No dia 22 de setembro de 2004 estreava na ABC um dos maiores fenómenos televisivos do novo milénio. O piloto de Lost era emitido com a distinção de ser o mais caro de sempre, um projeto arriscado do ponto de vista financeiro que tentava transpor Cast Away do cinema para o pequeno ecrã e ‘ordenhar’ a premissa do bem-sucedido reality show Survivor. Contra as expetativas dos próprios criadores, Lost arrasou nas audiências e a crítica, unânime, estendeu a passadeira vermelha à sua temporada de estreia.

Mas, e para além da gradual perda de público, nem sempre o ruído circundante da série foi cor-de-rosa. A meio da terceira temporada, por exemplo, a obra parecia ter atingido um beco criativo (superado com um genial golpe de teatro em Through The Looking Glass) e o ansiado series finale, a 23 de maio de 2010, revelou-se superlativamente divisivo.

Through The Looking Glass - Lost

De qualquer modo, passados 10 anos, interessa pensar na conjugação de fatores, qualidades e caraterísticas que fizeram desta série tão especial e singular na história do seu meio. Um mero trabalho centrado nos sobreviventes do despenhamento de um avião numa ilha desconhecida foi mais que “mero” porque ousou escavar fundo no “quê” (conteúdo) e no “como” (forma). O “quando” (timing) assumiu-se como o elemento final, o éter que selou a sua transcendência.

Damon Lindelof e Carlton Cuse arquitetaram uma mitologia densa, repleta de referências e perguntas filosóficas, religiosas e científicas. As dicotomias razão vs. fé e livre-arbítrio vs. pré-determinismo e os conceitos de contrato social e de tabula rasa foram dos principais assuntos explorados. Tal abordagem nunca aparentou forçada ou um exercício de exposição. Apesar de a série ter colocado problemas existenciais mais explícitos do que é norma, fê-lo através de personificações convincentes. Mas fê-lo em personagens não diminuídas a avatares de termos. Nessa senda, Jack não foi só a ‘razão’, foi o filho com uma complicada relação paternal, foi o líder obcecado em consertar tudo e todos, foi a fragilidade e a insegurança disfarçadas na busca de um motivo para viver/morrer maior do que ele. Muito menos terminou como um protagonista estático.

The Candidate - Lost

Como 21 de Adele, Lost criou um escopo tão expansivo e monumental que logrou ser seguida por todo o tipo de público. Houve quem acompanhasse pelos ingredientes de ficção científica, houve quem se agarrasse ao lado ‘telenevolesco’, houve quem imergisse na aventura e no suspense, houve quem admirasse os cenários havaianos (tomando partido da popularização do HD)… Houve um misto de tudo, também pelo elenco extenso, inter-racial, pelo desenvolvimento detalhado de duas dezenas de personagens (encarnadas por atores potencializados) e pelos vários países/culturas visitados na ficção.

Por acréscimo, o domínio superior da estrutura narrativa ajudou a série a mover-se em múltiplas direções. A aparente rigidez dos flashbacks tornou-se elástica com o uso de flashforwards, viagens no tempo e realidades alternativas. Os twists e as questões dos espectadores avultavam-se; em simultâneo, Lost construía tijolo por tijolo uma noção de possibilidade e um universo ficcional gigantes, talvez sem precedentes em televisão serial – outras obras, como The X-Files, agigantaram-se e experimentaram em grande escala, porém beneficiaram da liberdade de um formato híbrido ou episódico.

As numerosas e populosas comunidades online, com fãs detetives e ‘shippers’, e a acessibilidade para feedback da dupla ‘Darlton’ elevaram a discussão da série a uma experiência multimédia, a um autêntico culto global. Isto numa altura em que as redes sociais na internet não eram ainda o monstro maciço que são hoje, mas precisamente no período em que essa transição se dava.

Not Penny's Boat - Lost

Uma década, seis temporadas e 120 episódios depois, Lost está segura no panteão enquanto paradigma da fusão entre entretenimento e complexidade, enquanto obra a que tantos arremessaram com violência as emoções e o intelecto.

Ter acompanhado aquele saudoso conjunto de personagens esfoladas encontrarem-se a si mesmas por encontrarem as pessoas das suas vidas, por partilharem com elas algo extraordinário, é um souvenir do que nós próprios procurávamos ao senti-las por via de um ecrã. Para uns fãs mais, para outros fãs menos: Lost era a constante, um modo particular de evitar hemorragias nasais…

The Constant - Lost