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Os Maias: a versão integral de João Botelho

Ao mesmo tempo que o filme, com duas horas e 17 minutos, chega hoje a várias salas de cinema do país, a adaptação da obra de Eça de Queiroz poderá ser também vista na versão do realizador, numa iniciativa exclusiva do Cinema Ideal. Com mais 50 minutos, a descoberta desta director’s cut compreende mais cenas, que nos proporcionam uma visão cinematográfica mais alargada desse clássico da literatura. A não perder.

A história todos conhecem, e as personagens também. Mas recapitulemos, para aqueles que, porventura, se terão esquecido de tamanha complexidade (porque o mundo de Os Maias é vasto, e porque João Botelho selecionou somente alguns dos “episódios” do livro, que são também os pontos-chave da obra): há, obviamente, a paixão principal da história, mas ainda vemos, com deleite, as polémicas conversas políticas e sociais entre Carlos da Maia, o seu amigo João da Ega e todos os seus ilustres comparsas, as rivalidades com Dâmaso Salcede e a sátira irónica e corrosiva à hierarquia de classes contemporânea ao autor.

Os Maias – Cenas da Vida Romântica é mais do que uma simples adaptação, e mais do que um filme que servirá apenas para qualquer estudante do ensino secundário que repudie o enorme prazer da leitura. Felizmente que isso não acontece porque, tal como outras grandes obras da literatura, protegidas por um status intocável (que mais foi criado pelos especialistas na matéria do que propriamente pelo material em si), esta parece ser, para muita gente, uma peça completamente impossível de ser transposta, com o devido respeito, para o grande ecrã.

Mas Botelho não cede a essas maledicências e frases feitas, e com o auxílio de algumas invenções visuais bastante curiosas, e seguindo à risca e com detalhe as palavras de Eça (o argumento é constituído apenas por transcrições literais do livro), o cineasta consegue vencer em duas coisas: criando um filme “digno” do livro que adapta (e que poderá conquistar, até, os mais cépticos), e criando um filme coerente que consegue, em parte, viver por si só, por ter a sua própria visão artística, construída a partir desse livro. Porque é de originalidade que falamos, apesar de tantos de nós sabermos as atribuladas desventuras de Carlos da Maia de trás para a frente – originalidade essa que começa pelo uso perspicaz de cenários exteriores pintados à mão, que atribuem ao filme uma dimensão teatral impressionante (e que, por outro lado, aumenta ainda mais a nossa perceção da ilusão que estamos a contemplar).

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Pode ser, sim, uma carta de amor ao que de mais genial Eça escreveu, mas esta versão de Os Maias atenta sobretudo na atualidade do texto. Isto está muito bem vincado nesta versão extendida (e cujas três horas, vale a pena referir, passam num instante) e nos discursos e discussões de várias personagens, que ainda hoje nos fazem rir e pensar, com alguma tristeza, na situação ridícula, e exatamente igual à desta época, em que continuamos metidos.

Mais do que uma recriação cinematográfica, Os Maias – Cenas da Vida Romântica é um filme político, que conjuga o drama com a comédia com a sensatez e estratégia do livro de Eça de Queiroz, sem nunca deixar de se adequar à linguagem do cinema, e sem nunca desprezar as emoções das suas personagens, a conjuntura em que estas se inserem, as circunstâncias que as envolvem, e as consequências das suas vidas aristocráticas num Portugal desconjuntado, eternamente à procura de uma identidade que, ainda em 2014, não conseguiu encontrar.

Com um magnífico leque de atores, escolhidos a dedo para cada uma das personagens que interpretam (e o mais brilhante de todos é Pedro Inês como João da Ega, certamente), a versão do realizador de Os Maias é uma delícia para os olhos, e que poderá agradar a todos os que gostam e não gostam do livro e das suas peripécias. Se a versão editada com 137 minutos poderá ser mais facilmente apelativa para a maior parte do público, esta com um pouco mais de 3 horas desenvolve, com um maior interesse e inspiração, o rumo das personagens, os seus sentimentos e as suas posições na sociedade do seu tempo. Uma preciosidade que é, também, mais uma de muitas gloriosas boas surpresas de 2014, um ano riquíssimo para o cinema português.

9/10

Ficha Técnica:

Título: Os Maias – Cenas da Vida Romântica

Realizador: João Botelho

Argumento: João Botelho, a partir da obra de Eça de Queiroz

Elenco: Graciano Dias, Pedro Inês, Maria Flor, João Perry, Adriano Luz, Filipe Vargas, Marcello Urgeghe

Género: Drama, Histórico, Romance

Duração: 187 minutos

  1. Gostei do filme. Obra coerente e que é fiel à qualidade da obra. Poder-se-ia tirar mais partido da Lisboa queirosiana, tão bem descrita por Eça, bem como das magnificas paisagens do Douro, ou do próprio Grémio Literário, já para não falar de Sintra. No entanto, gostei da opção teatral dos cenários pintados. Já os tinhamos visto utilizados de igual forma no filme de Joe Wright ” Ana Karenina” em 2012. A cena das corridas aliás é muito idêntica. Feitos estes comentários , no seu todo gostei muito do filme. Denso,dramático,retrata a sociedade da época, o desencanto de um país desorganizado e à deriva que ainda hoje não se conseguiu encontrar.

  2. João Botelho ,na versão para o grande público,que foi a que vi,centra-se essencialmente NOS EPISÓDIOS DA VIDA ROMÂNTICA E NO romance CARLOS MARIA EDUARDA que estão interligados com esses mesmos episódios.

    Quem não conhecer a obra pouco fica a saber sobre a História da Família e as diferentes épocas da história portuguesa que representam.Foi uma opção,assim como opção foram os cenários sobre Lisboa .Esta última opção não me agradou.Lisboa é uma cidade linda, a zona onde a ação se desenrola um encanto.Acho que a deviamos mostrar em pleno num clássico como este .A fadista a cantar no final do filme está ali a mais.Gostei das interpretações de EGA e Carlos e ,apesar de um pequeno papel.RITA BLANCO interpreta-o muitíssimo bem mostrando-se com grande segurança em frente às camaras. Podia ter-se tirado mais partido do nosso património no que diz respeito à LISBOA QUEIROSIANA, mas…são opções.

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