No ano em que assinala 22 anos de existência, o Teatro Meridional apresenta uma peça de temática universal, uma peça que deslinda os mais profundos mistérios da criatura humana. Pedro Páramo é a adaptação do romance homónimo de meados do século XX, do mexicano Juan Rulfo. Com um ambiente assombroso e um elenco de luxo, o Espalha-Factos já assistiu à peça em cena até 12 de outubro e conta-te tudo o que podes esperar!

Assim que entramos no Teatro Meridional, sentimo-nos confortáveis, acolhidos, em casa. É esse o efeito que o espaço situado no Poço do Bispo nos desperta quando o pisamos, mesmo que seja pela primeira vez. Contrastando com a típica luminosidade na rua, de uma tarde de início de setembro, o Teatro Meridional oferece-nos uma luz ténue e suave, bastante convidativa.

Um piano e alguns sofás vermelhos compõem a sala em que nos encontramos. Enquanto observamos os quadros com imagens de antigos espetáculos do Teatro Meridional e os cartazes promocionais das próximas peças que estarão em cena nesta temporada, que cobrem as paredes, ouvimos Ivo Canelas a aquecer a voz nos bastidores. Ao mesmo tempo, vários membros da equipa técnica vão acenando e cumprimentando, enquanto passam.

Quando finalmente entramos na sala de espetáculos, a timeline com a sequência das cenas ainda se encontra afixada na parede, ao lado da plateia. É lá que se encontra a planificação de toda a ação a que o público está prestes a assistir. Dentro de momentos apresentar-se-á à nossa frente um rapaz, Juan Preciado, que nos conta de forma íntima e pessoal a sua história. Juan Preciado está numa viagem até à oculta terra de Comala, onde pretende procurar o seu pai, Pedro Páramo, respeitando o último pedido da sua mãe antes da morte.

TM_Pedro Páramo_PRESS3 ©nunofigueira 2014

Ao longo da peça acompanhamos então a jornada de Juan, na busca pelo seu pai, mas esta não será uma viagem linear… A anacronia é rainha em Pedro Páramo! Uma série de analepses e prolepses vão intercalando a busca de Juan Preciado com as histórias contadas pelos personagens que vai conhecendo e com acontecimentos do passado da mãe de Juan ou mesmo do eterno procurado, Pedro Páramo, o próprio. A história vale-se, principalmente, destas personagens, amigos e conhecidos do passado dos pais de Juan que vivem em Comala e tentam guiá-lo na sua procura. São os fragmentos de uma chave que tanto Juan como o público têm de recolher e juntar para, no fim, chegar a um destino, a um sentido.

As características ímpares do Realismo Mágico – género literário impulsionado precisamente pela obra de 1955 de Juan Rulfo que, nesta produção, é adaptada por Natália Luiza – fazem com que esta peça tenha, necessariamente de se embrenhar numa série de dimensões e contradições que poderiam facilmente confundir o espectador mas que, na verdade, fazem-no mergulhar profundamente naquele universo sui generis, tal e qual Juan Preciado.

TM_Pedro Páramo_PRESS2 ©nunofigueira 2014

Um universo que, em termos técnicos, teve a sua essência muito bem conseguida pela equipa do Meridional. O espaço cénico, todo ele em tonalidades terrestres, consegue captar um ambiente assombroso, que convencionalmente nos traz à mente a ideia de purgatório. O mesmo se aplica aos figurinos, que nos remontam imediatamente ao universo campesino latino-americano mesclado com apontamentos que conotam uma certa dose de insanidade e penitência. A atmosfera fica completa com a iluminação, muito responsável pelo tom misterioso que a cena adquire com os focos de luz, mais uma vez em tons terrenos, que atingem as personagens em destaque a cada momento, acompanhada de um espaço sonoro consonante.

Mas o grande trunfo de Pedro Páramo está no seu elenco. Este grupo de atores extremamente talentosos é a mais-valia do espetáculo. Ivo Canelas e Carla Galvão estão exímios, enquanto Romeu Costa e a espanhola Nuria Mencía são deveras uma surpresa muito agradável! Em termos gerais, todo o elenco tem uma prestação muito positiva, mas também a encenação e direção de atores devem ser referidas.

Pedro Páramo é uma intrigante experiência sensorial que irá cobrir a audiência de um manto de curiosidade. É que mesmo depois de desvendado (ou não) o mistério de Páramo, os mistérios de Comala continuam e prometem assombrar Juan Preciado para toda a eternidade (literalmente!).

TM_Pedro Páramo_PRESS1 ©nunofigueira 2014

A Morte, o Amor e o Poder – a forma como se repelem, intersetam ou complementam – são os temas universais que Pedro Páramo mais explora embora o mesmo seja feito de forma bastante peculiar, as diferentes perspetivas que um mesmo acontecimento pode tomar no seio das relações humanas, dependendo do observador. Em Pedro Páramo, não temos certezas de nada. Só versões, suposições, histórias que pairam entre o fantástico e a realidade e, por fim, a questão existencial mais primária de todas: quem somos, de onde vimos e para onde vamos.

Fotografias de Nuno Figueira cedidas pelo Teatro Meridional