Depois de The Lady Is a Tramp, presente no disco Duets II de 2012, os cantores Tony Bennett e Lady Gaga regressam com um disco colaborativo de jazz. Intitulado Cheek To Cheek, são apresentados clássicos de reconhecidos compositores americanos e não se podia esperar melhor resultado dos dois. Cheek To Cheek é lançado esta semana pela Universal Music Portugal.

A amizade entre Tony Bennett e Lady Gaga nasceu a partir do momento em que se conheceram na gala da Robin Hood Foundation, em Nova Iorque, em 2011. Depois de vê-la cantar e interpretar Orange Colored Sky, clássico de Nat King Cole, o veterano Tony Bennett decidiu convidá-la para interpretar um clássico com ele, resultado final que só surgiria no ano seguinte. The Lady is a Tramp refrescou a imagem de Lady Gaga na época de Born This Way, ao mostrar-se clássica, elegante mas com um elemento a reforçar a extravagância que acompanha a sua imagem – o cabelo verde-marinho – e mostrou um Tony Bennett, veterano no jazz e na música popular americana, a uma geração mais nova e centrada na elevada quantidade de informação que recebe da Internet.

Mais de dois anos depois surge Cheek To Cheek, resultado da amizade entre estes dois músicos tão distintos. Distintos por diversas características: a diferença de 60 anos entre os dois, na imagem de cada um – ele, associado ao clássico e à elegância, e ela à estranheza e extravagância – nos géneros musicais em que se inserem aos olhos do grande público. Mas, ao cantarem juntos, há uma conecção, digamos, quase familiar. Uma primeira amostra deste disco foi mostrada com Anything Goes, o primeiro single com pouco mais de dois minutos. Tony Bennett gravou o tema para o disco Strike Up the Band, em 1959, e Lady Gaga começou a interpretá-la aos 13 anos. Com todos os artefactos e estratégias a envolverem a sua imagem – quem não se lembra do vestido de carne na gala dos MTV Video Music Awards em 2010 – e da sonoridade electropop e dance music a envolverem a carreira, quem pode imaginar que Stefani Germanotta começou a cantar jazz na adolescência?

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Cheek To Cheek é uma colecção de clássicos de jazz retirados do Great American Songbook, compostos por compositores reconhecidos como Cole Porter, George Gershwin e Billy Strayhorn. A canção-título, interpretada pelos dois cantores, e os demais temas são provas do talento de Lady Gaga e mostras da sua capacidade de entreter um ouvinte. A veia natural de entretenimento está presente em Goody Goody, em que ela sussurra e conversa com Bennett à medida que este interpreta o tema, em I Won’t Dance e mesmo no segundo single do disco, I Can’t Give You Anything But Love.

Nature Boy, revelada na semana passada como single promocional, foi composta em 1941 por Eden Ahbez e é mais uma prova das elevadas qualidades musicais dos dois intérpretes. Segue-se I Won’t Dance, uma das melhores surpresas do disco pela energia e conexão exibida pelos dois cantores. A canção foi escrita para o musical inglês Three Sister em 1934, mas alcançou sucesso e popularidade no filme Roberta, lançado no ano seguinte, com Fred Astaire e Ginger Rogers e Irenne Dunne.

Lady Gaga e Tony Bennett oferecem um cenário, à medida que as músicas tocam, distante do que é oferecido na atualidade: longe da provocação presente na maioria das cantoras pop – como o fenómeno Miley Cyrus, Anaconda de Nicki Minaj ou a recém Booty de Jennifer Lopez – há lugar de destaque para o desempenho vocal e para a sonoridade de qualidade, longe de todos os efeitos barulhentos na música contemporânea. Lush Life, cantada a solo por Gaga, é uma das melhores interpretações lançadas nos últimos meses pela carga emocional devido à familiaridade com o tema, como a própria afirmou, não tivesse ARTPOP falhado em muitas áreas – comercial e cultural, longe do sucesso de discos lançados anteriormente. E, de forma a dar “resposta” à cantora, Bennett interpreta Sophisticated Lady.

No momento em que Lady Gaga precisava de um novo caminho para se reencontrar artisticamente e Tony Bennett de se apresentar a novas gerações, Cheek To Cheek é um disco fresco no mercado. Termina com It Don’t Mean a Thing (If It Ain’t Got That Swing) e transporta todos os ouvintes para a era do swing nos anos 30, em que todas as pessoas dançavam ao ritmo das bandas de jazz. O mesmo é proposto a todos em pleno século XXI, basta saber se Tony Bennett e Lady Gaga têm a força para dar a conhecer a mesma experiência com este álbum.

Podes ver, mais abaixo, o teledisco de I Can’t Give You Anything But Love:

Nota final: 8,5/10