O Retorno, publicado pela Tinta da China, coloca Dulce Maria Cardoso como uma escritora a ser colocada no panteão dos maiores, segundo João Bonifácio do Público. E não posso deixar de concordar. É com esta obra que a escritora começa a ser mais comentada nos meios de comunicação social e pelo público ao trazer um assunto nunca antes tocado de forma tão direta: os retornados.

É 1975, chegam a  Portugal centenas de retornados graças à independência das colónias portuguesas de África. Ódio e intrigas acabam por começar a partir do momento em que as pessoas chegam aos aeroportos. Mais de meio milhão de cidadãos, segundo as estatísticas, regressam à chamada metrópole sem nada nas malas, nos bolsos e com a vida destruída: tudo o que foi construído em África foi deixado para trás, ao abandono. É assim que começa O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, publicado em 2012 pela Tinta da China e, dado o sucesso que obteve, acabou por ver a luz do dia como uma versão de bolso.

Com tanta oferta nas livrarias portuguesas, são poucas as vezes em que começo a ler dois livros quase seguidamente do mesmo escritor. Dulce Maria Cardoso foi uma das que conseguiu prender-me por ter lido um livro menos badalado nos meios de comunicação social e pelo público, O Chão dos Pardais. Dada a mediatização à volta deste livro, decidi começar a lê-lo e formar a minha opinião. Não é uma brisa de ar fresca à espera do leitor, o sensação de escuridão assente na maioria das páginas e apodera-se do leitor para o levar para um cenário de medo e insegurança.

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Duas sensações sentidas por todos os retornados, utilizado todas vezes como um nome pejorativo para os que voltaram. Para todas as pessoas que saíram, no passado, da metrópole para procurar uma vida melhor e regressaram, em 1975, sem nada nas mãos e muitas vezes sem família para os receber. São acusados de explorar os pretos, ouvem as afirmações das pessoas a dizerem que é merecido o que lhes aconteceu, vão roubar os empregos de quem cá está e os comentários continuam por aí fora. É neste meio que o leitor conhece o jovem Rui. Com quinze anos, adolescente e a tentar compreender o mundo à sua volta no momento em que é obrigado a deixar a sua casa em África, a sua vida e os amigos para se instalar com a família num hotel do Estoril.

Pelos olhos do jovem protagonista, sente-se um misto de revolta, de questionamento sobre os acontecimentos à sua volta – como o desaparecimento do pai para acompanhar um grupo de negros com espingardas –, de tristeza e de dor, que tantas vezes se vê a apertá-lo. Mas um homem não chora, conta o protagonista, tem de ser o homem da casa por o pai ter sido levado pelos negros e não ter embarcado com eles para Lisboa. E ao chegarem a Lisboa, os hotéis assumem um papel diferente do habitual.

Se para a maioria os hotéis são lugares de descanso, associado a férias, neste Retorno assume o papel de lugar de refugio para os que não têm casa, nem familiares que os recebam em terras portuguesas. É o local onde Rui fica durante uns bons tempos, a dormir num só quarto com a irmã Milucha e com a mãe, atormentada pelos demónios como conta o jovem. É retratado de uma forma brilhante o regresso dos retornados a Portugal, se não me engano ainda nenhum livro tinha retratado este acontecimento de uma forma tão direta.

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Sendo Dulce Maria Cardoso também uma retornada, é de louvar o seu esforço em contar uma história diferente num acontecimento pelo qual também passou. Com certeza que existirá alguns episódios que são autobiográficos mas, na maioria, entramos nos pensamentos e comportamentos negros do protagonista. Não é uma obra fácil, tendo em conta que os capítulos são longos, vários pensamentos encadeados em que é necessária a atenção do leitor.

Tal como em O Chão dos Pardais existe, na minha opinião, uma divisão no enredo em duas partes: antes da partida de Rui e a família para a metrópole, em que o leitor tem uma visualização do ambiente na colónia portuguesa, e quando estão instalados no hotel do Estoril, aparentemente sem esperança e com medo de virem para a rua, sem um lugar para irem. É uma esperança que acaba por nascer no final das páginas, a caraterística que a maioria dos portugueses não sente atualmente – época de crise económica e de valores. Tal como a escritora disse numa entrevista, as pessoas na altura tinham esperança e isso é algo que não acontece por agora em Portugal ou pela Europa.

Em suma, tenho de ser sincero que O Retorno não é o meu livro predilecto dos dois que já li da Dulce Maria Cardoso. No entanto, é real, humano, retrata os sentimentos que uma guerra provoca num ser humano – especialmente num jovem com quinze anos – e oferece uma visão esperançosa para todos os que já não a têm.

Nota final: 7/10

Conhece um pouco mais da obra, no vídeo do Ler Mais Ler Melhor: