Reciclando o seu único grande sucesso da carreira, John Carney está de volta aos dramas musicais com Num Outro Tom, um filme que não tem tanto drama quanto promete e que levará alguns a ter um déjà vu. Estreia hoje nas nossas salas.

O produtor musical Dan Mulligan (Mark Ruffalo) acabou de ser despedido, a sua ex-mulher e filha não têm qualquer consideração por ele e os problemas económicos são cada vez maiores. Mas quando conhece Gretta (Keira Knightley) e ouve a música que a própria compôs, Dan vê nela uma artista que o pode levar de volta ao sucesso. O que ele não sabe é que ela vai não só mudar a sua carreira, como também ajudá-lo com os restantes problemas da sua vida, enquanto vai também ela refletindo sobre os seus problemas pessoais.

Ao contrário do que o título em português possa indicar, esta não é uma sequela de No Mesmo Tom, o grande sucesso de 2006 realizado por John Carney. Em vez disso, Num Outro Tom é mais um remake do filme irlandês realizado por ele mesmo. Sim, o realizador fez ele próprio uma nova versão do seu excelente trabalho de há oito anos. As ideias da fita original estão todas lá: um artista amador que é encorajado por um novo amigo a lançar-se no mundo da música, ambos têm os seus problemas pessoais, ambos se ajudam mutuamente, etc. Até algumas falas são quase que roubadas ao argumento de No Mesmo Tom. Tudo isto nos leva a concluir que Carney foi preguiçoso: quis voltar à ribalta e para isso reciclou descaradamente o seu maior êxito.

E reciclou-o para pior! Nunca há uma pequena pitada de drama ou de dificuldades no caminho das personagens, o que faz com que a história se desenrole quase como um conto de fadas. Depois de Dan ter sido despedido e Gretta ter acabado com o seu namorado nos primeiros minutos de Num Outro Tom (naqueles que são os únicos dos seus problemas), os dois começam uma caminhada nova juntos onde não encontram um obstáculo que seja, correndo-lhes tudo às mil maravilhas: começam a gravar o álbum da cantora sem problemas, conseguem restabelecer contactos com pessoas com as quais se haviam chateado nos últimos tempos, etc. Toda esta onda de otimismo é mais que escusada, especialmente porque muitos temas que poderiam dar início a uma discussão ou até crítica a alguns problemas sociais (desemprego, alcoolismo, famílias com más relações) são “escondidos” por um enredo demasiado alegre, que torna um suposto drama numa espécie de comédia.

E aquelas ingenuidades que se encontram na maioria dos musicais (uma banda faz uma boa canção improvisada, um grupo de miúdos com mau aspeto afinal são excelentes cantores…) estão bem presentes na longa-metragem, o que até nem seria mau de todo se Carney quisesse, de facto, fazer um filme desse género. Mas no momento em que o realizador revela tiques indie, desde a obsessão por uma câmara tremida até à presença da atriz Catherine Keener (conhecida por ser das intérpretes mais escolhidas para filmes independentes), e tenta dar um tom sério ao seu trabalho, todas as vezes em que somos confrontados com tanto cliché musical tornam-se enervantes.

A verdade é que, no meio de tudo isto, Num Outro Tom acaba por conseguir… entreter. Sim, é chato vermos clichés e sinais de clara preguiça por parte do realizador e argumentista John Carney. E conhecendo a história de No Mesmo Tom não nos restam dúvidas de como vai acabar o filme. Mas os diálogos muito bem conseguidos e recheados de referências musicais são suficientes para ficarmos agarrados à história e gostarmos das personagens. Alguns poderão até identificar-se com as dificuldades que elas atravessam nos primeiros minutos do filme, especialmente com Gretta, a protagonista que tem os dramas mais interessantes e que é desempenhada pela maior estrela do elenco: Keira Knightley. Para além de transportar uma grande emoção nas cenas mais delicadas para fora do ecrã, consegue ainda mostrar um grande à vontade e descontração nos momentos mais divertidos, contrastando com o overacting de Mark Ruffalo, desesperado em atrair as atenções para ele de modo a provar que é melhor ator que os seus últimos projectos fazem parecer.

Keira Knightley é mesmo o pilar essencial de Num Outro Tom pois é ela que dá voz à agradável banda sonora. Embora não seja tão boa com a de No Mesmo Tom (que venceu até o Oscar de Melhor Canção Original), não deixa de ter alguns temas muito bons e com uma interessante banda de apoio de fundo. Alguns temas podem ser demasiado comerciais para um filme independente/musical, mas foi a forma que Carney arranjou para atrair mais público. Aliás, o realizador tomou várias medidas para trazer mais gente às salas noutros pontos da sua obra, como a inclusão de Adam Levine e de Cee Lo Green no elenco, que serve somente para chamar os fãs dos músicos, já que as suas personagens e interpretações são muito fracas.

Os fãs do sucesso que atirou John Carney para a ribalta em 2007 vão encontrar em Num Outro Tom uma cópia barata de No Mesmo Tom. Mas este novo filme não deixa de oferecer alguns bons momentos e alguma diversão ao som de uma agradável banda sonora.

6/10

Ficha Técnica:

Título: Begin Again

Realizador: John Carney

Argumento: John Carney

Elenco: Keira Knightley, Mark Ruffalo, Adam Levine, Hailee Steinfeld, Catherine Keener

Género: Drama, Comédia, Musical

Duração: 101 minutos