O MOTELx’14 despede-se do público, depois de ter assombrado Lisboa por cinco dias consecutivos. Numa combinação de diferentes estilos, este foi o dia com mais variedade, começando em psicopatas japoneses e acabando num musical sangrento o derradeiro dia do festival surpreendeu.   

Antes de passarmos aos filmes há que assinalar que João Nunes leva para casa o prémio de melhor curta de terror portuguesa, com o seu Pela Boca Morre o Peixe. Numa cerimónia de encerramento repleta de aplausos esta foi a curta que triunfou e mostrou o que de melhor se faz ao nível do terror em Portugal.

No último dia do festival o Espalha-Factos assistiu a três longas-metragens, todas elas bastante diferentes uma das outras. Apesar da inconsistência de temas este foi, sem dúvida, o dia mais consistente em termos de qualidade. Ora temos um filme japonês sobre dois serial killers psicopatas que documentam cada morte em vídeo, um filme indie norte-americano que nos conta a história de uma maldição mortífera e ainda um musical, sim estão a ver bem, um musical de terror com bastante sangue e gritos à mistura.

Killers – 7/10kiraazu-sinekdoks-1

O mais recente filme dos Mo Brothers chega-nos do Japão e traz consigo um terror bastante psicológico que promete deixar a sala fixada no ecrã durante a longa duração da película. E é mesmo esse o aspecto que tão bem funcionada neste filme, o terror psicológico que nos faz entrar dentro da mente de um psicopata e perceber quais as razões que o move. Mais assustador que ver sangue a sair de corpos inanimados é perceber o quão doentia pode ser uma pessoa e temos essa experiência em pleno com Killers, o que revela um bom trabalho tanto de realização como de argumentação.

O filme está dividido em duas storylines, por um lado temos o tal psicopata japonês (Nomura) que vive por Tóquio, mas do outro lado temos um jornalista (Bayu) indonésio que é um recém introduzido à arte de matar. E é aqui que o filme dá um passo em falso, a primeira história é bastante superior à segunda que, sendo razoável, fica inevitavelmente na sombra da storyline de Nomura. O próprio argumento parece algo desleixado nas partes de Bayu e, além do mais, o próprio público revela-se muito mais interessado sempre que Kazuki Kitamura, actor que representa Nomura, aparece na grande tela.

 Em suma, um filme que vive pela sua forte storyline que decorre em Tóquio, mas que se perde pelas estranhas ruas de Jacarta com a desinteressante história de Bayu. Percebemos a intenção da intercepção das duas histórias, mas era escusado quando já tinham uma personagem tão forte quanto a de Nomura.

It Follows – 8/10

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Estreado na Semana da Crítica em Cannes, It Follows passou agora por Lisboa pela mão do MOTELx. Caracterizado pelo Indiewire como “terror adolescente como nunca visto” este é um filme que acaba por se tornar numa boa surpresa no meio da programação. Um indie que consegue fazer face às suas restrições orçamentais e que nos presenteia com um argumento que, podendo não ser o mais original dentro do género, contorna os clichés e entrega uma óptima experiência cinematográfica.

Este filme é um fresco take no subgénero de maldições e terror adolescente. Com uma premissa bastante básica mas, ao mesmo tempo interessante para o espectador, faz com que não nos cansemos de olhar para o ecrã e que estejamos genuinamente interessados nas particularidades desta peculiar maldição e ver como diferentes personagens reagem à mesma.

Com um eficaz trabalho por parte de todo o elenco, It Follows revelou-se, mesmo, um filme obrigatório nesta edição do festival. Encabeçado por Maika Monroe, que nos entrega uma aflitiva performance, ela revela-se cada vez mais apta ao género de terror,não esquecendo que também deliciou o público em The Guest, outro filme que constava na programação deste ano do MOTELx. Monroe entrega-nos uma interessante Jay, confinada à sua maldição, uma rapariga cheia de fragilidades e inseguranças que, no final do dia, se torna na heroína da história e uma mulher bastante mais poderosa.

Concluíndo, It Follows é uma boa surpresa no festival e revela o que o sangue novo tem para oferecer ao cinema de terror. As perspectivas não podiam ser melhores!

Strage Fright – 6/10stageFright_DVD_banner

Este foi o filme escolhido para encerrar mais uma edição do MOTELx. A escolha não poderia ter sido mais polémica, já que nem todos os dias vemos um musical de terror, ainda para mais um musical trash que se afirma quase como uma paródia dos dois géneros. O filme é mau, muito mau, mas é isso o ponto forte dele.

Por incrível que pareça este foi o filme que mais gritos conseguiu do público, com alguns jump scares bem preparados e os espectadores mais desprevenidos graças à leveza do decorrer da acção. De facto, este filme não só fez com que o público gritasse como também que se risse a bandeiras despregadas, não tivesse ele uma pitada de humor negro, algo tão em voga nesta edição do festival terrorífico.

Allie MacDonald foi talvez o ponto forte do elenco, que em si foi bastante fraco. MacDonad no entanto entrega uma sólida performance no meio de tanta mediocridade. E apesar de tu nos fazer rir, este filme trash se se levasse a sério estaria aqui a explorar novos caminhos num subgénero muito pouco explorado, os musicais de terror. A ideia é cativante para os fãs de terror e de musical, o mais perto disso é mesmo o Sweeney Todd de Tim Burton, mas mal não fazia se este Stage Fright fosse uma produção séria para que o subgénero se consolidasse. Assim nunca irá passar de uma anedota…

E assim se coloca um ponto final nesta oitava edição do motel onde o terror é bem-vindo. O Espalha-Factos orgulha-se de ter estado presente em mais uma edição do festival e estaremos aqui para o ano, que venha o MOTELx’15.