um risco. Seria sempre diferente com certeza. Mas essa, para mim, não era a parte preocupante. Preocupante seria fazer o programa sozinho, como chegou a ser falado ao princípio… acho que era um risco gigantesco três horas de solidão. Era muito arriscado. Uma hora sim, mas três horas não.

EF: Acha que esta junção de uma menina bonita e simpática com um humorista é uma fórmula de sucesso, e que isso pode ser bom para o programa?

HJ: Eu acho que sim. Eu acho que um pingue-pongue de ideias entre duas pessoas é sempre útil porque permite essa lógica de amigos que estão em casa a receber amigos. Ao passo que a lógica solitária é muito cruel.

Herman

EF: Dá mais dinâmica ao programa?

HJ: Dá mais dinâmica, e poder fazer pingue-pongue, poder descansar um bocadinho porque ela vai conversar com outra pessoa, poder cozinhar para alguém… para mim é muito importante ter uma companhia.

«tem de haver uma inteligente gestão de temas»

EF: Como é que foi a adaptação dos late night show ou game shows para um programa diurno, à tarde?

HJ: Tu de cabeça tens de mudar a energia. A energia tem de ser gasta durante três horas, por isso não vale a pena estar a fazer coisas extraordinárias durante os primeiros 15 minutos, pôr toda a gente a chorar a rir na primeira meia hora e daí a duas horas estar a cair a morrer de cansaço. Tem de haver uma perceção grande entre diversão e a parte mais séria. E depois tem de haver uma inteligente gestão de temas… não se pode estar três horas à volta da mesma ideia ou da mesma piada. Portanto, tem-se de fazer as coisas e largar, abrir e fechar ciclos. Só assim é que se consegue depois chegar ao fim de três horas frescas. O melhor elogio que me podem fazer é o que me disse um técnico quando acabamos: “epá, isto passou num instante!”. O ‘isto passou num instante’ é a melhor coisa que podem dizer.

EF: Quer dizer que a missão foi cumprida?

HJ: Sim, que não foi penoso.

EF: Acha que os espetáculos que foi fazendo por Portugal fora aproximaram-no do público que também o vai ver aqui no Há Tarde?

HJ: Não faço ideia se isso se reflete, mas é possível que sim. Eu este verão trabalhei para mais de meio milhão de portugueses, portanto é natural que depois de uma empatia que se cria haja uma apetência para se ver essa pessoa. Mas não tenho nenhum medidor desses.

EF: As entrevistas que fazia nos late night shows eram diferentes. Como é adaptar o estilo agora?

HJ: Olhe que não é assim tão diferente. Eu não ia muito longe nas coisas que eu fazia apesar de ser late night. Portanto praticamente o filtro é o mesmo. O que há aqui que dá mais liberdade é que o tempo não está tão condicionada. Uma pessoa tem mais espaço para gozar uma cantiga até ao final, para fazer mais um cozinhado,… há mais espaço enquanto que no late night é tudo a contra-relógio, é terrível.

Herman

EF: Uma das caraterísticas dos programas de daytime é que demoram até se estabelecerem nas audiências. Quais são as suas expectativas para o Há Tarde?

HJ: Não são muitas porque eu tenho a certeza que a concorrência se vai mexer muito bem, portanto vamos ter uma extraordinária concorrência. Gostava muito de manter um mínimo, é lógico, que servisse a estação. Abaixo desse mínimo passa a ser bastante desconfortável, mas abaixo desse mínimo não tenho esperanças nenhumas de resultados fantásticos, isso não tenho.

EF: A concorrência já se está a mexer: a SIC vai estrear um programa com o João Baião, a Andreia Rodrigues e a Luciana Abreu. Tem receio que seja prejudicial para o Há Tarde?

HJ: Não, são estilos completamente diferentes.

EF: Não acha que esse programa será no mesmo estilo que este, bem-disposto? Pelo menos contrário ao da TVI que é mais triste.

HJ: Eu acredito que seja bem-disposto, sim, mas efetivamente não é nada que me preocupe. Quando estão todos no mesmo plano a lutar pelo mesmo é muito interessante. O que me preocupava é quando eu tinha talk shows que tinham de combater novelas, isso é que é uma injustiça muito grande. Se me disser que há uma novela fantástica a combater-nos, isso acho complicadíssimo; agora pessoas a lutar pelo mesmo, com as mesmas armas, acho que é estimulante.

«também é um papel que compete ao serviço público de televisão: abrir o leque a toda a gente»

EF: Qual é a melhor arma do Há Tarde perante a concorrência?

HJ: Eu acho que a diferença. Nós estamos, se calhar, menos pressionados pelas audiências. Podemos ter conteúdos porventura mais elegantes. Também é um papel que compete ao serviço público de televisão: abrir o leque a toda a gente.

EF: Em termos de equipa que a RTP lhe deu para o programa, desde a Joana Teles e o Tiago Goes à equipa técnica, ficou satisfeito? O seu estilo e o estilo deles é compatível?

HJ: Estou, gosto imenso deles. São muito queridos.

EF: E o Herman tem algo que queria ter no programa e não tem?

HJ: Não… é natural que depois me lembre de qualquer coisa mas, por agora, não.

EF: Esta parte da cozinha, do piano, entre outros, tem tudo a ver consigo?

HJ: Tem. Efetivamente foram-me dadas as armas que eu pedi.

Herman

EF: O Herman já tem bastantes anos de televisão. Já tinha feito esta construção de uma dupla anteriormente ou é a primeira vez nestes termos?

HJ: Eu sempre tive de me adaptar às companhias. Eu lembro-me que quando fiz a Roda da Sorte adaptei-me à Rute Rita. Quando fiz agora o Verão Total também me adaptei às minhas colegas. Portanto, houve sempre essa adaptação.

EF: Quais são as principais diferenças entre fazer televisão hoje em dia e quando fazia há 20 ou 10 anos?

HJ: Nalguns aspetos nem são muitas. Lembro-me que a Roda da Sorte era feita com os mesmos timings e critérios que hoje em dia. O que talvez mudou dos anos 90 para agora são os timings do prime time. São muito mais rápidos porque senão as pessoas fazem zapping e mudam de canal.

Herman

EF: Portanto este estilo de conversa à noite já é impensável?

HJ: Começa a ser… as pessoas têm tantos apelos, tantas novelas, tantas Casas dos Segredos, que é difícil hoje em dia impor um talk show noturno.

EF: A nível de interação com o público, e tendo em conta que as próprias redes sociais já são usadas pela 3ª idade, esse vai ser um ponto forte do Há Tarde?

HJ: Não é um ponto forte. Vai surgir naturalmente. Vou olhar para o face e ter uma ideia ou um feedback. Às vezes uma chamada Skype e ligámos para a China. Não lhe vamos dar especial importância, vai fazer parte de todas as componentes.

EF: Vi que tem pouco público no estúdio… vai tentar chegar mais lá a casa?

HJ: Sim, estou mais preocupado com os que estão lá em casa do que com os que estão aqui.

Fotografias: Inês Delgado