A fundação de Liberalitas Julia, designação atribuída por Julio César para honrar a fidelidade da cidade ao Império, remonta ao ano de 2000 a. C.. Também conhecida por Évora, a cidade preserva, ainda hoje, um autêntico legado concedido pela civilização romana. Não é por acaso que lhe assenta que nem uma luva o epíteto de Cidade-Museu. Também não é por acaso que, de cada vez que se erguem novos edifícios em Évora, ou se fazem remodelações naqueles que corroem, se descobrem sempre tesouros, para os quais já nem havia mapa.

Ele é ossadas, pequenas cidades-subterrâneas, utensílios do quotidiano, enfim, de tudo um pouco. Em Évora constrói-se sempre sobre o construído. Considerada Cidade Património da Humanidade pela UNESCO, em 1986, Évora acolhe atualmente cerca de 60 mil habitantes e é, sem dúvida, um lugar privilegiado para as lides académicas. Para quem está de chegada, aconselha-se uma prévia cirurgia de ampliação estomacal e muita força de vontade para vencer invernos árticos e sobreviver a verões estilo Saara. E, claro, não fiques surpreendido com o novo vocabulário que vais ouvir, com o tempo também dominarás o dialecto. Fica a saber o que vais poder encontrar em Évora quando começar o novo ano lectivo.

Para visitar:

1) Praça do Giraldo – “Às dez na fonte”. Esta é uma das frases mais célebres no seio dos jovens que vivem em Évora. O chafariz da Praça do Giraldo, construído em 1571, é um dos maiores pontos de encontro para quem planeia uma saída à noite. A pedido de D. Afonso Henriques, Geraldo Geraldes, de cognome “O Sem Pavor”, partiu à conquista de Évora. Disfarçado de trovador, rondou a cidade com o objectivo de definir a estratégia de ataque ao castelo, que era vigiado por um velho mouro e pela sua filha. Numa noite, Geraldo Geraldes subiu sozinho à torre e matou ambos os mouros, apoderando-se da cidade. Ainda hoje, a cidade ostenta no seu brasão a figura heróica do “Sem Pavor” segurando as duas cabeças mouras. A Praça do Giraldo é uma homenagem à bravura de Geraldo Geraldes. Aqui cruzam-se gerações, põe-se a conversa em dia, passeia-se debaixo dos arcos e recebem-se os camones. O coração de Évora.

Praca_do_Giraldo,_Evora,_Alentejo,_Portugal,_28_September_2005

2) Templo Romano e Jardim Diana – O erradamente denominado Templo de Diana é um santuário que não terá sido dedicado à deusa romana da caça mas, provavelmente, ao culto do imperador. Datado do século I ou II d. C., este templo romano de Évora é o maior exemplo da arte religiosa romana em Portugal, revelando grande equilíbrio e harmonia de linhas clássicas, próprias da arte greco-romana, apesar das destruições e saques de que foi alvo ao longo dos séculos. Contíguo ao templo, está o Jardim Diana, local muito procurado pelos turistas para conseguirem a melhor fotografia da planície alentejana.

3) Palácio de D. Manuel e Jardim Público – O atual Jardim Público de Évora foi construído por iniciativa municipal entre 1863 e 1867 nos terrenos que anteriormente tinham constituído a antiga horta real do palácio e do convento de S.  Francisco. Apresenta as características dos jardins da época, o traçado “orgânico”, o conjunto de elementos ornamentais, o gosto pela vegetação exótica e a evocação do tempo passado através da presença das “ruínas fingidas”. Nestas, foram especialmente utilizados elementos de janelas geminadas de estilo manuelino, talvez por eles traduzirem o imaginário romântico associado à contemplação e nostalgia da época dos Descobrimentos portugueses, e em particular o reinado de D. Manuel I. Circundado pelo jardim, o Palácio de D. Manuel, datado do século XVI, recebeu nos seus salões sete dos autos de Gil Vicente, dedicados às rainhas D. Maria de Castela e D. Catarina de Áustria.

4) Capela dos Ossos – Construída no século XVII, corria a contra-reforma religiosa, a Capela dos Ossos é um dos locais mais lúgubres da cidade. Não é bordada a ouro. É bordada a caveiras e ossos. Mais precisamente, cerca de 5000 mil ossos. No interior da capela, estão inscritos alguns versos alusivos à efemeridade da vida. À entrada pode ler-se “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. É sempre um passeio interessante para se fazer durante as fases de exames, em que só apetece mesmo morrer. É caso para dizer: ossos do ofício…

Capela_dos_ossos

5)  Sé Catedral – Consagrada a Santa Maria e situada também nas imediações do Templo Romano, a Sé de Évora terá sido fundada pelo bispo D. Paio em 1186 e terminada em 1204. No entanto, nada subsistiu desta fase inicial. A configuração atual da Sé concretizou-se ao longo do século XIII, numa linguagem arquitetónica do gótico inicial, apesar das remodelações subsequentes terem modificado a sua pureza original. A sólida fachada deste templo-fortaleza apresenta um profundo e magnífico portal de arco quebrado assente em doze colunas ornadas por um requintado Apostolado, que se individualiza na beleza fisionómica e nos seus respetivos atributos. Nas galerias superiores da ala norte da Sé, localiza-se o Museu de Arte Sacra, constituído por secções de pintura, ourivesaria, escultura e paramentaria. Desta coleção, destacam-se as tábuas quinhentistas dos pintores Garcia Fernandes, Cristóvão de Figueiredo e Gregório Lopes.

Sé_Catedral_de_Évora_-_Parte_Norte

6) Alto de S. Bento – Durante o dia ou durante a noite, o Alto de S. Bento é o lugar de eleição para os que não descolam e para os que querem colar. Porque Évora é tradicionalmente uma terra em que “as paredes têm ouvidos”, o melhor mesmo é jogar pelo seguro e fazer certas coisas à revelia dos mais bisbilhoteiros. Para além dos típicos moinhos, onde antigamente se fazia o pão, e do miradouro natural que proporciona uma vista de ponta-a-ponta da cidade, o Alto de S. Bento é perfeito para o piquenique romântico ou para a marmelada atrás dos arbustos. Também há quem opte por praticar downhill, mas descansem, há sempre um esconderijo ideal. Aproveito para deixar um pequeno aviso: se forem para lá à noite, desliguem as luzes do carro assim que chegarem para não incomodarem quem já estava instalado. Assim, sempre se evitam trocas de olhares constrangedoras. Deixem que as estrelas vos dêem a luz que precisam, se precisarem.

alto-de-sao-bento

7) Biblioteca Pública e Biblioteca do CES – Esquina com esquina com o Museu da cidade encontra-se a Biblioteca Pública de Évora, no mesmo largo que abrange o Templo Romano e o novo edifício da Fundação Eugénio de Almeida. Com esta localização privilegiada, a biblioteca pública é o cantinho sossegado que a maior parte dos estudantes da UÉ escolhe para se refugir da vida boémia lá fora e fazer pelas notas. Com mais de dois séculos de história e um arquivo impressionante, é considerada uma das bibliotecas mais antigas e mais ricas de Portugal. Por outro lado existem ainda as várias bibliotecas da própria Universidade de Évora, sendo a mais conhecida a do pólo principal do Colégio Espírito Santo (CES). Ainda que tenha um quarto do espaço que a biblioteca pública oferece, é igualmente rica na bibliografia para trabalhos académicos e coleções científico-humanísticas. Assim, aquilo que lhe falta em espaço, é compensado em fundo documental e também em beleza. É um espaço muito agradável, de forma que os poucos estudantes que conseguem encontrar uma mesa disponível, tem que se habituar também à presença ocasional de turistas curiosos.

8) Teatro Garcia de Resende – A exemplo de outros teatros construídos no séc. XIX, a construção do teatro resultou de uma iniciativa das elites locais, destinada a conter o desemprego e a criminalidade daí resultante. O grande proprietário José Ramalho Dinis Perdigão dinamizou a criação de uma Sociedade e, em 31 de Outubro de 1881, foi lançada a primeira pedra. O Teatro Garcia de Resende chegou a ser utilizado como depósito de lixo, até que, em 1975, na sequência da Revolução dos Cravos, foi ocupado pelo Centro Cultural de Évora, que a partir dali deu início à primeira experiência de descentralização teatral. Atualmente, é gerido pelo CENDREV (Centro Dramático de Évora).

teatro-garcia-de-resende

9) Fórum Eugénio de Almeida – Se te interessas por exposições de pintura, escultura e outras, este é o sítio indicado para visitares durante a tua estadia em terras eborenses. O fórum conta com uma zona de exposições, um auditório com capacidade para 156 pessoas, uma sala multiusos com 70 lugares, sala de conferências, loja e cafetaria.

83b27aa8ac040f5301925001a62538158ffbc30d

10) Kartódromo – Dizem que os alentejanos são lentos e os alentejanos dão uma resposta à altura. No Kartódromo de Évora, a lentidão é palavra proibida e a adrenalina é condição sine qua non. Se quiseres ser o dono do volante durante dez minutos, o custo é de 10 euros para não-sócios e menos 1 euro para associados. Por 20 euros, os não-sócios podem testar as suas habilidades durante 20 minutos, ao passo que os sócios pagam 18€. Por fim, podes ainda desfrutar da pista durante 30 minutos (com oferta de dez) por 30 euros, 27 caso sejas sócio. Tens ainda a possibilidade de alugar um kart de dois lugares e partilhar a experiência com um amigo ou amiga.

Para saborear:

É preciso notar que uma das coisas positivas de Évora é a sua dimensão, nem pequena nem grande e com tudo à mão de semear. Para quem não quer estar dependente do carro para ir para casa, não há melhor, desde que o cambalear não seja tão intenso que nem dê para andar dois metros.

1) Praxis Club – Durante muito tempo sem concorrência, tornou-se no principal destino para as noites mais longas de Évora. Sediada dentro das muralhas da cidade desde 2003, o Praxis Club tem várias pistas de dança, para vários gostos musicais, e dispõe também de uma esplanada para poderes recuperar as energias e usufruir de umas boas rajadas de ar fresco. Conta com a presença de vários DJs convidados e com bebidas a preço low-cost até às 2h30.

2) Manel dos Potes – Uma das mais emblemáticas tascas da cidade. Podes chamar-lhe tasca ou pista de aquecimento hepático. Um espaço mais tradicional, sem fronteiras entre jovens e mais velhos, com um cartão de visita que não vais esquecer: os famosos shots de abafadinho a 0,50 euros. De beber e chorar por mais.

3) Cafetaria a Tuna – Sítios para beber imperial com os amigos há muitos em Évora, mas nenhum como a tuna. Mesmo à porta do CES, o que distingue este pequeno estabelecimento, para além de ser um ponto de encontro para todos os universitários, é a companhia do dono, o Sr. João, que desde manha até bem tarde acompanha com paciência todos os boémios que lá lhe aparecem. Já acompanhou várias gerações de estudantes da UÉ e continua a fazê-lo ainda hoje, como um “velho amigo” que conhece bem o forte espírito académico eborense.

4) 6Tetos – Pontos fortes: imperial barata, seis mesas de snooker, três alvos de dardos, três mesas de matraquilhos, playstation e dois bons ecrãs para os dias de bola. Ponto fraco: chaminé humana em constante atividade.

5) Aqui há Gato – Se Évora tivesse um Fight Club, seria o “Gato”, muito cool mas simultaneamente muito undergroud. O que é um ponto positivo, pois se a sua localização fosse mais central e a quantidade de mesas para sentar fosse maior, perderia toda a sua essência. Pequeno, reservado mas sem quaisquer outros defeitos. O “Gato” não desilude, com um óptimo ambiente, boa música e ‘canhas’ a 0,50 euros. Plus: shots a 1 euro.

6) Sociedade Harmonia Eborense – Fundada em 1849 e localizada na célebre Praça do Giraldo, a SHE abre portas à heterogeneidade de Évora, primando pelos signos da amizade, do convívio e também do debate mais político. O programa de atividades é rico e abrange praticamente toda a semana. As segundas-feiras são noites dedicadas ao cinema; às quartas, são convidados artistas para protagonizarem um showcase; O DJ temático gira o disco às quintas-feiras; as chamadas “Friday Night” contam também com a presença de um DJ; e o sábado é o dia escolhido para os concertos. Para visitares a SHE, podes fazê-lo enquanto sócio efetivo ou temporário. Como sócio temporário, pelo custo de 3 euros tens luz-verde para entrar as vezes que quiseres na SHE durante o período de um mês.

7) Largo do Verney – Nas proximidades do largo 1.° de Maio, o pólo universitário Luís Verney desboca numa pequena praça cheia de boas alternativas. Um bom plano poderá passar por lanchar na esplanada da “Charcutaria da Praça”, tomar uma imperial barata n’ “A Janela” e aproveitar o “Comes&Companhia” para uma refeição boa e a preços muito justos, inclusive em jantares de grupo com muita sangria.

8) EMEPara quem gosta de ouvir música, mas não gosta de discotecas. Para quem não quer ir para casa cedo, mas não é adepto de diretas. O EME é o híbrido dos bares. Com um consumo mínimo obrigatório de 1 euro e meio, podes sentar-te confortavelmente num terraço privilegiado, indicado para as noites quentes de verão, e ouvir alguns dos últimos hits da música comercial, sem compromissos de dar um pezinho de dança. No inverno, o melhor é mesmo ficar lá por dentro.

9) JAA (Joaquim António de Aguiar) – Se a tua noite ideal é passada ao som dos 80s ou se tens preferência pela música mais alternativa, JAA não precisas de procurar mais. No JAA, encontrarás um ambiente eclético, mais barulhento e muito frequentado por malta estrangeira. Se tiveres uma tatuagem tribal e/ou um piercing passas despercebido. Caso não tenhas nem um nem outro, nada que pagar uma rodada não resolva.

10) Lavrador e Casa das Pitas – O Lavrador é o exemplo máximo da regra dos 3B’s (Bom, Bonito e Barato). Lá vais poder lavrar bem o estômago, com as deliciosas mega-tostas, com sabores que vão desde a carne picada à banana com queijo. Isto tudo sem teres que andar muito, porque a universidade fica bem perto. Exatamente na mesma rua que o Lavrador, a Casa das Pitas é ideal para quem está com a fisgada do kebab. Tudo low-cost.

Artigo de Rui Ramalho, com revisão de Beatriz Nunes