O fumo preenche a sala do Teatro Turim. O vermelho é, evidentemente, o protagonista. Começam a aparecer fotografias no ecrã iluminado por um fio intenso de luz branca. Sons macabros, efeitos de luzes de assustar e retratos minimamente assustadores começam a dar aura a Funnymaton neste primeiro momento de introdução visual. O aviso vem mais tarde, na peça, mas podemos já dizer-te: este é um começo impróprio para epiléticos. O que vamos aqui encontrar? Isso continua a ser uma incógnita.

Entra em palco João Troviscal, com a t-shirt da Abrenúncio, e sabemos que Funnymaton está prestes a vir ao de cima. A coordenação entre as cores, imagens, luzes e músicas faz-se notar. Mas é quando Troviscal começa a falar que a desconstrução inicia. Pedro Luzindro aparece no meio do público a encarnar um verdadeiro fã dos espetáculos estáticos: “este é daqueles espetáculos em que o espetador é chamado a palco?” Seria este o primeiro momento de humor encenado que justifica chamar a Funnymaton uma peça de teatro, uma vez que o resto passa por um stand-up ensaiado (e, por vezes, improvisado) enquanto se espera pelo revelar de fotos.

funnymaton

Passada esta interrupção, Troviscal diz ao que vem: “fazer uma coisa arrojada e paradoxal”, como bem se pretende. Aquilo que se quer é continuidade, contrariando a efemeridade habitual das peças de teatro que ali terminam. E como se vai fazer isto? Com um ‘artefato físico’: tirar fotografias, revelá-las e, depois, oferecer ao público. Uma fórmula não testada – a nosso conhecimento – e que dá o twist necessário para valer a pena ver Funnymaton.

Funnymaton é um espetáculo que se realiza numa ode à fotografia, passando pela história, pelos momentos caricatos e pelas marcas profundas que carimbam a progressão da fotografia analógica para a fotografia digital. O público, apesar de reduzido, tem um papel principal neste espetáculo de variedade – onde se revelam fotografias – disfarçado de peça de teatro acolhido pelo Teatro Turim. O público sugere, ri, faz rir, levanta-se e dá voz e corpo a Funnymaton, quebrando qualquer barreira que existisse.

selfie

Num espetáculo sobre fotografia era necessário tirar uma selfie com o público presente. 

Enquanto se espera pelo revelar das fotos tiradas no início do espetáculo pelo público, em palco desenrolam-se uma série de momentos com pózinhos de comicidade. Apesar de uma tentativa esforçada, a dupla não consegue, porém, evitar momento mortos ou falhas que expostas até ganham a simpatia do público. Para além de usar a luz, a projeção e o guião soluçado, Funnymaton usa ainda a música, tal como o hit da noite – Agitação Contínua – para regar os momentos de intervalo. Pelo meio há improvisação sugerida pelo público pautada por um relógio.

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Funnymaton bebe das experiências pessoais da dupla e é neste partilhar que arrancam mais gargalhadas, num desafio de autodepreciação notável. Há até meta-momentos onde, como explicam, fazem uma encenação para justificar que Funnymaton seja uma ‘peça’ num teatro. 1h30 de espetáculo que chega para falar sobre pedofilia e pissing na mesma frase, do Tinder, do Photoshop, das famosas selfies e de outras trivialidades. Mas é no final que a seriedade vem ao de cima: a importância da fotografia na vida de um ser humano, principalmente da fotografia analógica, física, palpável. Pronto, está revelada.