A peça de teatro Pedro Páramo é a mais recente produção do Teatro Meridional. Uma história de realismo mágico que ilustra o universo latino-americano em pleno século XX, adaptada do incontornável romance de Juan Rulfo, que agora chega a cena pelas mãos de Miguel Seabra e Natália Luiza, diretores artísticos do Teatro Meridional, responsáveis pela encenação e adaptação, respetivamente. O Espalha-Factos esteve à conversa com o encenador, Miguel Seabra, sobre o texto, o elenco e o trabalho desenvolvido pelo Teatro Meridional, e revela-te alguns dos muitos mistérios de Pedro Páramo.

EF – Porquê a escolha de fazer a adaptação de um texto não-dramático? Quais as características do romance de Juan Rulfo que incentivaram a decisão de adaptá-lo?

MS – Este projeto surge após o convite de António Pinto Ribeiro, o diretor do Programa Gulbenkian Próximo Futuro, para que o Meridional, em coprodução com a Gulbenkian, pensasse em criar um espetáculo que se inserisse na lógica da programação do Próximo Futuro. Este ano, o Próximo Futuro tem incidência, em particular, no universo latino-americano. Este texto era um projeto que tínhamos na gaveta conceptual do Meridional e achámos que se aplicava, não só porque o autor é mexicano mas porque é um texto que marca o início do Realismo Mágico da literatura sul-americana (e que é uma, senão a principal, inspiração de Gabriel García Márquez, o seu gatilho, o seu impulso). Aborda tantos assuntos como: questões de poder, amor, morte, sexualidade, aparência, subornos, filiação, a procura do eu (de que ângulo somos formados; qual o ponto de vista certo para formar a nossa identidade, se há inúmeros pontos de vista…)… Por todas essas razões, e porque nos pareceu que o livro em si contém uma grande riqueza ao nível da sugestão poética da imagem e, sobretudo, possibilita um incrível jogo de ator (…), pelo que precisa de atores muito bons. Felizmente, conseguimos reunir sete atores completamente de exceção.

EF – Como foi feita a escolha dos atores?

MS – Ao longo destes 22 anos do Teatro Meridional, tem-se conseguido manter uma relação (não constante, mas muito assídua) com alguns atores. Isso significa que há artistas com quem eu, particularmente, tenho afinidades de linguagem, o que facilita a montagem de espetáculos que, em termos conceptuais, são uma criação de raiz. É uma riqueza muito grande poder trabalhar com atores como Carla Galvão, Romeu Costa, Natália Luiza, Rui M. Silva,… – temos um trabalho de regularidade. Depois, o António Filipe, a Nuria Mencía (que é espanhola) e o Ivo Canelas são atores com quem eu trabalho pela primeira vez, mas com quem sempre houve vontade mútua de uma experiência de colaboração num projeto teatral e, felizmente, coincidiram as disponibilidades. Este grupo é um misto de sangue da casa com sangue novo e, portanto, é muito feliz. Ao nível da colaboração artística, há a Marta Carreiras, que é a cenógrafa que mais nos acompanha, que se confunde com a estética do Meridional; o Rui Rebelo, do espaço sonoro e música original… Estas cumplicidades não implicam dissonâncias, porque a consonância é quase, diria, antiestética, antiartística. Os pontos de vista são diferentes; os ângulos de abordagem são complementares mas, felizmente, nem sempre coincidem e é isso que torna os espetáculos vivos.

EF – Nessas questões técnicas, quão difícil é adaptar um texto que tem um avincado carácter contraditório…?

MS – Este texto é maravilhoso e perigosíssimo! É um risco muito grande adaptá-lo a cena porque a sua leitura é tão maravilhosa (pela complexidade, pela beleza, pela temática, pelo ritmo, pela assimetria, pela dinâmica, pela musicalidade, pelos opostos, pela universalidade da história da humanidade…) que o grande desafio é, ao materializá-lo cenicamente, estarmos a dar-lhe um ponto de vista. As pessoas, pelo livro, podem imaginar o Pedro Páramo tal como o seu universo de referências o proporciona. Aqui, há um Pedro Páramo (que, neste caso, é o Ivo Canelas – que é um ator extraordinário!)… A Susana é a Nuria Mencía. E a Dolores, a mãe do Juan Preciado, que é o Romeu Costa, é a Natalia Luiza. E o Fulgor é o Rui M. Silva. E a Damiana é a Carla Galvão… Ou seja, há pessoas, vozes, formas, timbres concretos – e o grande desafio foi esse mesmo: como calibrar a interpretação deste espetáculo para conseguirmos manter a magia da surpresa constante que o livro nos proporciona.

miguel seabra

EF – O que o fez agarrar este trabalho?

MS – A primeira vez que ouvi falar no Juan Rulfo foi em 2003, em Évora, por um artista espanhol fantástico (um professor primário que se tornou ator e contador de histórias), um criador magnífico chamado José António Portillo. O José António Portillo lidava com populações de risco, enquanto professor primário, e descobriu que, através de histórias inventadas, conseguia cativar, de uma forma muito particular, a atenção dos alunos, sem que houvesse alguma alteração na passagem dos conteúdos escolares. Era tão fantástico que, em conversas sobre o fantástico e a realidade, ele me perguntou: “Já leste Pedro Páramo, de Juan Rulfo? Então lê!”. E eu li e fiquei completamente fascinado. O projeto estava na gaveta porque o percurso das companhias e os seus trajetos fazem-se de muitas variáveis, mas estava aí, em banho-maria, e quando surgiu este convite do António Pinto Ribeiro para o Próximo Futuro, achámos que a temática do trabalho do ator cabia com o Meridional, a temática do autor encaixava com o Próximo Futuro e a temática do livro era tão desafiante como universal, portanto, as coisas especiais acontecem quando têm de acontecer, não é? Eu acredito que há um tempo para tudo e é importante estarmos disponíveis para ter a sensibilidade de perceber: “é agora!”. De modo particular, acho que é essa a razão que está por detrás da escolha.

EF – Porque é que as pessoas devem vir ao Meridional ver Pedro Páramo? O que podem esperar do espetáculo?

MS – Primeiro, vir ao Meridional é sempre uma oportunidade privilegiada de vir à melhor sala de espetáculos do Poço do Bispo (não obstante ser a única, é a melhor!). Eu acho que vir ao Teatro é uma oportunidade de conviver com o seu semelhante, de o Homem estar com o Homem, é uma oportunidade muito particular de um encontro de pessoas. Portanto, devemos vir ao Teatro, não obstante cada um de nós ter o seu filtro de qualidade – não há nada mais incómodo que vir ao teatro de uma forma que agride, com uma dissonância em termos de vida – (…), se é uma pedra no meu sapato, eu fico sem vir ao Teatro durante 6 meses ou 1 ano. A escolha de um espetáculo de teatro também tem uma responsabilidade muito grande da parte do público, da parte das pessoas que vão ao Teatro. Este [Pedro Páramo] é um texto maior da literatura mundial. O Teatro Meridional, em 22 anos, tem sempre um gráfico de espetáculos muito variados de intenções e apostas cénicas. Como tudo na vida, temos de ser responsáveis pelas opções que fazemos. Ir ao Teatro é um momento de ocupação de um espaço vazio, um espaço supostamente lúdico e divertido, mas sem ser facilitista ou desprezível, pelo contrário (ocuparmos esse espaço dá para “viajarmos”, sonharmos, pensarmos, refletirmos, ter uma confrontação estética – quer seja do ponto de vista literário, quer seja do ponto de vista plástico, sonoro,…). Vir ao Teatro Meridional, ou a qualquer outro espaço em que haja pessoas que constroem histórias para os outros, deve ser sempre um estímulo maioritário para qualquer pessoa. Vir ver este espetáculo… é um texto maior da literatura mundial, é uma temática sensível (sobretudo pela dualidade, creio que as dúvidas do protagonista assentam muito entre amor/morte e entre poder/morte e poder/amor). Estamos numa fase de transição do mundo em que as pessoas estão cada vez mais despojadas de necessidade de poder (isto é um sonho!); ao mesmo tempo, as guerras crescem, as tensões crescem, assim como a necessidade de poder e de tudo o que de negativo daí advém (veja-se o caso do nosso país agora, esta experiência com este governo maioritário, do “quero, posso e mando”, olhando a quem – e isso é que é o mais trágico). Portanto, acho que este texto, que é de 1955, precisamente pela sua universalidade, é de uma grande atualidade.