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Os Maias: uma desilusão de geração em geração

É preciso sinopse? Todos os que estão a ler esta crítica já leram (ou passaram os olhos) pela história que se desenrola por 720 páginas com o carimbo de Eça de Queirós. Da escrita para o ecrã, as diferenças não são assim tantas. João Botelho, realizador português, pegou no drama incestuoso do século XIX que nos traz Afonso da Maia, Carlos Eduardo da Maia, Maria Eduarda e João da Ega a protagonizar esta trama. Por ironia do destino (Afonso é formado em Medicina), a conclusão final é esta: destino sem remédio, tanto para a família Maia como para Portugal. Os Maias – Alguns Episódios da Vida Romântica estreia esta quinta-feira, dia 11 de setembro, em Portugal.

A Ar de Filmes traz-nos Os Maias em 2014 numa versão que vem colmatar a falha de adaptação cinematográfica de um clássico da literatura portuguesa (sem contar com a versão brasileira de Os Maias, disponível no Youtube, e provavelmente do conhecimento dos estudantes do 11º ano de Português).

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O primeiro contacto com Os Maias é a preto e branco o que dá a noção clara de que estamos noutro século. O narrador faz as hostes, e acompanha-nos durante toda esta trama tão bem conhecida do público português. A mudança para as cores dá-se depois da introdução que nos leva agora a acompanhar a mais recente geração dos Maias encabeçada por Carlos Eduardo e, mais tarde, pela irmã Maria Eduarda.

A música clássica, como seria de esperar, acompanha narrativa. As cenas de ópera ou da intervenção de Tomás Alencar no Teatro Nacional de São Carlos é um dos pontos fortes deste filme, onde se mostra a beleza deste local e se incorpora de melhor forma a aura daquele tempo.

Mas são as noites de boémia que alegram o Ramalhete e que nos trazem a filosofia daqueles tempos. Entre a crítica social, o delírio pelo pensamento filosófico ou as intrigas da sociedade lisboeta – a boémia que ali se instala é catalisadora dos melhores momentos dramáticos e cómicos do filme. Aliás, a comédia alastra-se a todo o filme, seja com a ‘sonata patética’ de Tomás Alencar, seja com o palavreado do já só por si cómico Dâmaso.

À medida que se conta a história de incesto da família, também se vai retratando os costumes e feitios da época, apesar do filme falhar em o fazer tão bem quanto o livro. A maior parte deste retrato social vem a partir da experiência do protagonista: o próprio Carlos Eduardo vê-se no meio de uma sociedade que o condena e difama. A certa altura, diz: “nunca se sabe se o que sucede a uma pessoa é bom ou mau… ordinariamente, é mau”.

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Este é um filme que vive das interpretações. Ao início, tudo nos parece uma peça de teatro gravada para cinema, mas rapidamente essa ideia deixa de fazer parte do nosso pensamento. Atores experientes como João Perry, Pedro Lacerda, entre outros, ou até os cameos de Rita Blanco e Catarina Wallenstein dão a Os Maias um respirar de talento.

Mas os aplausos cinéfilos vão mesmo para Graciano Dias e Pedro Inês (Carlos Eduardo e João da Ega) que construíram uma química capaz de os fazer uma dupla imparável no ecrã. O filme vive muito desta parceria e, posteriormente, da doce Maria Flor que nos entrega uma dividida Maria Eduarda e do enérgico Hugo Mestre Amaro que nos lança um Dâmaso irritadiço. Por fim, uma referência ao trabalho de Marcello Urgeghe que, apesar de discreto, marcou o grande ecrã com a fluidez do discurso.

As cenas exteriores foram todas gravadas em estúdios com o uso de telas pintadas pelo pintor João Queirós. Se, por um lado, este facto diminuiu consideravelmente os custos de produção (orçamento de 1,5 milhões de euros), por outro lado fez com que o filme se tornasse mais amador, numa mistura entre cenários reais e cenários construídos que nos deixa insatisfeitos com a falta de harmonia do resultado final. O pior desta técnica está na Quinta de Santa Olávia: um local tão importante na narrativa é reduzido à narração e ao mostrar as personagens sempre no mesmo local. Isto sim, uma desilusão.

Este é um filme de, essencialmente, desilusões. De geração em geração, a família dos Maias é triturada gradualmente por suicídios, más escolhas, adultérios, fugas, e tudo mais. Um autêntico dramalhão naquela casa de Benfica. Aliás, os locais por onde a família passa estão todos marcados pela história das gerações, principalmente a Quinta de Santa Olávia, esse refúgio de clarificação. A desilusão prolonga-se também ao próprio filme: não se pode criticar de forma fatal o trabalho de João Botelho, é certo, mas pode dizer-se que as expectativas estavam mais altas. Os Maias, porém, não deixam de ser um bom filme. No entanto, não chega à categoria de obra cinematográfica que se equipare à obra literária de Eça de Queirós.

7/10

Ficha Técnica:

Título: Os Maias

Realizador: João Botelho

Argumento: João Botelho a partir da obra de Eça de Queirós

Elenco: Graciano Dias, Pedro Inês, Maria Flor, Marcello Urgeghe, Hugo Mestre Amaro, João Perry, Rita Blanco, Catarina Wallenstein.

Género: Drama

Duração: 135 minutos

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