Depois dos eventos intensos que marcaram A Storm, of Swords, o seu livro sucessor apresenta-nos um ambiente relativamente mais calmo, deixando, mesmo assim, o leitor em suspense pelo destino de certas personagens. A Feast for Crows (em Portugal: O Festim dos Corvos + O Mar de Ferro) apesar de não ter a mesma intensidade que os livros anteriores, apresentou-me novas perspetivas que me deram a sensação de serem um prelúdio de várias coisas que estarão para acontecer nos Sete Reinos.

(Aviso: esta crítica poderá conter spoilers, seja para os livros, seja para a série televisiva produzida pela HBO)

Devo dizer que este livro sofre um bocado pela falta de algumas das personagens, entre as quais Tyrion Lannister, Jon Snow, Daenerys Targaryen, Davos Seaworth, entre outras. Este livro, contudo, apresenta-nos uma série de pontos de vista de diferentes cantos dos Sete Reinos, nomeadamente King’s Landing, Dorne e as Iron Islands. Apesar de ser interessante, algumas destas personagens apenas tiveram um ou dois capítulos, o que além de me ter desconcentrado um pouco, não me permitiu conhecer estas personagens como desejaria. A narrativa neste livro é mais “parada” em relação aos seus predecessores: não senti a tensão que senti no anterior livro, e apenas perto do fim é que começam a acontecer eventos relevantes.

Contudo, tal não quer dizer que esta obra não tenha tido perspetivas interessantes. Para mim o spotlight neste livro vai para duas personagens cujas perspetivas acompanhamos pela primeira vez no livro: Cercei Lannister e Brienne de Tarth. São duas personagens com grandes histórias pessoais, bem como detentoras de personalidades bastante complexas.

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Ilustrado por Michael Komarck

Cercei foi deveras uma personagem interessante de acompanhar. Com a perspetiva dela vemos em profundidade a personalidade egocêntrica, irritadiça, ambiciosa e deveras paranóica que caracteriza a, agora, Rainha Regente. Cercei olha para si mesma como a “verdadeira” herdeira do falecido Tywin Lannister (algo que ela refere em pensamentos várias vezes nos capítulos dela), e vive convicta de que sabe o que fazer com o poder que tem em mãos. Infelizmente, o leitor percebe pelas suas ações que isso está longe da realidade: ela afasta de si todos aqueles que a tentam fazer cair na realidade (incluindo o seu gémeo Jaime); recusa-se a pagar as dívidas da coroa ao Banco de Ferro; bebe cada vez mais; e começa a interagir mais com as pessoas que a bajulam. Mal sabe a Rainha Regente das consequências que as suas decisões terão para com o reino e para com ela.

A rainha começa, inclusive, a tentar “proteger” o seu filho Tommen, agora casado com a pequena rainha Margeary Tyrell. De modo a afastar a sua rival do seu caminho, Cercei arranja um esquema elaborado que visa tramar a jovem por adultério e traição. O seu plano é bem sucedido, mas veremos no seu último capítulo que a sorte da Lannister dourada começará a mudar drasticamente.

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Ilustrado por Chris Dien ©

No caso de Brienne, apesar de ela ser o oposto da rainha Cercei, os seus capítulos permitiram conhecer de forma mais aprofundada a personalidade honrosa que a caracteriza desde o segundo livro de A Song of Ice and Fire. Sabemos que ela é uma mulher de palavra, mas também nos apercebemos do quanto ela foi rebaixada e tomada de ponta quer pelo seu aspeto, quer pela armadura que escolheu vestir. A sua condição enquanto mulher nem sempre lhe facilitou a vida, mas admiro-a pela sua persistência nos seus objetivos. Ela neste livro focar-se-à em cumprir a sua promessa para com a falecida Catelyn Stark, assim como a nova promessa que fez a Jaime Lannister. Acompanhada por Podrik Payne, Brienne vai-se cruzar com várias caras que, aparentemente, a irão aproximar do seu objetivo de encontrar Sansa Stark. Não querendo revelar demasiado do que lhe acontecerá, devo dizer que nos seus dois últimos capítulos dei por mim com o coração nas mãos por ela. Quando ela dá de caras com uma “velha conhecida”, a sua morte poderá estar iminente.

Em Dorne, seguimos a perspetiva das seguintes personagens: Areo Hotah (guarda do governante de Dorne, 1 capítulo), Arys Oakheart (Cavaleiro da Guarda Real de King’s Landing, 1 capítulo) e Arianne Martell (herdeira do trono de Dorne, 2 capítulos). Aqui conhecemos o governante de Dorne e irmão do falecido Oberyn Martell, o príncipe Doran Martell. Os habitantes de Dorne estão revoltados com a morte de Oberyn e exigem vingança, assim como as três primogénitas bastardas do falecido príncipe: Obara, Nymeria e Tyene. O mesmo desejo é partilhado por Arianne, que rapidamente elabora com os seus amigos um plano para tomar proveito do noivado da princesa Myrcella (flha de Cercei e irmã mais velha de Tommen) com o seu irmão mais novo Trystane. Mas quando os planos da princesa têm as suas consequências (especialmente para a pequena Myrcella) ficamos com a sensação de que o seu pai Doran afinal não é tão passivo como aparenta à primeira.

Já nas Iron Islands conhecemos Asha Greyjoy (irmã mais velha do desaparecido Theon Greyjoy, 1 capítulo), Aeron Cabelo-Molhado (irmão do Rei Balon, 2 capítulos) e Victarion Greyjoy (também irmão do Rei Balon, 2 capítulos). Após o falecimento inseperado do Rei Balon não demora muito a que surjam tensões relativamente a quem deverá ser o seu sucessor. Os “candidatos” neste caso tratam-se de Euron Greyjoy (também conhecido como Olho de Corvo, e o mais velho dos irmãos ainda vivos de Balon), Victarion Greyjoy e Asha Greyjoy, que não se deixará rebaixar, apesar da sua condição de mulher. Aeron (irmão mais novo de Euron e Victarion), fará os possíveis por colocar Victarion a liderar as ilhas de ferro e Asha tenta os possíveis por não ficar para trás neste conflito. No entanto, o Olho de Corvo acaba por conquistar o fervor do seu povo, rapidamente partindo numa demanda para conquistar terras pertencentes aos Tyrells. No fim desta história percebemos que o Olho de Corvo tem planos para com o seu irmão Victarion, planos esses que envolvem encontrar uma certa rainha com dragões em seu poder.

Outras personagens que acompanhamos são, novamente, Jaime e Samwell. As suas histórias nestes livros também são das mais exploradas, apesar de não serem tão interessantes nesta sequência. Jaime sai de King’s Landing, por ordem da sua irmã com o objetivo de conquistar Riverrun ao Peixe Negro (Brynden Tully, tio da falecida Catelyn Stark). Ao longo da sua narrativa, assim como da de Cercei, observamos a forma como a mudança em Jaime levou ao detrimento da relação entre os irmãos geméos, especialmente quando o Regicida descobre algumas verdades constrangedoras relativamente à sua “querida irmã”. No caso de Samwell, este ver-se-à quase empurrado por terceiros (um dos quais o Lorde Snow) a tornar-se um meistre. Sam embarca numa viagem com um recruta de nome Dareon, com Gilly, e com o Meistre Amon que, infelizmente, começa a piorar progressivamente de saúde. Esta personagem vê-se confrontada com vários conflitos internos, entre os quais a honra que deveria manter enquanto menbro da Night’s Watch. Ainda assim Sam mostra uma grande devoção e fidelidade para com o moribundo Meistre Amon, fazendo por cumprir os últimos desejos do ancião.

Ilustrado por Marc Simonetti ©

Ilustrado por Marc Simonetti ©

Por fim não poderia deixar de mencionar ambas as raparigas Stark: Arya (agora conhecida como a Gata dos Canais) e Sansa (agora conhecida como Alayne Stone). Ambas as irmãs, apesar de serem tão diferentes como o vinho e a água como se viu no início da história, são obrigadas a vestir a pele de novas identidades. Arya chega a Braavos e ao entrar na House of Black and White vê-se na obrigação de fazer por descartar a sua identidade enquanto Arya Stark por forma a juntar-se aos Faceless Men. Ajudada por um ancião e por uma rapariga, aparentemente com a sua idade, a pequena acaba por se integrar na vida da cidade, fazendo os possíveis por aprender três coisas novas todos os dias. Contudo, no fim do seu capítulo, acabei a perguntar-me sobre como irá ela superar um novo obstáculo/constrangimento que lhe surgiu do dia para a noite (não irei aqui revelar demasiado).

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Ilustrado por Mike Capprotti ©

Sansa Stark, neste caso Alayne Stone, começa progressivamente a perder a irritante ingenuidade e futilidade que a caracterizavam no começo da história. A jovem veste completamente a pele da bastarda Alayne, cria uma relação afectuosa com Robert Arryn (filho da sua falecida tia Lysa) e começa a observar o seu mentor Petyr Baelish à medida que ele joga o jogo dos tronos, agora que tem nas mãos o cargo de protetor do Vale. No seu último capítulo, o seu “pai” oferece-lhe um presente que a deixará numa posição (deveras) favorável. Penso que poderemos esperar muito de Alayne se ela souber, no futuro, aproveitar aquilo que tem em mãos neste momento.

Apesar de A Feast for Crows não ter tido a tensão e ação que caracterizaram o seu predecessor, não deixo de salientar a sua importância, na medida em que cria expectativas em relação ao futuro de certas personagens desta história. Contudo, a sua qualidade em relação aos seus predecessores decaiu um bocado. Não odiei este livro, só para que conste, mas, senti que não teve a intensidade que me prendeu aos três livros anteriores. Ainda assim não deixo de aconselhar esta obra, que é uma peça fulcral ao que se seguirá por Westeros. E agora, após o Festim, segue-se uma Dança.

Nota final: 7.5/10

Poderás saber algumas informações da parte de George R. R. Martin sobre esta obra através do vídeo em baixo.